21 de janeiro de 2026

Tempo de Leitura: 3 minutos

Uma prancha de comunicação não deve substituir a comunicação que a pessoa já usa (ex.: sinalização, fala, figuras, dispositivos…). Em vez disso, deve expandir, organizar e tornar essa comunicação mais eficiente. Quando é bem ensinada, a prancha amplia as possibilidades comunicativas. Quando é apenas disponibilizada, corre o risco de se tornar um enfeite não utilizado ou funcionar apenas como suporte visual.

Este texto explora como as pranchas de comunicação podem complementar a comunicação existente, destaca os erros mais comuns em seu uso e enfatiza a importância do ensino intencional e baseado em evidências.

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Como as pranchas de comunicação complementam a comunicação

Quando usada de forma adequada, uma prancha de comunicação pode:
• Aumentar a clareza comunicativa, especialmente quando a fala é inconsistente, indisponível ou difícil de entender;
• Dar suporte para mensagens mais longas e complexas, indo além de gestos isolados ou palavras isoladas;
• Fornecer um vocabulário específico para atividades específicas, itens ou ambientes (por exemplo, hospitais, áreas de lazer).

Esses benefícios só ocorrem quando o aluno entende que a prancha é uma ferramenta para comunicação intencional. Sem esse entendimento, a prancha não cumpre sua função comunicativa.

Um problema comum: acesso não é educação

Um dos erros mais frequentes na Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é assumir que simplesmente fornecer acesso a uma prancha de comunicação é suficiente para que a comunicação apareça.

Oferecer acesso não é o mesmo que ensinar.

Uma analogia simples ajuda a ilustrar essa ideia: colocar uma prancha de comunicação na frente de um aluno que não foi ensinado a usar a CAA é como colocar um livro na frente de alguém que não sabe ler. Se outra pessoa lê o livro em voz alta, ela ouve a história — mas não está lendo.

O mesmo ocorre quando:
• Um adulto fala apontando para as figuras ou símbolos na prancha;
• Um adulto usa a prancha enquanto o aluno permanece passivo.

Nessas situações, o aluno pode estar ouvindo, mas não aprendendo a se comunicar por meio desse sistema. A prancha está sendo usada apenas como suporte visual para a fala adulta, em vez de ser o sistema de comunicação do aluno.

O que o aluno precisa aprender para usar uma prancha de comunicação como CAA

Para que uma prancha de comunicação funcione como um sistema eficaz de CAA, o aluno deve aprender — ou já demonstrar — as seguintes habilidades essenciais:
• Iniciar comunicação de forma independente;
• Compreender o significado dos símbolos/figuras na prancha;
• Construir mensagens simples e, gradualmente, construir frases mais complexas.

É importante enfatizar que o PECS (Sistema de Comunicação por Troca de Figuras) é o único protocolo de CAA que ensina sistematicamente a iniciação comunicativa. Além disso, o protocolo do PECS oferece uma estrutura e estratégias de ensino baseadas em evidências para ensinar vocabulário, estrutura de frases e expandir a linguagem.

Conclusão

Uma prancha de comunicação, por si só, não cria nem ensina comunicação. Sua eficácia depende de como é ensinada e de por que é usada. Para apoiar e complementar genuinamente a comunicação que a pessoa já utiliza (ex. fala, linguagem de sinais, PECS, dispositivos…), a prancha deve estar intencionalmente inserida em um plano de ensino estruturado, implementado com um propósito comunicativo claro e fundamentado em protocolos cientificamente validados, como o PECS.

Quando essas condições são atendidas, a prancha de comunicação vai além de ser apenas um suporte visual passivo. Torna-se uma ferramenta ativa que capacita o aluno a iniciar comunicação, expressar necessidades e ideias e participar de forma significativa em interações sociais.

Em consonância com a legislação recente que exige a disponibilidade de pranchas de comunicação em espaços públicos, essa abordagem intencional promove maior autonomia, acessibilidade e inclusão para pessoas com necessidades complexas de comunicação.

 

Referências

  • Bondy, A., & Frost, L. Manual de Treinamento PECS®: Sistema de Comunicação por Troca de Imagens. Consultores Educacionais da Pyramid.
  • Brasil. Lei Federal 15.249 (novembro de 2025). Estabelece a disponibilidade obrigatória de pranchas de comunicação e outros recursos de comunicação aumentativos e alternativos em espaços públicos para garantir acessibilidade a pessoas com necessidades complexas de comunicação.
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Fonoaudióloga, mestre em estudos linguísticos pela Universidade de Londres, tem curso avançado de autismo credenciado pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Diretora geral da Pyramid Consultoria Educacional do Brasil, tem uma sólida experiência de trabalho com crianças e adultos com ampla gama de dificuldades de comunicação por razões variadas: físicas, mentais, sociais e emocionais. O primeiro curso PECS que frequentou foi em 2002 e desde então PECS tornou-se parte de sua prática diária.

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