1 de setembro de 2026

Tempo de Leitura: 4 minutos

A ciência não corre. Ela caminha. Para alguns, muito lentamente, mas não poderia ser diferente, porque carrega responsabilidades.

No campo do autismo, cada avanço exige precisão, replicação, revisão por pares e uma ética que impede atalhos.

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O estudo Worldwide research in autism: Mapping the literature by bibliometric analysis (2026) mostra que o volume anual de pesquisas sobre autismo provavelmente supera 6.000 a 8.000 publicações por ano, considerando artigos revisados por pares, revisões, estudos clínicos e análises populacionais. Essa produção cresceu aceleradamente nas duas últimas décadas, acompanhando o aumento dos diagnósticos e do interesse científico.

O intrigante transtorno do espectro autista (TEA)

A partir do século XXI, o interesse por informações sobre o TEA se multiplicou. Não só cientistas, mas cidadãos comuns passaram a conhecer melhor a condição.

Com um aumento de 6 a 10% nos diagnósticos de autismo por ano, em vários países, surgiu a necessidade de um conhecimento científico contínuo e progressivo em diversas subáreas (genética, intervenção, diagnóstico, políticas públicas, educação, neurociência etc.).

Entre os países com maior número de publicações científicas na área do autismo estão os Estados Unidos (44,9%), o Reino Unido (13,8%), a Austrália (6,25%) e países europeus (entre 1,95% e 2,36%), com destaque para Alemanha, Suécia, Países Baixos, Finlândia e Dinamarca.

No Brasil, a estimativa de produção científica no âmbito do TEA é de 1,59%, uma contribuição modesta diante do grande número de pessoas autistas no país — 2,4 milhões, segundo o censo do IBGE coletado em 2022. Essa lacuna resulta de baixo investimento em ciência e desigualdades institucionais.

Congresso Americano de Neurologia – Pedro Schestatsky

Os achados mais atuais, apresentados durante o American Academy of Neurology (AAN) — congresso americano de neurologia de 2026, realizado no final de abril, em Chicago — não surgem como revoluções instantâneas, mas como uma obra gradual e constante que estamos construindo há décadas.

Presente no congresso, o renomado neurologista Pedro Schestatsky, com décadas de acompanhamento de pacientes com TEA e/ou TDAH, compartilhou suas impressões.

Em entrevista exclusiva para este artigo, o especialista revela o impacto dos achados apresentados no evento, que representam o início de uma nova forma de entender o cérebro no autismo como “um conjunto muito diverso de trajetórias do neurodesenvolvimento, influenciadas por fatores genéticos, biológicos, ambientais, imunológicos, metabólicos e pelas experiências de vida de cada pessoa”.

Segundo ele: “O que apareceu com força foi a ideia de que diferentes sintomas no espectro do autismo podem depender de redes cerebrais diferentes. O que mais me marcou nos debates em Chicago, agora em 2026, foi justamente essa mudança de mentalidade: saímos de uma visão simplificada, centrada apenas no comportamento, para uma compreensão mais ampla, que integra cérebro, corpo, ambiente, família, escola e sociedade.”

“Não existem dois autistas iguais”

Autistas não são todos iguais; são pessoas únicas, com personalidades e vivências singulares.

É, de fato, fascinante perceber que muito do que se observa no cotidiano — no contato com a neurodiversidade e, mais especificamente, na diversidade do espectro autista — vem sendo estudado e, aos poucos, comprovado cientificamente.

Para o neurologista, ficou claro que “não existem dois autistas iguais”.

Segundo ele, a ciência está começando a alcançar o que a clínica já evidenciava: a necessidade de olhar menos para rótulos rígidos e mais para perfis individuais, necessidades reais e potencialidades de cada pessoa autista.

Impactos na prática: personalização de intervenções

Schestatsky destaca a importância de separar sintomas com maior precisão:

“Quando a gente separa melhor os sintomas, o cérebro também começa a mostrar mapas mais específicos. Faz sentido pensar no autismo em dimensões: uma dimensão mais social, outra mais repetitiva, outra mais sensorial. Isso pode abrir caminhos para uma medicina mais precisa e cronológica, que vai por partes, tratando uma dimensão primeiro, o que pode melhorar outra.”

Como exemplo, o neurologista explica que, em vez de aplicar o mesmo modelo para todos os autistas, é possível avaliar com mais precisão o perfil de cada pessoa: linguagem, cognição, sono, sensorialidade, ansiedade, TDAH associado, seletividade alimentar, funcionamento gastrointestinal, epilepsia, dor, irritabilidade, habilidades sociais e contexto familiar. Isso, segundo ele, permitiria um plano mais inteligente e humano.

No entanto, Schestatsky alerta para o perigo de atalhos milagrosos: “O bom cuidado no autismo nasce da combinação entre ciência, experiência clínica, escuta da família e respeito à pessoa autista”, e conclui que “a maior evolução talvez seja deixar de perguntar apenas ‘qual é o diagnóstico?’ e começar a perguntar ‘do que essa pessoa precisa para viver melhor?’”.

O conhecimento evolui em camadas

Cada camada, por menor que pareça, tem impacto real na vida das pessoas autistas. A pressa produz modismos; a cautela produz entendimento e entendimento produz cuidado.

A ciência, mais uma vez, nos lembra que soluções rápidas não funcionam para questões complexas e que intervenções biológicas isoladas não capturam a profundidade do autismo.

Acompanhamento da ciência – mesmo quando ela parece lenta

O autismo é um campo que requer humildade. Exige que profissionais, famílias, instituições e governos aceitem que não existe uma fórmula pronta. O que existe é um movimento contínuo — às vezes lento, às vezes surpreendente — que nos leva a compreender melhor as necessidades reais das pessoas autistas.

A ciência não está “mudando o autismo”. Ela está mudando a forma como o enxergamos. Ela avança devagar porque não quer errar com pessoas.

No campo do autismo, a ciência, às vezes, parece incoerente, mas na verdade ela se transforma durante sua evolução. Cada pesquisa abre portas para novas perguntas que geram respostas diferentes. O que muda, então, não é o autismo, mas a forma como o enxergamos após cada novo estudo. A ciência cria caminhos.

O autismo não é um enigma a ser decifrado. É uma forma de existir que merece ser compreendida com cuidado.

E nós, que trabalhamos, convivemos e lutamos ao lado de pessoas autistas, precisamos acompanhar esse ritmo, não para esperar milagres, mas para garantir que cada passo seja dado com responsabilidade, dignidade e verdade.

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Jornalista, mãe de um autista adulto, radicada na Holanda desde 1985, escritora — autora do livro Caminhos do Espectro (lançado no Brasil em dezembro de 2021) —, especialista em autismo & desenvolvimento e autismo & comunicação, além de ativista internacional pela causa do autismo.

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