1 de março de 2026

Tempo de Leitura: 4 minutos

No dia 2 de abril, o mundo volta os olhos para o autismo. No Brasil, a campanha nacional de 2026 tem um tema que é uma frase curta para um debate longo: “Autonomia se constrói com apoio”, usando a hashtag #RESPECTRO como ponto de encontro, unificando postagens e facilitando acessos para que a sociedade encontre iniciativas e informações.

O cartaz oficial traduz o tema sem rodeios: uma menina é lançada para cima por uma cama elástica segurada por três pessoas. A imagem sugere que a autonomia não nasce do “se virar”, mas do impulso certo, na hora certa, com sustentação. “É um orgulho poder desenhar uma campanha que atinge o Brasil todo”, destacou o designer e ilustrador Alexandre Beraldo, autor da arte e do projeto gráfico da campanha. Na capa desta edição ainda temos a releitura do cartaz feita pelo Fábio Sousa, o “Tio Faso”, um homem autista, pai de autista e um artista talentosíssimo.

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Autonomia

No transtorno do espectro do autismo (TEA), a autonomia costuma ser confundida com independência total. E essa confusão pesa, sobretudo, sobre quem precisa de mais suporte. Autonomia, aqui, não significa fazer tudo sozinho, nem alcançar um padrão único. Significa ampliar, com segurança e dignidade, as possibilidades reais de cada pessoa autista para fazer escolhas, expressar preferências e participar das decisões sobre a própria vida, de acordo com suas necessidades de apoio (nível de suporte) e condições associadas.

Falar em “potencial máximo” não é empurrar uma régua de desempenho para famílias e pessoas autistas. É evitar que limites pré-concebidos — ou a falta de acessibilidade e apoio — determinem o tamanho da vida possível. Em alguns casos, autonomia pode ser escolher a própria roupa; em outros, pactuar uma rotina de trabalho; em outros ainda, comunicar “sim” e “não” com recursos alternativos e ter essa comunicação respeitada.

O marco do Censo 2022

No ano passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, pela primeira vez, um número oficial de pessoas diagnosticadas com autismo no país: 2,4 milhões, o equivalente a 1,2% da população. Entre crianças de 5 a 9 anos, a proporção chegou a 2,6% — cerca de 1 em 38. O dado não explica tudo, mas muda o patamar da conversa. A partir de agora, fica difícil negar que o autismo passa a ser, também, assunto de planejamento, responsabilidade social e políticas públicas.

Esse marco ajuda a nomear o que muitas famílias já sabem na prática: apoio não é “privilégio”, é condição de acesso. Sem rede, autonomia vira discursos. Com rede, vira caminho. E o caminho é diferente para cada pessoa no espectro.

Supermercado

Com meu filho, Giovani (autista nível 1 de suporte, hoje com 18 anos), a autonomia não apareceu como um salto, mas como uma sequência de impulsos repetidos até virarem repertório em algumas áreas — e ainda há muitas outras a serem desenvolvidas. Treinar entrevista de emprego foi menos sobre respostas perfeitas e mais sobre previsibilidade: simular perguntas, moldar o “nível de honestidade”, combinar estratégias para quando ele ficasse confuso e lembrar que pedir esclarecimento também é uma habilidade social legítima (se você ainda não viu, veja nossa simulação de entrevista de emprego no TikTok, no perfil @@f.paiva.jr, que ficou divertida).

O treino para ele ir sozinho ao supermercado foi outro capítulo da mesma lógica. No começo, o objetivo não era “fazer compras”, era comprar qualquer coisa, só para atravessar o processo inteiro — entrar, localizar um item, passar no caixa e voltar para casa. E isso sempre em um ambiente controlado, sem urgência: nenhum item era uma necessidade real. Se desse tudo errado, ele podia simplesmente desistir e ir embora, sem comprar nada. Essa condição funcionava como um “botão de pânico” que ele sabia que podia acionar a qualquer momento — e isso, por si só, já reduzia a ansiedade. Com o tempo, fomos elevando um degrau na complexidade: itens mais difíceis de encontrar (como orégano, que não é tarefa fácil nem para mim!), mais autonomia para decidir substituições e mais tolerância a imprevistos.

Em uma das idas, ele já estava na fila quando uma criança começou a chorar muito alto. O incômodo sensorial foi imediato, e ele quase desistiu. Mas aguentou mais um pouco, lembrando do combinado: ele podia sair se precisasse, e também podia esperar alguns segundos antes de decidir. A criança se acalmou, ele passou no caixa, pagou e foi embora.

De listas simples a rotas e “o que fazer se…”, ele foi ganhando autonomia para lidar com mudanças e imprevistos — produto que acabou, fila que muda, um atendente impaciente, uma falha no sistema de pagamento. Não é independência total. É a autonomia possível: circular no mundo com mais segurança, menos ansiedade e mais escolha. Esse treino começou há três anos e continua até hoje, sempre subindo um degrau na complexidade da tarefa.

Uma ‘sem apoio’ e outra ‘com apoio’

A artista plástica Maria José Jessica da Silva, conhecida nas redes sociais como “Jessye Blue”, mulher autista de 33 anos, moradora de Jacaraú (PB), descreveu o tema a partir do próprio cotidiano. “Autonomia para mim, como ela se constrói com apoio, é muito, muito importante falar sobre isso, porque eu mesma sou ‘uma Jessy sem o apoio’ e outra ‘Jessy com o apoio’. Quando se constrói pontes, nós alcançamos o outro lado, né? E é nisso que acredito. Antes, sem o apoio necessário, sem o que eu necessitava, até mesmo as minhas habilidades, muitas estavam adormecidas. Minha maneira de expressar a minha adaptação ao próprio mundo, ao ambiente… Com apoio, hoje eu posso mais. Eu posso realmente florescer, sabe?”, explica Jessye.

Ela também falou sobre aprender limites e proteção sem recuar do que é importante: “O autismo ainda me traz muitos desafios, porque ele não diminui com o tempo. A gente só vai aprendendo como nós mesmos funcionamos. E as pessoas vão também nos ensinando como é o nosso próprio limite. Tendo autonomia, eu aprendi também a me respeitar. Aprendi a não recuar nas coisas difíceis, mas também não ultrapassar meu limite. Vi que eu não estava só, que as pessoas fundamentais e importantes nessa caminhada são cruciais para o meu maior desenvolvimento”, avalia Jessye.

Autonomia, portanto, não é meta individual; é construção coletiva. E “apoio” não é uma palavra genérica nesse contexto: pode ser comunicação acessível, escola inclusiva, saúde com continuidade, auxílio para o autocuidado, ambiente de trabalho com ajustes razoáveis, políticas públicas que funcionem e uma sociedade que respeite diferenças sem reduzir pessoas a rótulos.

Mais informações e materiais de divulgação da campanha estão em CanalAutismo.com.br/dia-mundial-campanha; e também na página institucional do Dia Mundial de Conscientização do Autismo: CanalAutismo.com.br/DiaMundial.

 

CONTEÚDO EXTRA

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Editor-chefe da Revista Autismo, jornalista, empreendedor.

Diagnóstico de autismo em adultos

O som do trovão

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