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O podcast Introvertendo, feito por autistas adultos e voltado a discutir vivências no espectro, publicou nesta sexta-feira (28) o episódio 312, intitulado Autismo e Família: O Lado Ruim – parte 1. A conversa contou com Gustavo Borges, João Victor Ramos e Marx Osório, e participação de Nicolas Melo, todos autistas. O episódio aborda experiências negativas vivenciadas por pessoas autistas em relações familiares, incluindo ausência afetiva, conflitos, seletividade alimentar, abandono e disputas relacionadas à família.
Marx Osório relatou experiências da infância relacionadas a comportamentos que, antes do diagnóstico, eram interpretados pela família a partir de outras referências. Ele afirmou que foi uma criança inquieta e que apresentava comportamentos que geravam conflitos dentro de casa. Segundo Marx, parte das dificuldades estava relacionada à ausência afetiva dos pais durante os primeiros anos de sua vida.
O participante também comentou como o diagnóstico tardio modificou a compreensão sobre acontecimentos da infância. Ele afirmou que, somente na vida adulta e após iniciar terapia, conseguiu identificar comportamentos que havia aprendido no ambiente familiar e que posteriormente interferiram em suas relações sociais. “Eu aprendi a ser antipático, sem nem perceber. E é muito triste constatar que nem tudo tá na conta do autismo, mas coisas que não são da conta do autismo se tornaram questões que atrapalharam a minha vida, por causa da dificuldade do autismo de não enxergar aquilo”, disse.
João Victor Ramos relatou conflitos com a mãe durante a adolescência. Ele afirmou que a mãe passou a exercer uma postura de proteção e controle após ter dedicado parte da vida aos cuidados com ele. Segundo João Victor, as discussões aumentaram durante a adolescência e envolviam situações nas quais ele questionava decisões ou comportamentos da mãe. “Ela sabia como me deixar irado, ela sabia como me provocar, ela sabia como me perturbar”, relatou.
João Victor afirmou que os conflitos diminuíram após seu diagnóstico de autismo. Ele relatou que passou a receber mais compreensão sobre seus comportamentos, embora as relações familiares continuassem marcadas por situações anteriores. Ao falar sobre a relação com a mãe, afirmou que a ama e reconhece os esforços feitos por ela, mas que existem acontecimentos que permanecem como parte de sua experiência.
Gustavo Borges abordou experiências relacionadas à alimentação durante a infância. Ele relatou que apresentava seletividade alimentar e não comia carne desde os quatro anos. Segundo Gustavo, familiares interpretavam a recusa alimentar como uma questão de comportamento e, em algumas situações, tentavam modificar sua comida para que ele participasse das refeições.
Marx comentou que a seletividade alimentar pode ser interpretada de maneira equivocada em contextos familiares. Ele afirmou que, em determinadas famílias, recusar uma comida oferecida pode ser entendido como falta de respeito ou como uma forma de rejeição à pessoa que preparou o alimento. Segundo Marx, essa interpretação pode entrar em conflito com as necessidades alimentares de pessoas autistas.
Outro tema abordado foi a transmissão de comportamentos entre gerações. Marx afirmou que é necessário diferenciar comportamentos aprendidos, padrões familiares, transtornos de comportamento e situações em que existe uma ação deliberada contra outra pessoa. Ele afirmou que algumas pessoas mantêm relações por exigências do contexto familiar e que essas relações podem ser percebidas de outra maneira quando a pessoa autista desenvolve maior capacidade de interpretar situações sociais. “Isso acontece com pessoas que têm laço sanguíneo de primeiro grau”, afirmou.
Os participantes também discutiram reciprocidade nas relações entre familiares. Gustavo relatou que costumava telefonar para parentes porque sua mãe insistia que mantivesse contato, mas percebeu que essas pessoas raramente procuravam por ele de forma espontânea. “Você percebe que a relação é falsa quando você não tem nada em comum com eles, além do sangue”, afirmou. Já Marx afirmou que familiares, principalmente mães, podem assumir a responsabilidade de manter o contato entre parentes mesmo quando não existe iniciativa dos outros envolvidos. Segundo ele, pessoas com dificuldade natural para iniciar interações sociais podem acabar mantendo relações nas quais somente uma das partes procura pela outra.
O episódio está disponível para ser ouvido em diferentes plataformas de podcast e streaming de música, como o Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Amazon Music e CastBox, ou no player abaixo, além de uma versão em vídeo disponível no YouTube do NAIA Autismo. O Introvertendo também possui transcrição de seus episódios e uma ferramenta em Libras, acessível para pessoas com deficiência auditiva.
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