Tempo de Leitura: 2 minutos
A pesquisadora Uta Frith, professora emérita do Instituto de Neurociência Cognitiva da University College London, afirmou que o conceito de espectro do autismo pode ter perdido utilidade como diagnóstico clínico. Ela participou de pesquisas sobre o tema desde a década de 1960 e esteve envolvida em mudanças na compreensão científica do autismo, incluindo a formulação da teoria da mente e a defesa da ideia de que a condição poderia ser entendida como um espectro.
Em entrevista ao The Times, Frith disse a ampliação do conceito ao longo das décadas fez com que o diagnóstico passasse a incluir grupos muito diferentes entre si. “O espectro tornou-se tão abrangente que temo que tenha sido esticado a tal ponto que perdeu o sentido e deixou de ser útil como diagnóstico médico”, afirmou.
Dados do sistema de saúde da Inglaterra indicam aumento nos diagnósticos nas últimas décadas. Em 1998, cerca de 0,1% da população tinha diagnóstico de autismo, enquanto em 2024 a proporção chegou a 1,33%. De acordo com a pesquisadora, esse crescimento não ocorreu de forma uniforme entre todos os perfis de diagnóstico.
Frith afirma que o número de diagnósticos em crianças com critérios clínicos mais restritos permaneceu relativamente estável, enquanto houve crescimento entre pessoas com características consideradas mais leves, incluindo jovens e adultos diagnosticados em idade mais avançada. Estudos em países como Estados Unidos e Suécia também apontam aumento de diagnósticos em mulheres. Para a pesquisadora, parte da ampliação do espectro está ligada à inclusão de características que anteriormente poderiam ser interpretadas como traços de personalidade ou sensibilidades individuais. Ela também observa que o diagnóstico de autismo não possui biomarcadores definidos, como exames laboratoriais ou de imagem, o que torna o processo dependente de avaliação clínica.
Além disso, para ela, a ampliação do conceito pode ter consequências para a pesquisa científica, pois reúne em um mesmo grupo pessoas com possíveis diferenças nas causas biológicas e nos perfis cognitivos. Isso poderia, na sua perspectiva, dificultar a interpretação de resultados em estudos que utilizam grandes amostras. A pesquisadora defende a possibilidade de reorganizar a classificação diagnóstica em subgrupos distintos, separando quadros clínicos diferentes que hoje são reunidos sob o mesmo termo. Entre os exemplos citados estão o autismo diagnosticado na infância, a antiga categoria associada à síndrome de Asperger e outros perfis relacionados à sensibilidade social ou sensorial.
Canal Autismo

