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A premissa de uma história de terror: era uma noite escura e tempestuosa, e eu estava sem meus abafadores de ruído.
Em uma tempestade recente, dei-me conta do que acontecia em meu corpo conforme o barulho persistia muito acima dos meus limites: meus batimentos aceleraram, meu peito se apertou e doeu, minha mente ficou perturbada. Ficou, de repente, muito difícil me concentrar e pensar com clareza, minha mente envolvida em um ciclone‒ pensamentos sendo arremessados com violência para todos os lados sem que eu conseguisse agarrar qualquer um deles.
Essa situação absolutamente desesperadora me é familiar como uma manhã de terça-feira: já a vivenciei nas escolas, nos mercados, nas festas e em minha própria casa. E, ainda assim, sou pega de surpresa quando me dou conta de que estar assim corrói meus pensamentos e me faz pensar apenas em lutar ou fugir. Dizendo claramente: sou tomada de uma vontade violenta de me agredir, de me machucar e de atingir quem estiver no meu caminho.
Tenho lido relatos de outras pessoas autistas sobre porque se machucam em momentos de crise, e sinto que eles ecoam meus próprios sentimentos: a dor física alivia a dor da crise, os arranhões e marcas na pele extravasam o tornado violento que se movimenta dentro de mim.
Nunca fui uma pessoa agressiva nem autolesiva, mas apenas porque eu consumo todas as minhas forças para controlar o ímpeto que surge nesses momentos. Mas isso tem um custo: a violência que eu contenho em mim me machuca por dentro, com uma intensidade muito maior do que as marcas visíveis na pele.
O ímpeto de agredir os outros surge quando meu corpo desesperado sente-se impedido de escapar da situação, ou quando sente que a pessoa está piorando a crise. Tentar restringir movimentos, gritar, falar e dar ordens são algumas das coisas que podem provocar esse sentimento.
A cena de uma pessoa autista tapando os ouvidos e correndo para longe de lugares movimentados é quase um clichê e se encontra no imaginário de boa parte da população. Mas, quem apenas vê a cena, não compreende o que se passa no íntimo dessa pessoa autista. Não percebe que seus batimentos cardíacos se aceleram, seu peito dói, sua cabeça pulsa dolorosamente enquanto pensamentos acelerados se repetem: PERIGO! PERIGO! PERIGO!
Cada um de nós possui certos limites, que dependem de nossos corpos e de nossas histórias de vida.
Um limite familiar para a maioria das pessoas: ao encostar a mão em algo muito quente, recuamos rapidamente. Eu quero que você pense nesse instante e Imagine que alguém segure sua mão sobre o metal quente, impedindo esse movimento de auto proteção. Você consegue imaginar o que se passaria em seu corpo e sua mente nesse momento?
Você consegue imaginar que tipo de pessoa você se tornaria se isso acontecesse com você todos os dias?
Será que as pessoas podem aprender que abafadores de ruído, espaços mais silenciosos e o cuidado com o outro para evitar barulhos desnecessários são formas simples e que custam muito pouco para ajudar a evitar esse tipo de sofrimento? Eu espero que sim.
Cindy Dalfovo




