1 de março de 2026

Tempo de Leitura: 4 minutos

Recentemente, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelou a incidência de 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de transtorno do espectro do autismo (TEA) no Brasil, o que equivale a 1,2% da população total. Em adultos a partir de 20 anos, a prevalência varia entre 0,8% e 1,0%. Estima-se, portanto, que entre 1,3 e 1,6 milhão de adultos brasileiros tenham diagnóstico de autismo.

Entre esses milhões de brasileiros, existe um grupo quase invisível: os idosos autistas, que passaram a vida inteira sem nomear as próprias diferenças por simples desconhecimento da sua condição.

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Muitos autistas mais velhos — cerca de 50% — que nunca tiveram a oportunidade de ter seus sinais avaliados buscam, atualmente, um diagnóstico. Uma das razões é a conscientização global de que o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento ao longo da vida. Isso significa que o autismo “não é coisa de criança”, mas uma condição que acompanha o indivíduo desde o nascimento até o fim da sua existência.

Características do autismo em pessoas mais velhas

Embora o autismo seja frequentemente diagnosticado na infância, algumas características podem não ter sido identificadas até a vida adulta.

Autistas adultos com alta funcionalidade no cotidiano, especialmente aqueles com características menos visíveis — como déficits sutis de comunicação e comportamentos discretos — podem apresentar os seguintes sinais:

  • Ansiedade em situações novas ou imprevisíveis
  • Isolamento social (estima-se que cerca de 40% dos autistas idosos passem pouco ou nenhum tempo com amigos)
  • Solidão e sensação de alienação
  • Apego a rotinas e dificuldade com mudanças
  • Interesses intensos e específicos
  • Dificuldades nas funções executivas (organização, planejamento e priorização)

A maçã não cai longe do pé

Há cerca de uma década, tornou-se comum que pais e mães de crianças autistas recebessem seus próprios diagnósticos após profissionais que acompanhavam seus filhos sugerirem uma avaliação. Especialistas em TEA, por vezes, reconheciam características da condição em um ou em ambos os pais, nunca identificadas na infância ou adolescência. O diagnóstico dos filhos funcionava como um espelho.

Internacionalmente, esse fenômeno passou a ser debatido à medida que estudos científicos confirmavam taxas entre 97% e 99% de influência genética e cerca de 81% de hereditariedade no TEA, o que explica a presença de pessoas autistas de diferentes gerações dentro de uma mesma família.

Atualmente, já não é surpresa encontrar famílias em que crianças, pais e avós estejam no espectro do autismo, ainda que com níveis de suporte distintos.

Arthur, pai de uma criança autista, revela como gerações inteiras foram rotuladas de forma equivocada:

“Minha mãe sempre falou do irmão — meu tio — como o ‘esquisito’ da família. Achavam que ele era deficiente intelectual e, antes dos 15 anos, foi internado em um sanatório para doentes mentais. Hoje, com toda a informação que temos, eu diria que meu tio era autista, mas ninguém sabia.”

Experiências pessoais de autistas idosos

Brian Bird

O ativista inglês Brian Bird, autista, de 65 anos, pai de dois filhos adultos também autistas, recebeu o diagnóstico de TEA aos 50 anos. Desde então, tornou-se um porta-voz internacional da causa, compartilhando sua experiência pessoal por meio de palestras e da plataforma Autism Support Community.

“O problema é ficarmos invisíveis na terceira idade. Nossos traços e comorbidades podem se intensificar, e o burnout e a ansiedade tornam-se mais difíceis de controlar”, afirma o ativista.

Brian destaca que autistas idosos carregam uma riqueza e diversidade de experiências, além de um histórico de traumas que não pode mais ser ignorado pela sociedade. Esse apagamento tem consequências profundas.

Reconhecer essa geração é um passo essencial para reparar décadas de negligência e construir políticas públicas que contemplem o envelhecimento autista com dignidade, como resume o ativista na seguinte frase:

“O autismo não acaba aos 18 anos nem termina aos 60.”

Ana Rodrigues

Ana Rodrigues, 62 anos, funcionária pública e criadora da plataforma Elas Autistas, voltada para mulheres autistas adultas, recebeu seu diagnóstico aos 58 anos.

“Ser uma mulher autista idosa é carregar no corpo e na mente as marcas de décadas vividas sem respostas e sem adaptações. Passei anos mascarando, atravessando crises sensoriais em silêncio, convivendo com a solidão e com a tentativa constante de corresponder ao que esperavam de mim. Viver a velhice como mulher autista é sustentar essa coexistência entre desgaste físico e emocional profundo e a possibilidade tardia — mas real — de nomear a própria vivência e me reconstruir, apesar da falta de suporte institucional e da invisibilidade das mulheres autistas idosas.”

Muitos desses autistas aprenderam, ao longo da vida, a camuflar comportamentos repetitivos na presença de outras pessoas. A constante camuflagem social é apontada como uma das principais causas do burnout autista. O hábito de mascarar sinais considerados atípicos é uma dificuldade enfrentada pela maioria até o momento do diagnóstico.

A geração esquecida

Autistas diagnosticados tardiamente são conhecidos como “a geração esquecida”. São pessoas que passaram décadas sem saber que seu neurodesenvolvimento atípico tinha uma definição.

Descobrir o autismo na vida adulta pode ser tão libertador quanto angustiante. Embora muitos relatem alívio e clareza após o diagnóstico, idosos autistas frequentemente vivenciam um processo emocional complexo. Afinal, viveram grande parte da vida sem conhecer uma dimensão central de sua identidade.

Muitos foram rotulados como “excêntricos”, “tímidos” ou “difíceis”. Após anos de desafios pessoais, sociais, profissionais e relacionais, questionam como conseguiram suportar tantos obstáculos sem o suporte de que, certamente, necessitavam. Esse embate pode gerar dúvidas profundas e um luto identitário, no qual o indivíduo precisa reaprender a se conhecer e a se aceitar como neurodivergente depois de uma vida inteira de desconhecimento sobre si mesmo.

Autismo não é raro nem recente

Na busca por informações científicas, depara-se com um cenário ainda pouco representativo de pesquisas sobre o autismo na terceira idade. A maioria dos estudos utiliza amostras pequenas, frequentemente recrutadas em clínicas ou grupos de apoio. Isso significa que os dados refletem, em grande parte, autistas que já têm algum acesso a serviços ou redes de suporte, deixando de fora aqueles que vivem em completo isolamento.

Se mesmo os que chegam às pesquisas relatam altos níveis de solidão e negligência, o que dizer daqueles que nunca chegam?

Idosos autistas têm vivido sozinhos, sem rede de apoio adequada. As barreiras sensoriais e sociais permanecem, e mudanças significativas de rotina — como viuvez, aposentadoria e outros desafios próprios da terceira idade — tendem a aumentar os níveis de ansiedade e isolamento social.

Permanece urgente a ampliação de estudos, estratégias de detecção, acompanhamento e direcionamento específico para pessoas autistas idosas, para que, nessa última fase da vida, possam finalmente acessar compreensão e adaptações que lhes foram negadas na juventude.

É preciso olhar para trás para não repetir os mesmos erros no futuro — começando por dar voz a quem passou a vida inteira silenciado.

O envelhecimento autista não é apenas uma questão de saúde pública, mas de dignidade humana.

Referências:

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Jornalista, mãe de um autista adulto, radicada na Holanda desde 1985, escritora — autora do livro Caminhos do Espectro (lançado no Brasil em dezembro de 2021) —, especialista em autismo & desenvolvimento e autismo & comunicação, além de ativista internacional pela causa do autismo.

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