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O neurologista britânico Oliver Sacks, que morreu em 2015, tornou-se uma das figuras mais conhecidas da divulgação científica ao transformar estudos de caso clínicos em narrativas acessíveis ao grande público. No entanto, uma reportagem da The New Yorker, assinada por Rachel Aviv, com base em relatos do diários do escritor, aponta que Sacks teria incorporado aspectos de sua própria vida e teria inventado alguns detalhes das histórias de pessoas com condições neurológicas raras das quais descreveu.
Diferentemente de jornalistas literários, Sacks atuava no campo da neurologia, que depende de observações verificáveis e evidências científicas. Um dos casos mais problemáticos, segundo o próprio Sacks reconheceu em seus diários, é o capítulo Os gêmeos, do livro O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, no qual ele descreve dois irmãos autistas institucionalizados que supostamente trocavam números primos de forma espontânea.
A narrativa de Sacks, no entanto, entrava em conflito com registros científicos anteriores sobre os mesmos gêmeos. Estudos publicados na década de 1960 descreviam as habilidades de identificar datas no calendário, mas não mencionavam qualquer talento relacionado a números primos. O próprio Sacks, ao escrever para o neuropsicólogo Alexander Luria, também não indicou com clareza essa capacidade. Anos depois, um psicólogo contestou publicamente a possibilidade de humanos gerarem grandes números primos de forma confiável, mas outros pesquisadores defenderam o caso.
Ao mesmo tempo, a reportagem destaca uma mudança na abordagem de Sacks no livro Um antropólogo em Marte, publicado na década de 1990. No capítulo Prodígios, ao retratar Stephen, um adolescente autista com grande talento artístico, Sacks abandona a tentativa de impor uma narrativa de conexão ou transformação. Diante da resistência de Stephen à intimidade, o autor reconhece seus próprios limites de compreensão e aceita que a arte do menino não necessariamente altera sua experiência do autismo.
Um dos argumentos apresentados pela reportagem é que Oliver Sacks, por ter sido um homem gay sem se assumir publicamente e nem viver sua sexualidade por décadas, teria lidado a vida inteira com um histórico de sofrimento e depositado em seu trabalho muitas das suas angústias existenciais. O autor só falou abertamente sobre sua sexualidade no ano de sua morte.
A reportagem teve efeitos imediatos em alguns circuitos. O psicólogo e divulgador científico Steven Pinker disse, por meio de seu perfil no X, que “Oliver Sacks (um homem humanitário e um excelente ensaísta) inventou muitos detalhes em seus famosos estudos de caso, enganando neurocientistas, psicólogos e o público em geral por décadas. Por que a revista The New Yorker, que perpetua o mito de que emprega um exército de fact-checkers meticulosos, contaminou nossa compreensão da mente e do cérebro ao publicar essas invenções por décadas?”, questionou.
Tiago Abreu





