1 de setembro de 2026

Tempo de Leitura: 6 minutos

Durante muitos anos, quando eu pensava no futuro do Gabriel, imaginava que alguns desafios diminuiriam com o tempo.

Eu acreditava que, à medida que ele crescesse, determinadas habilidades ficariam mais consolidadas, algumas rotinas se tornariam mais fáceis e nós conseguiríamos compreender melhor suas necessidades.

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De fato, muita coisa evoluiu.

Aprendemos a reconhecer seus gestos, seus sons, suas expressões e suas formas particulares de demonstrar o que deseja ou sente. Criamos estratégias, adaptamos ambientes, celebramos pequenas e grandes conquistas.

Mas, a adolescência chegou trazendo uma realidade para a qual quase ninguém nos preparara.

O corpo do Gabriel mudou. Seus interesses mudaram. Suas reações também.

Junto com o crescimento físico vieram as transformações hormonais, emocionais e sensoriais de uma fase que já é complexa para qualquer adolescente. Para um jovem autista não verbal, porém, essas mudanças podem acontecer sem que ele consiga explicar o que está sentindo.

O corpo muda, mas faltam palavras para perguntar o motivo.

Pode haver medo, dor, ansiedade, vergonha, irritação ou desconforto, mas nem sempre existe uma forma clara de comunicar cada sensação.

E nós, que convivemos com ele todos os dias, precisamos observar, interpretar e tentar compreender.

Um exemplo muito marcante aconteceu com a água.

O Gabriel sempre gostou de água. Piscina, praia e momentos de lazer envolvendo água costumavam despertar interesse e alegria. Era uma atividade que fazia parte das experiências positivas da nossa família.

Com a chegada da adolescência, isso mudou.

Hoje, ele apresenta uma enorme rigidez para entrar no mar ou em piscinas.

Às vezes, estamos diante de um lugar que ele conhecia, de uma atividade que já havia realizado muitas vezes, mas sua reação é completamente diferente. Ele pode se recusar a entrar, demonstrar insegurança ou permanecer rígido diante da tentativa.

Para quem observa de fora, talvez pareça apenas uma teimosia ou uma mudança de gosto.

Para nós, é muito mais complexo.

O que aconteceu entre o menino que gostava tanto de água e o adolescente que agora resiste a ela?

Ele sente medo da profundidade? A temperatura incomoda? O barulho se tornou intenso demais? Existe alguma insegurança com o próprio corpo? Ele teve alguma experiência desagradável que não conseguiu nos contar?

Talvez nem ele consiga identificar exatamente o motivo.

Esse é um dos maiores desafios de acompanhar a adolescência de uma pessoa não verbal: as mudanças acontecem, mas as explicações nem sempre chegam.

Precisamos aprender a respeitar a recusa sem deixar de investigar suas causas.

Precisamos evitar a imposição, mas também não abandonar completamente experiências que antes lhe faziam bem. Tentamos aproximá-lo aos poucos, respeitando seus limites, sem transformar aquele momento em uma disputa.

Em alguns dias, conseguimos pequenos avanços.

Em outros, precisamos simplesmente aceitar que ele não vai entrar.

Esse tipo de situação nos ensina que o desenvolvimento não acontece em uma linha reta.

Uma habilidade que parecia consolidada pode sofrer alterações. Uma atividade que era prazerosa pode passar a gerar resistência. Uma rotina antes previsível pode se tornar difícil.

E isso acontece em outras áreas também.

A adolescência pode trazer mudanças no sono, no comportamento, na alimentação, na higiene, na tolerância aos ambientes e na forma como o adolescente reage às pessoas.

O que antes funcionava pode deixar de funcionar.

Nesses momentos, surge a sensação de regressão.

Depois de anos ensinando determinada habilidade, podemos precisar retomá-la. Um cuidado pessoal que acontecia com mais tranquilidade pode voltar a exigir acompanhamento. Uma atividade que fazia parte da rotina pode precisar ser reapresentada lentamente.

Para as famílias, isso pode ser muito frustrante.

Existe uma sensação de perda.

Pensamos em tudo que foi construído e nos perguntamos se estamos voltando para trás.

Mas, aprendi que nem toda dificuldade significa que o Gabriel esqueceu o que sabia.

Às vezes, ele apenas não consegue acessar aquela habilidade da mesma maneira naquele momento.

Seu corpo é outro. Sua percepção pode ter mudado. O ambiente pode ser sentido de maneira diferente. As exigências sociais aumentaram.

Além disso, precisamos lembrar que uma mudança de comportamento também pode ser uma tentativa de comunicação.

Quando uma pessoa não consegue dizer com palavras que algo está errado, seu corpo fala.

A recusa fala.

A agitação fala.

O isolamento fala.

A rigidez também fala.

O grande problema é que a sociedade nem sempre está disposta a escutar uma comunicação que não acontece pela fala.

Uma crise pode ser interpretada como falta de educação. Uma resistência pode ser chamada de birra. Uma dificuldade de higiene pode ser vista como preguiça.

Mas precisamos perguntar: o que esse adolescente está tentando comunicar?

Essa pergunta se torna ainda mais urgente quando o autista deixa de ser uma criança pequena.

Quando uma criança apresenta movimentos repetitivos, sons ou dificuldades comportamentais em um ambiente público, muitas pessoas ainda demonstram alguma tolerância.

Quando esse mesmo comportamento vem de um adolescente maior e fisicamente mais forte, os olhares mudam.

Surge o julgamento.

Surge o medo.

Surge o afastamento.

A criança autista, que já era pouco compreendida, cresce e é impelida a ocupar um lugar ainda mais invisível.

Muitas famílias deixam de frequentar praias, piscinas, festas, restaurantes, viagens e encontros familiares.

Não porque perderam o desejo de participar, mas porque estão cansadas de administrar situações difíceis e, ao mesmo tempo, enfrentar os olhares de quem não compreende.

Esse adolescente não costuma aparecer nas campanhas bonitas sobre inclusão.

Também aparece pouco nas narrativas sobre autismo divulgadas pela mídia.

Fala-se muito sobre diagnóstico infantil e intervenção precoce.

Mais recentemente, também se abriu espaço para adultos autistas, principalmente aqueles com maior autonomia e capacidade de narrar suas próprias experiências.

Essas vozes são importantes e precisam ser ouvidas.

Porém, elas não representam todo o espectro.

Entre a criança recém-diagnosticada e o adulto independente existe um adolescente autista não verbal que pode precisar de ajuda para tomar banho, trocar de roupa, usar o banheiro, organizar a alimentação, atravessar uma rua ou comunicar que está sentindo dor.

Existe uma família que precisa reorganizar estratégias justamente quando todos imaginavam que as coisas ficariam mais simples.

Essa realidade também é autismo.

Falar sobre ela não significa diminuir as capacidades do adolescente.

Também não significa desistir de sua evolução.

Significa reconhecer suas necessidades reais e compreender que o suporte pode mudar ao longo da vida.

A adolescência do Gabriel também tem nos ensinado sobre expectativas.

Às vezes, queremos que ele volte a fazer algo exatamente como fazia antes.

Queremos que volte a entrar na piscina com tranquilidade ou que se aproxime do mar sem medo.

Talvez o nosso papel não seja recuperar exatamente a criança que ele foi.

Talvez seja conhecer o adolescente que ele está se tornando.

Esse adolescente pode ter novos medos, novas sensibilidades, novas preferências e novas formas de perceber o mundo.

Respeitar isso também faz parte do cuidado.

A resiliência das famílias costuma ser apresentada como uma força inesgotável.

Como se pais e mães de pessoas com deficiência precisassem suportar tudo, superar qualquer obstáculo e permanecer fortes o tempo inteiro.

Mas, essa ideia também precisa ser revista.

Resiliência não é fingir que não estamos cansados.

É reconhecer o cansaço e continuar procurando caminhos.

É aceitar que uma estratégia deixou de funcionar.

É pedir ajuda.

É reduzir expectativas sem abandonar possibilidades.

É comemorar quando o adolescente aproxima o pé da água, mesmo que não entre.

É entender que, em alguns dias, o progresso será apenas conseguir permanecer perto da piscina sem se angustiar.

Resiliência também é proteger sua dignidade durante os cuidados pessoais e respeitar seu direito de recusa.

Uma pessoa não verbal também precisa ter o seu “não” reconhecido.

Ao mesmo tempo, precisamos ampliar as formas de comunicação disponíveis.

Um adolescente não precisa comunicar apenas que quer comer, beber água ou ir ao banheiro.

Ele precisa conseguir dizer que algo dói, que está com medo, que não quer ser tocado, que deseja ficar sozinho, que alguém o incomodou ou que determinada situação lhe causa desconforto.

A comunicação alternativa se torna ainda mais importante nessa fase.

Quanto maior o corpo, maior a necessidade de compreender e respeitar seus limites, desejos e recusas.

A adolescência de uma pessoa autista não verbal exige novos aprendizados.

Não podemos continuar tratando o autismo apenas como uma condição infantil.

Também não podemos limitar a discussão sobre a vida adulta às pessoas autistas com maior independência ou nível de suporte 1.

Existe um grupo quase invisível para a sociedade.

São adolescentes e adultos que não conseguem contar o que sentem, mas sentem.

Não conseguem explicar seus medos, mas têm medo.

Não conseguem narrar suas mudanças, mas estão atravessando todas elas.

O Gabriel está crescendo.

Seu corpo mudou.

Sua relação com o mundo também está mudando.

E nós precisamos crescer junto com ele.

Talvez seja necessário ensinar novamente.

Talvez seja preciso criar outras estratégias.

Talvez algumas conquistas retornem de uma forma diferente daquela que imaginávamos.

Tenho aprendido que recomeçar não significa fracassar.

Quando respeitamos seu tempo, observamos seus sinais e permanecemos disponíveis para tentar novamente, o recomeço também se torna uma forma de amor.

A verdadeira inclusão começa quando a sociedade enxerga esse adolescente.

Quando compreende que a ausência de fala não é ausência de pensamentos, sentimentos, escolhas ou personalidade.

E quando entende que o autismo não desaparece quando a infância termina.

A criança cresce.

O diagnóstico continua.

As necessidades se transformam.

E a família precisa encontrar forças para conhecer, acolher e amar a nova pessoa que está surgindo diante dela.

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Pai do Gabriel (que tem autismo) e da Thata, casado com a Grazy Yamuto, fundador da Adoção Brasil, criador do app matraquinha, autor e um grande sonhador.

André e a Turma da Mônica em: Difícil mudar

Desfralde no autismo

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