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O senso comum costuma associar as altas habilidades/superdotação (AH/SD) a um caminho garantido de sucesso e facilidade. No entanto, quando essa característica coexiste com o transtorno do espectro do autismo (TEA) ou o transtorno de déficit da atenção com hiperatividade — fenômeno conhecido como dupla excepcionalidade — o cenário torna-se consideravelmente mais complexo.
Redefinindo as altas habilidades
Diferente da visão tradicional de “superdotação”, que focava estritamente em um potencial genético inato e estático, o conceito contemporâneo de altas habilidades é dinâmico. A psicóloga e mestre em saúde Andressa Antunes utiliza o modelo dos três anéis, de Renzulli, para explicar que o alto desempenho resulta da intersecção de três fatores fundamentais:
- Capacidade acima da média: Rapidez na aprendizagem e na solução de problemas.
- Criatividade: Formas originais e autodidatas de processar informações.
- Engajamento (motivação): Um interesse genuíno e persistente por temas específicos.
”As altas habilidades emanam de estudos da educação, não da saúde mental. Elas não constituem um transtorno e não trazem prejuízos por si sós”, pontua a especialista.
Socialização e desempenho escolar
O ponto mais sensível da dupla excepcionalidade é o chamado mascaramento social, o famoso masking. Em autistas com nível 1 de suporte, a alta capacidade intelectual é frequentemente utilizada como ferramenta para camuflar dificuldades sociais e sensoriais. No ambiente acadêmico ou corporativo, essas pessoas são vistas como profissionais “nota 10”: produtivas, entregam resultados e são altamente funcionais. Entretanto, essa performance externa impõe um custo interno severo.
A ausência de acolhimento e a pressão por uma “normalidade” constante podem levar a quadros secundários graves. O acúmulo de estresse e a negligência das próprias necessidades resultam, frequentemente, em episódios recorrentes de burnout, transtorno de ansiedade generalizada (TAG) e depressão, além de ideação ou tentativas de autoextermínio em casos extremos.
Para quem recebe o diagnóstico na infância, o suporte costuma ser pedagógico; para o adulto, o impacto é existencial. O servidor público Alessandro Fonseca descreve a confirmação do diagnóstico de dupla excepcionalidade como uma libertação. “Você passa a vida se sentindo um alienígena, à margem dos padrões. O diagnóstico traz pertencimento. Você descobre que o lugar de onde vem é conhecido, tem estudiosos e o ‘planeta’ tem nome”, afirma ele.
Antes dessa descoberta, a vida de Alessandro era pautada pelo esforço exaustivo de emular comportamentos sociais que não eram instintivos. Segundo ele, a aceitação pessoal atravessa três fases: focar nas diferenças, identificar as similaridades com o grupo e, finalmente, abraçar a própria autenticidade.
A influenciadora digital Tabata Cristine relata como a facilidade acadêmica ocultou suas dificuldades reais: “Eu lia a apostila três vezes antes da prova e tirava 10”. Por ser uma aluna exemplar, seus desafios de autorregulação, sensibilidade sensorial e isolamento social passavam despercebidos. Além disso, o estereótipo de que meninas devem ser quietas e estudiosas fez com que seus traços autistas fossem confundidos com bom comportamento. “As pessoas acham que é fácil estar no palco. Sou carismática quando ativo minhas habilidades sociais, mas, no dia a dia, sou fechada e introspectiva“, revela Tabata.
Saúde Mental e a Paralisia da Inteligência
No livro “Leve para quem? vol. 2”, mais especificamente no capítulo “Que vida boa! O que é bem estar e qualidade de vida para os autistas?”, uma das autoras, Andressa Antunes, diz que o bem-estar subjetivo de autistas com altas habilidades pode ser inferior ao de autistas com necessidades de suporte mais visíveis (nível 3). Isso ocorre porque, no nível 3, as dificuldades são evidentes, gerando uma oferta automática de suporte. Na dupla excepcionalidade, como o indivíduo “parece bem” e produz muito, a sobrecarga sensorial e o esgotamento de seus limites raramente são notados.
Para Tabata, que soma mais de 170 mil seguidores no Instagram, a batalha pela autoestima é diária. Rótulos como “chata”, “fresca” ou “ranzinza” são comuns para crianças autistas com interesses profundos e baixa tolerância a conversas triviais. Ela confessa preferir mergulhos em temas intensos — como a história da lobotomia — a diálogos superficiais. “Geralmente, quem me anima é outra pessoa com superdotação, que traz conteúdos densos”, afirma.
Relatos como os de Tabata e Alessandro mostram que a alta inteligência não se traduz, necessariamente, em autoconfiança. Alessandro observa que, quanto mais compreendia a complexidade do mundo, mais consciente ficava da própria ignorância. Esse nível agudo de consciência, somado ao perfeccionismo, frequentemente gerava uma paralisia pelo medo de não atingir a excelência. Uma de suas maiores vitórias pós-diagnóstico foi retomar hobbies, como a música, permitindo-se a imperfeição: “Hoje, se sair do jeito que der, está bom“, conclui.
Validação profissional e identidade
Para quem busca se encontrar ou criar conteúdo, Tabata enfatiza a importância de não esperar pela perfeição. “Os primeiros vídeos e textos nunca serão excelentes, e está tudo bem. O importante é começar“. No campo profissional, Alessandro aponta que o perfil autista pode encontrar solo fértil em carreiras jurídicas e no serviço público devido a características como foco Intenso (capacidade de imersão em processos complexos); habilidade linguística (rigor na escrita e interpretação da lei) e apego a regras (ética profissional pautada pela estrutura institucional).
Ao compartilhar seu diagnóstico no trabalho, ele encontrou acolhimento. “Meu chefe disse que também se identificava com os traços. Não somos poucos lá dentro”, conta. No entanto, ser bem-sucedido não anula a necessidade de suporte. Como esclarece Andressa Antunes, o desafio para profissionais de saúde e educação é deixar de olhar apenas para o que o indivíduo entrega, passando a observar como ele entrega e qual o preço emocional pago. A dupla excepcionalidade exige um olhar que valide simultaneamente o talento e a deficiência, garantindo que a inteligência não seja uma barreira para o cuidado.
Hoje, Alessandro encara o autismo como uma identidade legítima. O diagnóstico permitiu que ele parasse de pedir desculpas pelo seu jeito de ser, transformando o que antes era visto como uma “falha de conexão” em autoconhecimento.
Sophia Mendonça





