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ONDA-Autismo

"Organização Neurodiversa pelos Direitos dos Autistas"

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Arteterapia, uma possibilidade para o tratamento do autismo

15 de novembro de 2021

Tempo de Leitura: 5 minutos

Tismoo Biotech

Por Patrícia Feijó Evangelista Winck 

Conselheira Estadual de  Santa Catarina da ONDA-Autismo; Arteterapeuta ACAT 045/0313; Pós-graduação em Arteterapia; Especialização Orientação Profissional e de Careira; Bacharela em Direito; Especialista em Autismo;
Membra Internacional The Nora Cavaco Institute – International Center of Neuropsychology & Autism – Portugal 2017; Voluntária do Grupo Conversando sobre Autismo de São José/SC

 

 

Existe atualmente uma gama de terapias para serem tratadas as pessoas autistas, embasadas e comprovadas cientificamente. Atendendo as motivações em defesa da diversidade das pessoas que possuem o diagnóstico de autismo, trago uma reflexão sobre os benefícios e a importância da arteterapia também para pessoas autistas.

O que é ir além da singularidade e inteireza para as pessoas autistas?

A arteterapia é um acompanhamento terapêutico realizado por meio da arte, para todos, em todas as idades, individualmente ou em grupo. Nas expressões artísticas espontâneas, autênticas e livres, a pessoa vivencia suas emoções e sentimentos, proporcionando dessa forma um novo olhar para si, reconhecendo e transformando seus anseios, propiciando autoconhecimento, estimulando a autoestima e a autoconfiança, adquirindo assim, mais equilíbrio em seu desenvolvimento.

Utilizar canais criativos, imaginários, lúdicos, prazerosos, constroem vínculos de confiança e respeito. Buscar na expressividade, especialmente pela comunicação não verbal, é acessar imagens conscientes e inconscientes, símbolos e seus significados, pondo em ordem as questões psíquicas emergentes, organizando o espaço interno, “arrumando a casa”, trazendo equilíbrio emocional, motivação pessoal, alegria e harmonia no dia a dia.

Embasada cientificamente, a arteterapia fundamenta-se na Psicologia e nos estudos das artes. Surgiu com o psiquiatra Morh em 1906, onde seus estudos fundamentaram testes psicológicos Rorschach e TAT (Murray) utilizados até os dias de hoje. Depois vieram Sigmund Freud e seu olhar psicanalítico para a arte em seus estudos nas grandes obras de renomados artistas da época. Segue o movimento, Carl Gustav Jung em 1920, trazendo essa prática para o consultório, solidificando-a na linha da futura psicologia analítica. No mesmo período, no Brasil, vieram Osório César e Drª Nise da Silveira, revolucionando o tratamento psiquiátrico humanizado com a arteterapia, também em consonância e coincidência com os estudos e práticas de JUNG, na Suíça. Seguindo com a proposta de consultório, surge e se solidifica a arteterapia, assim intitulada por Margaret Naumburg, em 1968, que passa também a ministrar cursos. Em 1972, a francesa Françoise Douto, utiliza da arte como meio de comunicação com crianças, inclusive as que não utilizavam a fala, mas assim, propiciando o desenvolvimento global das mesmas. Grandes nomes da psicologia também deixaram seus registros sobre a arteterapia utilizando-a em grupos e famílias, como Janie Rhyne e Natalie Rogers, a Gestalt de Perls e o psicodrama de Moreno.

Com a chegada do século XXI, a arteterapia, embasada na ciência da Psicologia e da arte, começa a ser alvo também de pesquisas neurocientíficas, passando a evidenciar seus benefícios não apenas psicológicos e emocionais, mas também neurofuncionais, onde  alterações momentâneas ocorrem em determinadas partes do cérebro, vem comprovar a sua eficácia na busca por resultados positivos nos benefícios da arteterapia, isto é, a arte proposta por meio de um arteterapeuta, focando no processo realizado durante a execução do fazer artístico e criativo, e não somente no resultado material final, a arte em si.

Os arteterapeutas usam uma variedade de meios artísticos e estratégias de intervenção para envolver o cliente na expressão criativa com o objetivo de reduzir os sintomas.[…]. A tecnologia de neuroimagem contemporânea oferece um método acessível de medição da dinâmica cerebral em ambientes do mundo real. Esta tecnologia pode ajudar a elucidar como a arte dentro da relação terapêutica envolve o cérebro e fornece dados científicos para medir os mecanismos de mudança e os resultados das intervenções de terapia de arte clínica (KING and KAIMAL, 2019).

O processo arteterapêutico volta-se ainda para o entendimento integral de cada pessoa, em especial, ao acolher as peculiaridades das pessoas autistas, oportunizando ações práticas para sua autonomia, percepção de si mesmo, compreensão e autocontrole de comportamentos indesejáveis, desenvolvendo habilidades sociais, bem como auxiliando a família na capacitação do crescimento pessoal, nos diversos contextos de sua vida.

É por meio da arte e seus princípios criativos, imaginativos e de características intrínsecas, conscientes e inconscientes, que se trace aqui um paralelo aos fazeres extrínsecos, onde as respostas podem ser medidas, avaliadas e consideradas. É o fazer expressivo, unido ao sensório-motor, cognitivo, comportamental, social e afetivo, na percepção de ganhos nas rotinas menos rígidas, pensamentos mais flexíveis e adaptativos, atuando no controle inibitório, autorregulação emocional e trabalhando com formas prazerosas as funções executivas. Eis aqui, outro benefício paralelo ao tratamento das pessoas autistas.

Buscar na arteterapia respostas positivas às questões peculiares a cada pessoa, é zelar por sua particularidade, crescimento físico, cognitivo, psíquico e emocional. É acompanhar seu pleno amadurecimento.

Necessário faz-se repetir: TODA PESSOA É ÚNICA, BEM COMO, TODO AUTISTA, TAMBÉM O É.

É com especificidade e respeito a sua inteireza, explorando potencialidades inatas, desenvolvendo habilidades e competências, que se possa abranger a forma das aprendizagens globais e específicas necessárias, que irão compor o todo, de cada um. Não se é segmentado. Não se vê a pessoa em partes. Em sua visão integral, novamente tem-se na arteterapia outro diferencial terapêutico.

É o que lhes contém que significa. É o que são e se tornam que os completa e os define.

Um diagnóstico e uma única forma de olhar o autismo, pode limitar e cercear suas capacidades pessoais, e não trará chance de olhar o futuro com esperança às oportunidades, prosperidade e realização.

É a perspectiva de viver com o seu melhor, sua essência e capacidade de escolhas, por si ou por pais. É buscar conviver com um mundo ao seu modo de ver, pertencer e ser feliz. É ir além, e alçar-se a outras descobertas em um mundo a explorar, a experienciar, a sentir e viver o seu todo.

A arteterapia simboliza uma “matiz de cores”, de possibilidades a serem consideras, e é a pouca atuação da mesma dentro do campo do neurodesenvolvimento, especificamente no Transtorno do Espectro Autista, que a impede nesse momento, de trazer respostas positivas em pesquisas e publicações para evidenciar a sua atuação. Isso não rechaça a sua veracidade, cientificidade, e muito menos, a relevância que traz às pessoas que se beneficiam e estão no espectro do autismo.

Tem-se uma construção biopsicossocial, história de vida, marcos do desenvolvimento pessoal, personalidade, estado emocional etc., questões personalíssimas. Estar no Transtorno do Espectro do Autismo, contém em si, condições e particularidades que ultrapassam, ainda mais, esse EU PESSOA.

O que é então ir além dessa singularidade e inteireza? É contemplar também o espectro de terapias, pois o desenvolvimento humano é de uma beleza ímpar. Jamais estaríamos acolhendo cada um como é, quais necessidades tem e a importância delas particularmente, se houvesse apenas uma forma de tratamento para este espectro, e principalmente, que potencialidades poderiam ser despertadas, como dons, talentos, habilidades e competências, desenvolvidas sem outras terapias que abrangessem o SER único como é?

Segundo o Estatuto da Pessoa com Deficiência, artigo 14, Parágrafo único, que está em consonância com a lei 12.764, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista em seu artigo 14, reza:

Art. 14. O processo de habilitação e de reabilitação é um direito da pessoa com deficiência.

Parágrafo único. O processo de habilitação e de reabilitação tem por objetivo o desenvolvimento de potencialidades, talentos, habilidades e aptidões físicas, cognitivas, sensoriais, psicossociais, atitudinais, profissionais e artísticas que contribuam para a conquista da autonomia da pessoa com deficiência e de sua participação social em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas. [Grifo nosso]

A diversidade de terapias surgiu para atender também à diversidade e às necessidades múltiplas dessas pessoas, e com esse olhar personalizado, serem tratadas. É assim em nosso cotidiano neurodiverso, e que seja também assim, nas necessidades terapêuticas das pessoas com autismo, regulamentada na lei acima citada.

Somos seres humanos em evolução, e que a ciência siga evoluindo juntamente com todas as necessidades humanas.

Completude a cada um, respeito à unicidade, acolhimento e empatia ao ser global. Afinal, A VIDA também OS CONTÉM.

 

Referências:

KING, Juliet L. e KAIMAL, Girija. Abordagens para pesquisa em terapia artística usando tecnologias de imagem. Disponível em:

https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fnhum.2019.00159/full. Acessado em 21 e outubro de 2021.

UBAAT, União Brasileira das Associações de Arteterapia. Disponível em:  https://www.ubaatbrasil.com/ Acessado em 21 de outubro de 2021.

Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm. Acessado em 21 de outubro de 2021.

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