1 de março de 2026

Tempo de Leitura: 2 minutos

Férias deveriam ser sinônimo de descanso. Mas, para quem tem um filho autista, as férias costumam ser apenas mudança de cenário com o mesmo cansaço.

Neste ano, fomos para o litoral norte de São Paulo, em Caraguatatuba. Mar bonito, vento gostoso, areia fofa e aquele sonho clássico de família caminhando à beira-mar. Sonho mesmo. Porque o Gabriel, nosso filho autista de 16 anos, nível de suporte entre 2 e 3, não tinha combinado nada disso com a gente.

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O Gabriel vive uma fase de muita rigidez cognitiva. Tudo precisa seguir o script. E qualquer alteração, qualquer mesmo, pode virar gatilho para crise. Trocar o horário? Complicado. Mudar o caminho? Já começamos mal. Levar para o mar “só pra molhar o pé”? Nossa Senhora… aff.

Caminhar, então, nem se fala. A praia tem cerca de 2 km para ir e mais 2 km para voltar de ponta a ponta. No primeiro dia, conseguimos uns 100 metros. Com negociação, insistência e uma planilha invisível de argumentos. No segundo dia, fomos ousados: 500 metros. Um verdadeiro feito olímpico. Eu já estava pronto para pedir medalha.

Até que, em um dia qualquer, porque as grandes coisas quase sempre acontecem assim, algo mudou. O Gabriel simplesmente começou a correr. Uma corrida meio desajeitada, é verdade. Ele tem hipertonia muscular, então não era exatamente um comercial de tênis esportivo. Mas ele correu. Não olhou para trás. Não perguntou quanto faltava. Não reclamou da areia, do vento ou do sol. Ele correu de frente para o vento, sentindo aquela água mansa que chega tímida na areia e molha só a sola dos pés.
E ali eu tentei, de verdade, me colocar no lugar dele. O que será que ele estava sentindo? Liberdade? Organização sensorial? Prazer? Ou só estar?

Poucos segundos depois, a Agatha, nossa filha de 8 anos, entrou na cena. Ela correu ao lado do irmão, como quem diz, sem palavras: isso parece bom e eu quero fazer parte.

E, naquele instante, algo raro aconteceu. Eu esqueci do autismo. A Grazy e eu ficamos alguns metros atrás, apenas olhando. Sem corrigir. Sem antecipar crises. Sem pensar no próximo passo. Só curtindo.

Foi breve. Muito breve. Mas foi real. E talvez seja isso que a vida nos ensine, de vez em quando: não é sobre chegar aos 4 km da praia, não é sobre cumprir o roteiro perfeito, é sobre aqueles segundos inesperados em que tudo se alinha, o vento, o corpo, o afeto e a esperança.

Seguimos em frente. Com cansaço, sim. Com desafios, sempre. Mas também com a certeza de que, às vezes, nossos filhos correm mais longe do que a gente imagina e nos levam junto, mesmo que só por alguns passos.

Se você também vive momentos assim, me conta. Qual foi o pequeno grande instante que te fez respirar fundo e pensar: vale a pena seguir?

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Pai do Gabriel (que tem autismo) e da Thata, casado com a Grazy Yamuto, fundador da Adoção Brasil, criador do app matraquinha, autor e um grande sonhador.

André e a Turma da Mônica em: O som do silêncio

O peso da excelência

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