3 de julho de 2024

Tempo de Leitura: 2 minutos

A primeira vez que falamos sobre a minha mudança de Belo Horizonte para Pelotas foi em um vídeo do Mundo Autista sobre independência e autonomia. Naquela época, eu estava extremamente feliz e emocionada. Afinal, a experiência de morar sozinha e longe da família era algo inimaginável até pouco tempo atrás.

Na verdade, o prognóstico quando houve o meu diagnóstico na pré-adolescência era de dependência total dos pais. E sem a possibilidade de cursar uma graduação. Além disso, ainda como jovem adulta, eu apresento limitações muito maiores de autonomia e regulação emocional.

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Inteligência, autismo e a autonomia de uma adulta neurotípica

Com isso, não é raro eu ter comportamentos e dificuldades que uma criança com menos de dez anos usualmente já superou. Isso ocorre ao mesmo tempo em que, intelectualmente e principalmente nos testes de inteligência verbal, eu seja considerada alguém muito mais preparada para desafios grandiosos do que a média da população. O reflexo dessa discrepância está no meu teste de QI, que acusa um nível muito mais alto para os testes que envolvem comunicação e linguagem.

De qualquer forma, mudar-me para Pelotas simbolizou naquele momento o rompimento definitivo com antigas crenças de incapacidade. Afinal, durante toda a minha vida, eu estava sendo preparada para enfrentar os percalços de um dia a dia comum. Isso porque a minha mãe, muito mais pela fé aliada à rigidez de pensamento do que pelas evidências da época, sempre acreditou e investiu no meu potencial.

Sobre autismo e a autonomia de uma adulta neurotípica

Acontece que há uma distância muito grande entre a teoria e a prática. Assim, o primeiro ano em Pelotas representou muita exaustão e desgaste. E agora, com o meu diagnóstico de Insuficiência Cardíaca, avaliamos que o melhor para mim será voltar a ter o suporte diário de mamãe e da estrutura emocional e financeira que vem com ela.

Não reclamo, nem me sinto fracassada por isso. Afinal, eu cresci muito no tempo em que precisei gerenciar a vida como uma adulta neurotípica, mas estou feliz em recuar um pouco, mesmo que temporariamente. Mas, uma coisa é certa: minha mãe não vai mais me encontrar com a mesma ingenuidade, que alguns podem rotular como irresponsabilidade, de antes.

Ser diferente não significa ser inferior

Afinal, agora nos apoiamos não em uma relação de co-dependência, mas de parceria. Isso foi observado nesses últimos meses que passei em BH. Só por isso já valeu muito a pena. Assim, concluí que o meu processo ser diferente não o torna nem menos válido, nem menos transformador do que o de qualquer outra pessoa.

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Jornalista, escritora, apresentadora, pesquisadora, 24 anos, diagnosticada autista aos 11, autora de oito livros, mantém o site O Mundo Autista no portal UAI e o canal do YouTube Mundo Autista.

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