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Ontem, encerrei um ciclo incrivelmente transformador na minha trajetória: o último dia do nosso curso “Autismo no Feminino: Literatura e Expressão” na Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
Ver esse projeto lindo ganhar vida é o resultado de anos de amadurecimento, tanto pessoal quanto profissional. O sentimento que preenche meu peito hoje é de uma honra imensa e a certeza de que estamos pavimentando um caminho necessário.
De criadora de conteúdo a professora
Comecei a criar conteúdo com apenas 12 anos de idade. Naquela época, eu escrevia críticas de cinema. Em 2014, minhas crônicas sobre autismo viralizaram. Então, houve uma demanda incrível pela minha produção acerca do tema ao longo da década seguinte. Hoje, mais madura, penso em novas maneiras de compartilhar conhecimento, de comunicar meus afetos e minhas paixões, meus estudos e percepções.
Nesta fase, quero projetos que estimulem a minha criatividade, que sejam capazes de criar valor e possibilitar esperança à vida das pessoas. Perto de concluir o doutorado em Literatura e já mestre em Comunicação, percebo nessas áreas um potencial incrível para conectar as pessoas e fazê-las se expressar. O autismo traz esse prejuízo na comunicação social como parte do diagnóstico. E, não surpreendentemente, esse tem sido o grande calcanhar de aquiles da nossa comunidade.
Tornar-me professora me pareceu o caminho natural de preparação acadêmica e na vida profissional. Passar de aluna a professora, contudo, me exige responsabilidade. Já tive várias oportunidades anteriormente em minha carreira; já recusei, por exemplo, ser instrutora de ABA em uma pós-graduação. Para mim, os projetos precisam fazer sentido e eu quero ser realmente útil.
A força do autismo na UFPel
Quero deixar um legado. Embora alguns ativistas digam que formei uma geração de criadores, estou aprendendo a ser muito mais ambiciosa, mas sempre com os pés no chão e a cabeça na lua. Penso que chegou o momento. Estou na melhor fase da minha vida. Isso porque não fico mais chateada tão facilmente e me sinto muito mais à vontade para me posicionar. A terapia e o budismo têm me ajudado muito. Estou cercada de boas pessoas e consolidando uma série de projetos. Amo estar com pessoas, interagir, criar um ambiente onde nossas vidas possam ser transformadas por meio de uma construção coletiva. Oferecer esse curso me possibilitou isso. Afinal, uniu algumas das minhas maiores paixões em termos de pesquisa: literatura, crítica social e mulheres autistas.
A revolução da representatividade, autismo na UFPel e nossas parcerias
Curso de autismo na UFPel
Foram encontros repletos de diálogos ricos, onde pudemos mergulhar fundo em temas que considero essenciais, tanto para a minha pesquisa acadêmica quanto para a nossa vivência prática:
- As nuances das manifestações no autismo: Uma análise franca sobre como o espectro se apresenta em nós, mulheres, validando particularidades que por muito tempo foram invisibilizadas.
- Literatura neurodivergente: A urgência e a beleza de ler, estudar e valorizar obras e narrativas construídas sob a nossa ótica.
- Prosa, poesia e escrita criativa: O uso da palavra como ferramenta legítima de elaboração de identidade e afirmação no mundo.
Como doutoranda aqui na instituição, eu sei bem que o ambiente acadêmico com suas estruturas tradicionais pode, muitas vezes, se apresentar como um espaço hostil e desafiador para pessoas neurodivergentes. Portanto, fazer parte da estruturação desse projeto ao lado de outra professora autista, sob a coordenação de um pesquisador de excelência ímpar que também é autista, é indescritível. Dessa forma, assumir aquele espaço de protagonismo, de ensino e de troca mútua vai muito além da sala de aula. É um ato revolucionário e de representatividade real. Nós pertencemos às universidades, às cátedras e à produção de conhecimento!
Novos capítulos e o futuro
Para o futuro, certamente quero continuar lecionando. Tenho vários projetos de curso que, finalmente, estão começando a sair do papel. No campo da produção de conteúdo, continuo com o olhar atento às nuances do autismo e da neurodivergência, baseados em estudos e no compartilhamento de experiências autobiográficas.
Além disso, as minhas críticas de cinema seguem a todo vapor, na minha newsletter Filmes para Sempre e no podcast Boas de Conversa, que divido com a minha mãe, Selma Sueli Silva. Minha carreira como romancista também se beneficia desse período fértil. Afinal, fechei com uma editora para o lançamento de uma comédia romântica anual, consolidando o caminho literário que venho trilhando com obras como A Influenciadora e o Crítico.
E em agosto qualifico no doutorado! Esta pesquisa vem sendo muito especial, porque une temas muito caros ao meu repertório, dos livros de chick-lit à música grunge e o impacto de ícones como Courtney Love, passando pela saúde mental. Quero que todas essas produções convirjam em criar valor: cruzar dados, inspirar reflexões e compartilhar vivências.
O engajamento e a troca profunda que tivemos nas aulas me mostram a força e a necessidade latente de iniciativas como essa. E para quem ficou de fora ou já está com saudade, trago boas notícias: eu e a Camila já conversamos e, certamente, teremos novas edições do curso! Fiquem de olho.
Sophia Mendonça





