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Poucas perguntas resumem tão bem os desafios da psiquiatria no autismo quanto esta: ‘Existe remédio para o autismo?’
Essa foi uma das primeiras perguntas que ouvi de uma paciente adulta durante uma consulta. Antes mesmo de falarmos sobre ansiedade, insônia ou dificuldades no trabalho, ela precisava saber se meu objetivo era mudar quem ela era.
A pergunta ficou comigo. Ela traduz um dilema cada vez mais presente entre pessoas autistas, familiares e profissionais de saúde: afinal, qual é o lugar dos medicamentos no autismo?
A resposta talvez decepcione quem procura soluções simples. Não existe um remédio para o autismo. O transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento, não uma doença que possa ser curada por um comprimido. Nenhum medicamento elimina o autismo ou modifica a identidade de uma pessoa. Ao mesmo tempo, afirmar isso não significa que medicamentos nunca tenham lugar no cuidado da pessoa autista.
Nos últimos anos, o debate sobre esse tema parece ter sido empurrado para dois extremos. De um lado, existe a medicalização excessiva: comportamentos próprios do autismo passam a ser vistos como problemas que precisam ser eliminados. A pessoa é medicada porque balança as mãos, porque prefere ficar sozinha ou porque sua forma de interagir incomoda quem está ao redor. Nessas situações, corre-se o risco de usar a medicação para adaptar o indivíduo às expectativas da sociedade, e não para melhorar sua qualidade de vida.
No extremo oposto, cresce a ideia de que qualquer tratamento medicamentoso seria incompatível com o respeito à neurodiversidade. O receio de medicalizar faz com que algumas pessoas deixem de receber tratamento mesmo quando apresentam ansiedade intensa, depressão, insônia, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou outras condições que provocam sofrimento importante.
Como costuma acontecer na medicina, os extremos dificilmente representam o melhor caminho. O movimento da neurodiversidade trouxe uma contribuição fundamental ao lembrar que o autismo não é um erro a ser corrigido. Muitas características autísticas fazem parte da identidade da pessoa e merecem ser compreendidas e respeitadas, não eliminadas. Mas, reconhecer isso não significa ignorar o sofrimento.
Em meu consultório, raramente alguém procura ajuda simplesmente por ser autista. As pessoas procuram porque estão sofrendo. Algumas não conseguem dormir há meses. Outras vivem em estado permanente de ansiedade. Há quem desenvolva depressão após anos de exclusão social. Muitos apresentam TDAH associado, dificultando os estudos, o trabalho e a organização da vida cotidiana. Também há aqueles que enfrentam transtorno obsessivo-compulsivo, crises de irritabilidade ou esgotamento decorrente do esforço constante para se adaptar ao mundo.
Nessas situações, a pergunta não deveria ser: “Uma pessoa autista pode tomar remédio?”. A pergunta mais importante é outra: “Existe algum sintoma causando sofrimento significativo ou prejuízo funcional que possa ser tratado?”. Essa mudança de perspectiva faz toda a diferença. Nem toda pessoa autista precisará de medicação ao longo da vida. Muitas nunca precisarão. Outras poderão se beneficiar em determinados momentos, da mesma forma que qualquer pessoa pode precisar de tratamento para ansiedade, depressão ou insônia.
Além disso, é importante lembrar que os medicamentos representam apenas uma das ferramentas disponíveis. Orientação à família, adaptações escolares e profissionais, psicoterapia, intervenções terapêuticas e um ambiente acolhedor continuam sendo pilares fundamentais do cuidado. Quando indicada, a medicação não substitui essas estratégias; ela pode apenas facilitar que a pessoa consiga se beneficiar delas.
Talvez a maior responsabilidade do psiquiatra seja distinguir aquilo que faz parte da singularidade da pessoa daquilo que representa sofrimento tratável. Essa é uma decisão que exige conhecimento técnico, escuta cuidadosa e respeito pela história de cada indivíduo.
Respeitar o autismo não significa romantizar o sofrimento. Da mesma forma, tratar o sofrimento não significa negar a neurodiversidade. Talvez a pergunta nunca tenha sido se pessoas autistas devem ou não tomar medicamentos. A pergunta é outra: estamos ajudando essa pessoa a viver melhor? Se a resposta for sim, a medicação pode ser uma aliada. Se a resposta for apenas tornar a pessoa mais conveniente para os outros, talvez seja hora de rever nossa conduta.
A boa psiquiatria não tenta transformar pessoas autistas em pessoas não autistas. Ela procura aliviar o sofrimento sem apagar a identidade, ampliando as possibilidades para que cada indivíduo viva com mais autonomia, bem-estar e dignidade.
Thiago Cabral Pereira


