12 de outubro de 2026

Tempo de Leitura: 2 minutos

A pesquisadora estadunidense Sally Rogers, uma das criadoras do Modelo Denver de Intervenção Precoce (ESDM), virá ao Brasil em novembro para participar de atividades em São José dos Campos (SP) e Recife. Em dezembro do ano passado, Rogers e Geraldine Dawson publicaram uma atualização do manual do modelo, cuja primeira edição foi lançada em 2009 e apresenta estratégias lúdicas para apoiar o desenvolvimento de crianças autistas de zero a cinco anos em clínicas, escolas e atividades cotidianas.

Em entrevista a coluna Vidas Atípicas, do jornal Folha de S.Paulo, Rogers explicou que a nova edição incorpora mudanças na produção científica, na compreensão do autismo e nas abordagens neuroafirmativas. A pesquisadora afirma que seu trabalho não tem como objetivo buscar a cura, mas favorecer o desenvolvimento de cada criança e ampliar a aprendizagem de habilidades que possam ser utilizadas na vida diária, nas relações familiares e na comunidade.

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“Eu vinha de toda uma tradição de trabalhar com condições neurodiversas e transtornos do desenvolvimento. Isso faz parte de quem as pessoas são. Espero que isso esteja muito mais explícito no novo manual, mais do que estava antes”, afirmou.

Uma das mudanças do manual diz respeito ao papel do contato visual nas interações. Rogers explica que olhar diretamente para outra pessoa pode provocar desconforto sensorial ou emocional em algumas pessoas autistas. Por isso, a nova edição considera outras formas de demonstrar atenção compartilhada, como gestos, sons, palavras, mostrar objetos e oferecer brinquedos. O contato visual continua sendo considerado, mas não é tratado como a única forma de comunicação e interação.

O manual também amplia a orientação para o uso da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) desde os primeiros anos de vida, como recurso de apoio ao desenvolvimento da linguagem. Outra mudança é a atenção às habilidades e aos interesses das crianças, além das dificuldades. Rogers afirma que essas características podem servir de base para escolhas educacionais, atividades, relacionamentos e trajetórias profissionais ao longo da vida.

A pesquisadora também defende que a avaliação de uma pessoa autista não deve terminar com o diagnóstico de autismo. Segundo ela, o autismo está associado a diferenças na comunicação e interação social e a padrões de comportamentos e interesses repetitivos, mas não explica necessariamente outras condições, como atrasos cognitivos ou de fala, dificuldades motoras, alterações sensoriais, ansiedade, depressão, fobias e transtornos alimentares ou do sono. Essas condições precisam ser identificadas e consideradas no planejamento do acompanhamento, com intervenções e profissionais adequados a cada necessidade.

“Para mim, o desfecho do autismo não é definido por um diagnóstico médico, mas sim pelo curso de vida da criança e pela qualidade contínua da vida da pessoa: relacionamentos amorosos, amizades e apoio da família, aprendizado contínuo, oportunidades de tomar decisões por si mesma, hobbies interessantes, trabalho gratificante, participação na vizinhança e na comunidade. As diferenças nos ‘desfechos’, ou seja, na forma como esses aspectos de uma vida satisfatória se expressam, refletem a singularidade de cada pessoa, sua biologia individual, sua constituição genética, as interações ambientais que vivencia e suas escolhas e preferências, dia após dia e ano após ano”, argumentou.

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