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Era uma vez um mundo que ainda não existia, dormente entre o nada e a ideia. Ali, algo começou a se mover, uma vontade de ser e existir. Foi assim que surgiram os Criadores.
Não eram deuses, nem Prometeus. Eram múltiplas vozes, no início dispersas e sobrepostas, que vinham do desconhecido para o mesmo propósito: a criação. Dentre os fragmentos de pensamentos, a ânsia do fazer estruturou o curioso microcosmo de que falaremos a seguir:
A oficina de criação de história. Uma ideia antiga que se concretizou entre as paredes de um sistema psiquiátrico, o CAISM Vila Mariana, para artistas e apreciadores das artes, que também eram autistas.
Que as necessidades de acessibilidade, comunicação facilitada, organização de atividades por etapas e cronograma pré-estabelecido para manutenção da previsibilidade são muito importantes para os autistas, isso todo bom clínico já sabe.
O que talvez possa ser uma novidade é o quanto um ambiente cercado de disponibilidade, presença e confiança pode ser suficientemente seguro para receber vários autistas numa oficina onde a principal ideia é construir algo: algo ainda totalmente desconhecido e sem forma definida.
A imaginação, antes dita restrita e deficitária nesse público (DSM–5; American Psychiatric Association 2013), foi campo de trocas de saberes, estimulando a flexibilidade de cada um para ouvir o outro, cedendo suas ideias e tecendo juntos o que achavam melhor.
E foi assim que demos início a essa jornada que tem nos deixado a cada semana mais e mais tocados ao reconhecer que, de fato, não há limite, não há um ponto onde possamos dizer: ele chega só até aqui.
Somos cinco profissionais do ambulatório TEAMM – UNIFESP (centro especializado em TEA ligado ao departamento de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo com foco na assistência, ensino e pesquisa), que acreditam na ideia de duas pessoas comuns da sociedade de construção de um mundo literário menos hostil e mais horizontal, sem comandos. E foram convidados 15 autistas ligados às artes que aceitaram esse desafio em prol da escrita e do desenho artístico.
Nosso primeiro encontro foi envolto por questionamentos sobre metas a cumprir e etapas a percorrer. Para alguns era claro que a oficina não daria certo. E o que era dar certo e… “dar certo para quem?”. Flexibilidade foi a resposta. Trabalhávamos com flexibilidade todo o tempo e texto e imagem foram sendo construídos em muitas mãos.
Os encontros foram marcados pela exploração do novo, até que encontramos uma rotina confortável. Ao chegarmos, éramos recepcionados com um aquecimento e alongamento, depois conversávamos sobre o processo criativo durante a semana que passou. Em seguida, era o momento mais aguardado: a criação por si só. Às vezes, em pequenos grupos, auxiliando aqueles que se sentiam mais confortáveis em menor número, ou todos juntos. A finalização era a apresentação do que foi produzido, e o que faríamos no próximo encontro. Tudo era feito em conjunto, ouvindo suas ideias e montando um grande e complexo quebra cabeças.
Em nosso último encontro, tivemos uma experiência muito diferente da nossa rotina de ambulatório. Nossos representantes da sociedade civil, pessoas comuns ligadas às artes, convidaram todos a ir ao piano da instituição para tentarmos compor uma música para nosso projeto. Todos nos levantamos de imediato e fomos ao salão onde estava o piano.
Música nos corredores de um equipamento psiquiátrico, acordes em experimentação, sorrisos por todos os lados, curiosos se aproximando e, em seguida, uma explosão de canções e alegria no ar. Sim, quase poderíamos tocar a alegria.
Eu e Raquel, as autoras desse pequeno ensaio, nos abraçamos e ficamos ali paradas, olhando todo aquele movimento, aquela espontaneidade e criação com um forte sentimento de tarefa cumprida. Não, nossa oficina ainda não havia acabado, temos ainda uma jornada pela frente, mas está claro: nossa equipe agora tem cerca de 22 pessoas e o mundo utópico de Fernando e Rodrigo (idealizadores do projeto) já existe fora do papel.
Um microssistema que se ouve respeitosamente, compõe suas atividades entre competência e colaboração, muda de ideia, abre frentes inesperadas e conversas paralelas. Criaram, ali, conexões que vão para além do trabalho proposto.
Não houve nenhum protocolo de função executiva ou habilidade social, ou de qualquer outra possível necessidade que um cérebro neurodivergente pudesse ter. Estivemos presentes, inteiros para as relações, para ouvir suas inquietações e apresentar possibilidades diante de impasses. Tivemos horas de silêncio onde quiseram trabalhar em seus textos e seus desenhos, e momentos de descontração com uma história de afeto, ou uma lembrança engraçada.
Em outros momentos, algumas pessoas traduzindo seus pensamentos em palavras que outros pudessem dar formas a esses pensamentos.
Nossa função, como profissionais de saúde, era garantir um setting terapêutico potente, mas, na realidade, foi pela interação espontânea e pela singularidade de cada um, que o espaço se transformou em acolhimento e afeto. Cada semana que se passa, mais os vínculos se fortalecem entre eles, em um pertencimento mútuo e colaborativo.
Hoje só nos fica o desejo de agradecer a todos pela possibilidade de contar e viver essa história.
Equipe Teamm
Daniela Bordini, psiquiatra coordenadora do ambulatório de TEA.
Coordenadoras da equipe: Paula Ayub, psicóloga clínica (@paulaayubb); Monique Kamada, autista, neuropsicopedagoga (@moni.neuro.atipica); Silvia Minami, psicóloga (@silviaminami); Carolina Sobrinho Magalhães, professora de educação física, personal trainer (@carollapersonal); e Raquel Tortoreto, terapeuta ocupacional (@raquel.tortoreto).
Equipe de Criação
Giovanna Paiva de Sousa, estudante de Direito, @gi_mariae; Thomaz Neuber, historiador, estudante de história ([email protected]); Toni Ricardo Eugenio dos Santos, pesquisador em economia bancária (@toni.santos); Pedro Gallego Barenco, 20 anos, estudante de CDIA na PUC-SP ([email protected]); Amanda Cesar Corrêa, estudante de letras ([email protected]); Diego Lima de Souza, estudante de desenho artístico ([email protected]); Paulo Cesar Pinheiro, letrólogo, tradutor intérprete de Libras , psicopedagogo ([email protected]); Izzy Costa, Ilustradora formada pela University of Hertfordshire (@izzy_costa_).
Idealizadores do Projeto
Fernando Tibiriçá, criador de conteúdo artístico (http://linkedin.com/in/fernando-tibiriçá-9122324b) e Rodrigo de Sant’ Anna, produtor cultural (@rds.digo).
Paula Ayub


