1 de março de 2026

Tempo de Leitura: 3 minutos

Nas últimas semanas, ganhou espaço nas redes sociais a afirmação de que o transtorno do espectro do autismo (TEA) poderia representar uma “evolução biológica do cérebro humano”. Essa leitura, além de equivocada, não corresponde ao que está descrito nos estudos científicos citados para sustentar tal interpretação.

Embora o debate sobre neurodiversidade e variações cognitivas seja legítimo, necessário e socialmente relevante, confundir esses conceitos com evolução biológica adaptativa representa um erro teórico grave. Do ponto de vista neurocientífico e evolutivo, o autismo não pode ser classificado como um produto de evolução biológica positiva — e há razões claras e bem estabelecidas para isso.

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Evolução biológica e critérios científicos

Na biologia evolutiva, um traço só pode ser considerado resultado de seleção natural positiva se ele aumentar a sobrevivência, o sucesso reprodutivo ou oferecer uma vantagem adaptativa consistente em determinado ambiente. Esses critérios são objetivos, mensuráveis e amplamente descritos na literatura científica.

O autismo não atende a nenhum desses critérios. Trata-se de um transtorno do neurodesenvolvimento associado, em grande parte dos indivíduos, a déficits persistentes na comunicação social, dificuldades de reciprocidade social, prejuízos funcionais adaptativos relevantes, maior risco de comorbidades clínicas e redução global de autonomia. Essas características, em média populacional, não aumentam a sobrevivência nem o sucesso reprodutivo.

É fundamental lembrar que transtornos são definidos pelo impacto negativo no funcionamento adaptativo, e não pela simples existência de diferenças cognitivas. A presença de pessoas autistas com habilidades específicas preservadas — ou mesmo superiores em determinados domínios — não invalida o diagnóstico, assim como a existência de pessoas com deficiência intelectual altamente adaptadas não transforma a deficiência em vantagem evolutiva.

Diferença cognitiva não é sinônimo de adaptação biológica.

O que a genética mostra

A própria genética do autismo contradiz a hipótese de evolução adaptativa. Os dados são claros ao demonstrar alta heterogeneidade genética, com grande parte dos casos envolvendo mutações de novo (mutações que não foram herdadas) rearranjos cromossômicos e variantes raras de alto impacto.

Mutações de novo, por definição, não são transmitidas de forma adaptativa ao longo das gerações. Esse padrão genético é incompatível com a noção de seleção natural positiva e reforça o entendimento do TEA como uma condição multifatorial associada à vulnerabilidade do neurodesenvolvimento humano.

Outro equívoco recorrente é confundir neurodiversidade com seleção natural. Neurodiversidade é um conceito social, ético e político, voltado à promoção de respeito, inclusão e direitos — o que é absolutamente correto e necessário. No entanto, neurodiversidade não implica vantagem evolutiva, assim como respeito social não altera critérios científicos.

Misturar esses campos enfraquece tanto a ciência quanto a própria defesa da inclusão.

O que a ciência permite afirmar, de forma responsável, é que o cérebro humano é altamente complexo e, justamente por isso, vulnerável. A ampliação de circuitos cognitivos ao longo da evolução aumentou também o risco de disfunções do neurodesenvolvimento.

Nesse contexto, o TEA pode ser compreendido como um efeito colateral do ganho de complexidade neurobiológica da espécie humana — não como um avanço evolutivo. Trata-se de uma condição multifatorial, com custos adaptativos evidentes, e não de um estágio superior de organização cerebral.

Ciência sem romantização

Rotular o autismo como uma “evolução” do cérebro humano minimiza o sofrimento real de crianças e famílias, deslegitima a necessidade de intervenções baseadas em evidência, alimenta o negacionismo terapêutico e cria falsas expectativas científicas. Além disso, confunde pais, educadores e formuladores de políticas públicas.

A ciência responsável não romantiza transtornos neuropsiquiátricos.

Reconhecer a dignidade, o valor humano e os direitos das pessoas autistas é sempre essencial. Mas respeito não pode servir de justificativa para distorção científica. Autismo não é, sob nenhuma definição rigorosa, uma evolução biológica do cérebro humano. É um transtorno do neurodesenvolvimento, resultante da complexidade genética e neurobiológica da nossa espécie.

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Paulo Liberalesso é médico neuropediatra, pós-graduado em análise do comportamento aplicada, mestre em neurociências, doutor em distúrbios da comunicação humana, diretor do CERENA – Intervenção Comportamental.

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