Por

Wagner Yamuto

Pai do Gabriel (que tem autismo) e da Thata, casado com a Grazy Yamuto, fundador da Adoção Brasil, criador do app matraquinha, autor e um grande sonhador.

Beijo na vaquinha

3 de setembro de 2021

Tempo de Leitura: 3 minutos

coluna: Matraquinha

Gabriel adora sentir a adrenalina correr por seu corpo e os passeios preferidos dele e da família são os parques de diversão e os que têm contato com a natureza.

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Academia do Autismo

Nos parques de diversão a atração preferida dele é a montanha-russa, seja a seca ou a molhada.

Geralmente nós vamos no vagão da frente, onde a emoção parece ser maior, e confesso que em algumas montanhas dá um medinho.

Quando os vagões começam a se mover, Gabriel abre um sorriso que só ele tem e começa a olhar para trás, só pra conferir se os outros tripulantes da missão estão preparados (e onde somente os fortes sobreviverão).

A primeira etapa é a subida e algumas são bem altas, em seguida vem uma curva que é feita lentamente para a direita e no final da curva tem a descida bem acentuada, daquelas que por milésimos de segundos fazem você se arrepender de estar ali no primeiro acento.

Nesse momento, toda a tripulação já perdeu o fôlego por alguns instantes, e quando menos se espera, escutamos os gritos de emoção dos demais vagões. E é nessa hora que o Gabriel olha pra mim e solta a maior e mais alta gargalhada que ele consegue dar. Ele também mordisca os dedinhos das mãos de tanta emoção.

Naquelas montanhas que em vez de trilhos há um canal com água é a mesma coisa, e o adicional da água torna tudo muito mais divertido e emocionante.

Mas, nem só de adrenalina se vive e o contato com a natureza também é fundamental. Na praia por exemplo, o Gabriel passa minutos e mais minutos apertando a areia e muitas horas dentro do mar.

Já tentamos ir ao zoológico, mas o distanciamento em que os animais devem ficar dos visitantes não o apetece, portanto aprendemos que temos de ir onde o contato possa ser mais próximo.

Vivemos na cidade de São Paulo e em uma cidade bem próxima há uma fazendinha, daquelas onde é possível que as crianças alimentem os coelhos, cabras, galinhas, patos, porquinhos, ovelhas. O lugar tem até búfalos e emas.

Gabriel sempre está acompanhado do tablet, pois toda a sua comunicação depende desse dispositivo, mas por alguns minutos ele larga tudo e parece entrar em sinergia com os animais.

Andar a cavalo, é uma das atrações que ele mais ama.

Alimentar os patos é sempre um risco, pois eles ficam no lago e a água é um ponto fraco do meu filho. Ele sempre tenta entrar para um mergulho com os patinhos…

Os coelhinhos são fofos e ele adora passar a mão. Numa das visitas, a responsável pelo cercadinho entregou cenouras nas mãos das crianças para que elas pudessem alimentar os coelhos, e, quando percebi, o coelhinho de nossa responsabilidade não estava comendo nada, quem estava comendo a cenoura era o Gabriel.

Já os animais que comem capim e feno, esses podem estar mais tranquilos e não perderão a refeição.

Na última vez em que estivemos nessa fazendinha, resolvemos levá-lo para ordenhar a vaca, e essa atividade tinha horário marcado.

Quando chegamos a fila estava enorme. Mesmo assim ficamos ali (e sempre tentamos ficar). De repente o Gabriel saiu correndo em direção à vaquinha que já estava preparada para a ordenha. Ele parou em frente à cabeça dela, fez carinhos nas orelhas por alguns minutos, suas mãos foram descendo pela testa em direção ao focinho e deu-lhe um beijinho. Também deu mais uns três pulinhos mordiscando os próprios dedinhos e foi embora.

Tentei entender o que tinha acontecido, mas resolvi deixar pra lá. Afinal de contas, a conversa era entre eles. E merece privacidade ;).

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