4 de outubro de 2026

Tempo de Leitura: 3 minutos

O podcast DrauzioCast publicou, nesta sexta-feira (2), o episódio 269, que aborda o autismo a partir de uma conversa entre Drauzio Varella e a psiquiatra da infância e adolescência Gabriela V. Stump, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. O programa aborda características do autismo, diagnóstico, níveis de suporte, desenvolvimento, condições que podem ser confundidas com o transtorno e formas de tratamento.

Gabriela explica que o autismo é uma alteração do neurodesenvolvimento relacionada a diferenças no desenvolvimento cerebral. Entre suas características, estão dificuldades de comunicação e interação social, alterações na comunicação não verbal, dificuldade de reciprocidade social e comportamentos restritos e repetitivos. Também podem ocorrer interesses restritos, ecolalias, alterações no processamento sensorial e necessidade de manter rotinas, com dificuldade diante de mudanças. A apresentação varia entre as pessoas e pode envolver diferentes níveis de necessidade de suporte.

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O diagnóstico é clínico e depende de uma avaliação da história do desenvolvimento, anamnese e exame clínico e psíquico, já que não existe atualmente um exame ou biomarcador capaz de confirmar o autismo. A especialista ressalta que as características relacionadas ao autismo precisam estar presentes no desenvolvimento inicial, ainda que não sejam identificadas naquele momento. Segundo ela, dificuldades que surgem apenas posteriormente podem estar relacionadas a outras condições, como ansiedade social, transtorno obsessivo-compulsivo, ansiedade ou depressão.

A conversa também aborda a regressão do desenvolvimento, observada em cerca de 25% das crianças mencionadas no episódio. Nesses casos, a criança apresenta inicialmente desenvolvimento considerado esperado, com aquisição de fala e brincadeiras, e posteriormente perde algumas dessas habilidades e passa a apresentar características associadas ao autismo. Gabriela afirma que ainda não existe uma explicação definida para as diferenças entre os mecanismos envolvidos na ausência de aquisição de habilidades e aqueles relacionados à regressão.

Entre as condições que podem gerar dúvidas no diagnóstico estão transtornos do desenvolvimento da linguagem, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, deficiência intelectual, ansiedade social, sintomas obsessivos e depressão. O episódio também discute o aumento dos diagnósticos nas últimas décadas. Gabriela relaciona parte desse crescimento à maior identificação dos casos, à ampliação do conhecimento sobre o autismo e à mudança das classificações, que passaram a reunir condições anteriormente separadas dentro do espectro. Ao mesmo tempo, ela manifesta preocupação com diagnósticos incorretos e cita estudos mencionados no programa para sustentar essa preocupação.

Os níveis de suporte são apresentados em três categorias. O nível 1 corresponde a pessoas que precisam de algum apoio, principalmente em comunicação social e adaptação a mudanças; o nível 2 envolve necessidade moderada de suporte; e o nível 3 corresponde a necessidades intensas, podendo incluir dependência para atividades cotidianas e supervisão contínua. A conversa também aborda situações de crise, que podem estar relacionadas à mudança de rotina, frustração, dificuldades de comunicação ou alterações no processamento sensorial.

O episódio trata ainda das relações sociais e das particularidades sensoriais. Algumas pessoas autistas podem ter poucos relacionamentos ou manter contatos principalmente em ambientes on-line, enquanto outras desejam estabelecer relações, mas encontram dificuldades na reciprocidade e na compreensão de sinais sociais. Gabriela também explica que determinadas pessoas aprendem comportamentos sociais por meio de regras ou roteiros, mas podem ter dificuldade para adaptar essas respostas às situações. No processamento sensorial, estímulos como sons podem ser percebidos de maneira diferente, enquanto o contato visual pode exigir esforço consciente e não ocorrer de forma espontânea.

O tratamento é descrito como multidisciplinar e deve ser definido de acordo com as necessidades de cada pessoa. A equipe pode envolver psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, além de profissionais relacionados à psicomotricidade e à educação física. As intervenções podem trabalhar comunicação social, fala ou comunicação alternativa, comportamento, habilidades sociais, processamento sensorial e seletividade alimentar. A intensidade do acompanhamento deve variar conforme as necessidades apresentadas.

A conversa também discute o acesso ao tratamento no Brasil. Gabriela afirma que intervenções intensivas podem ser necessárias em alguns casos, mas critica situações em que diagnósticos incorretos ou pacotes de atendimento com muitas horas resultariam em intervenções que não correspondem às necessidades da criança. Segundo ela, o acesso pelo SUS ainda é limitado, com atendimentos que podem ocorrer de forma menos frequente em serviços como UBS e CAPS, enquanto pessoas com planos de saúde podem recorrer às operadoras para obter tratamentos previstos em seus contratos.

Gabriela também aponta sinais que podem levar famílias a procurar avaliação, como pouca busca por interação com outras crianças, interesses muito restritos, sensibilidade a sons ou toques, dificuldades na introdução alimentar, resistência a mudanças de rotina, pouca resposta ao chamado, ausência ou redução do contato visual, dificuldade em compartilhar atenção e atraso de fala. Ela ressalta que nenhum desses elementos isoladamente estabelece o diagnóstico, que depende da avaliação do desenvolvimento e do conjunto de características apresentadas pela pessoa.

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