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O maior ensaio clínico já realizado para avaliar a eficácia da leucovorina — também conhecida como ácido folínico — em crianças autistas foi retratado em jan.2026 pela revista científica European Journal of Pediatrics. O comunicado de retratação aponta inconsistências nos dados e problemas estatísticos que impediram a replicação dos resultados. A informação foi publicada pela jornalista Claudia López Lloreda no site The Transmitter.
O estudo, publicado em set.2024, envolveu 77 crianças autistas e afirmava que 24 semanas de tratamento diário com ácido folínico oral teriam reduzido a gravidade dos sintomas em comparação ao placebo. No entanto, ao analisarem as tabelas de dados, os pesquisadores Thomas Challman e Scott Myers identificaram inconsistências numéricas e questionaram os resultados na plataforma PubPeer em set.2025. Após revisão, a revista declarou que não conseguiu reproduzir os achados a partir do banco de dados fornecido pelos autores, concluindo não ter mais confiança na validade das conclusões.
No Brasil, já há diversos anúncios, nas redes sociais, a respeito de exames laboratoriais e até oferta do ácido folínico como intervenção para sintomas associados ao TEA, muitas vezes com promessas que extrapolam o atual nível de evidência científica. O neurocientista brasileiro Dr. Alysson Muotri alerta: “Tratamentos ‘mágicos’ para o autismo surgem de tempos em tempos. É preciso ter cautela na interpretação de resultados ditos promissores, mas que não foram replicados pela comunidade científica”, esclarece Muotri, que é professor da faculdade de medicina da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA).
Retratação
Segundo o aviso de retratação, a análise editorial confirmou várias das preocupações levantadas sobre os dados e a estatística empregada no artigo. Dois dos seis autores concordaram com a retratação. O neuropediatra Prateek Kumar Panda, um dos autores, reconheceu que “houve alguns erros não intencionais na análise estatística”, escreveu ele em e-mail ao The Transmitter. Apesar disso, os autores informaram que pretendem submeter uma versão revisada do manuscrito após corrigirem os problemas apontados.
Especialistas ouvidos pela reportagem reforçam que as evidências sobre o uso do ácido folínico no transtorno do espectro do autismo (TEA) já eram consideradas frágeis. “A retratação deste artigo remove uma parcela significativa das já fracas evidências que apoiam o valor do ácido folínico como tratamento para o autismo”, afirmou Thomas Challman. Ele acrescentou que, até que haja evidências aceitáveis de segurança e eficácia, o uso da substância não é apropriado fora de ensaios clínicos bem desenhados. A pesquisadora Shafali Jeste declarou: “Acho que a razão de esse medicamento específico ter recebido tanto interesse é por causa da publicidade em torno dele, não porque nós, como cientistas, acreditamos que este seja o fármaco que deveríamos estar testando”.
Leia a reportagem original, em inglês, “Largest leucovorin-autism trial retracted“,publicada por Claudia López Lloreda, no The Transmitter, e pode ser lida na íntegra em neste link.
Francisco Paiva Jr.





