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Muitas vezes, pessoas autistas adultas que parecem transitar com facilidade por ambientes sociais e profissionais começam a apresentar dificuldades inesperadas ou a perda de habilidades que já pareciam consolidadas. O que muitos não sabem é que por trás dessa “perda de funcionalidade” pode estar o impacto silencioso do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
O burnout autístico: Estresse Pós-Traumático afeta habilidades e o Masking no Autismo
Um grupo de pesquisadores, capitaneado pela doutora Dora Haymaker, definiu o burnout autista como uma síndrome resultante do estresse crônico da vida e de um descompasso entre as expectativas e as habilidades, sem o apoio adequado. Este burnout é frequentemente crônico e costuma durar mais de três meses, com exaustão generalizada e debilitante.
Seus sintomas são:
- Exaustão Crônica: Fadiga física e mental extrema. A sensação descrita no título: “recursos internos esgotados e sem equipe de limpeza”.
- Perda de Habilidades: Redução notável na função executiva (planejamento, memória de trabalho), habilidades de autocuidado, interação social e, em alguns casos, perda temporária da fala.
- Sensibilidade Sensorial Aumentada: Redução da tolerância a estímulos sensoriais (luzes, sons, toques) que antes eram suportáveis.
Diferente da depressão clássica, o burnout autista não é necessariamente marcado por anhedonia (perda de interesse/prazer). A pessoa quer fazer as coisas, mas o corpo e a mente “desligam”. Enquanto o burnout comum é ligado estritamente ao trabalho, o burnout autista permeia todas as esferas da vida e está ligado à própria identidade e processamento neurológico.
No entanto, o estudo identificou que o burnout não ocorre por causa do autismo em si, mas pela interação com um ambiente hostil. Por exemplo, o esforço exaustivo de “parecer normal” ou esconder traços autistas para sobreviver socialmente está entre algumas das possíveis causas. Assim como mudanças importantes como que aumentam as demandas cognitivas, como o luto, a falta de acomodações no trabalho ou na escola. O isolamento social é também um fator complicador.
O que é a perda de habilidades no autismo?
Para muitos autistas, especialmente aqueles com alto desempenho cognitivo, a vida em sociedade exige um esforço constante chamado masking (ou camuflagem social). Essa técnica consiste em compensar e esconder traços do autismo para se adequar às expectativas sociais. Exemplos de masking são ensaiar conversas antes, decorar piadas, observar e copiar o comportamento de outras pessoas.
Segundo um grupo de pesquisadores liderado por Laura Hull, a camuflagem social é uma resposta à pressão para se conformar a um mundo que não é projetado para mentes autistas. Para muitos, colocar o ‘melhor normal’ é uma estratégia de sobrevivência necessária, mas que cobra um preço devastador na saúde mental a longo prazo. Assim, o uso crônico da camuflagem está diretamente ligado a altos níveis de ansiedade, depressão e pensamentos suicidas. O masking costuma ser mais comum e persistente em mulheres no espectro.
No entanto, quando ocorre um evento traumático, o equilíbrio desse esforço é quebrado. Assim, o estresse pós-traumático pode levar à perda momentânea de competências já adquiridas. Com isso, faz com que a pessoa pareça “menos funcional” do que antes.
O cérebro em modo de sobrevivência
Isso acontece porque, quando uma pessoa autista passa por uma situação de trauma, o cérebro redireciona toda a sua energia e foco para uma única prioridade: sobreviver.
Nesse estado de alerta máximo:
- O Masking falha: A energia que antes era usada para manter a camuflagem social é drenada para lidar com o trauma.
- Habilidades Sociais diminuem: Situações que antes eram manejáveis podem se tornar esmagadoras, levando a erros sociais ou dificuldades de comunicação.
- Cognição e Execução: Mesmo pessoas extremamente inteligentes podem ter dificuldade em realizar tarefas cotidianas que antes eram simples.
Tudo isso ecoa nas minhas próprias experiências. Por um tempo até bastante longo, a impressão que se tinha é que eu havia regressado a uma falta de malícia social que não manifestava desde a pré-adolescência. Dessa forma, eu parecia alguém prolixa e inadequada em minhas interações sociais. Tudo isso me custou relações sociais e dificultou a minha trajetória profissional. Assim, eu falava demais durante uma reunião, por exemplo, dando detalhes excessivos e desnecessários. Em casa, desabava de tal maneira que até questões do autocuidado, como a higiene bucal e a organização mínima do ambiente, ficaram comprometidas.
A importância do tratamento especializado
Essa “regressão” ou a perda de habilidades após um trauma não é uma escolha, mas uma resposta biológica do sistema nervoso. Por isso, a autocompaixão e o suporte profissional são fundamentais. No entanto, a recuperação é possível. No meu caso, foi necessário um acompanhamento multidisciplinar. Assim, a combinação de psicoterapia (para processar o trauma) e psiquiatria (para suporte clínico) foi o caminho para retomar a qualidade de vida e restaurar o equilíbrio perdido.
Além disso, algumas estratégias são importantes para recuperação e prevenção:
- Unmasking (Retirada da Máscara): Permitir-se agir de forma autista, reduzindo a pressão pela normalidade.
- Redução de Carga: Diminuir demandas sociais e profissionais.
- Apoio de Pares: Conectar-se com outros autistas para validar a experiência.
- Autoconhecimento: Entender os próprios limites sensoriais e cognitivos antes de atingir o colapso.
Conclusão: Estresse Pós-Traumático afeta habilidades e o Masking no autismo
Se você é autista e sente que “desaprendeu” a lidar com o mundo após um período difícil, saiba que você não está sozinho. O trauma tem um peso real, mas com o tratamento adequado, é possível sair do modo de sobrevivência e voltar a florescer.
Sophia Mendonça





