1 de junho de 2026

Tempo de Leitura: 3 minutos

Na prática clínica, a interface entre altas habilidades/superdotação e autismo raramente se apresenta de forma simples, pois o que chega como queixa inicial quase nunca traduz a complexidade do funcionamento que está em jogo. É comum que crianças e adolescentes sejam encaminhados por dificuldades escolares, ansiedade ou problemas de interação, quando, na realidade, estamos diante de um perfil que exige uma leitura muito mais integrada e cuidadosa.

Existe uma ideia difundida de que a superdotação pode mascarar o autismo, o que de fato pode ocorrer em alguns casos, especialmente quando o alto repertório cognitivo sustenta estratégias sofisticadas de compensação social. Porém, na experiência clínica e na literatura científica, esse não é o cenário mais frequente, sendo mais comum observar o movimento inverso, no qual indivíduos com altas habilidades recebem inicialmente o diagnóstico de autismo, sobretudo quando características como intensidade, interesses aprofundados e formas particulares de interação são analisadas de maneira isolada, sem considerar o conjunto do funcionamento. Mais comum ainda é a presença da dupla excepcionalidade, na qual superdotação e autismo coexistem e se influenciam mutuamente.

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Lembro de um caso clínico de um menino de 9 anos que chegou ao consultório com diagnóstico prévio de transtorno do espectro do autismo (TEA), apresentando vocabulário avançado, raciocínio muito acima da média e um padrão de interesse altamente aprofundado em temas científicos, sendo descrito pela escola como rígido e com dificuldade de interação. Ao longo da avaliação, tornou-se evidente que não se tratava de uma incapacidade de compreender o outro, mas de uma baixa tolerância a interações superficiais e pouco estimulantes, o que modificava significativamente a leitura clínica, pois a dificuldade não estava na ausência de habilidades sociais, mas na forma como ele selecionava e se engajava nas interações.

Em outro caso, uma adolescente com excelente desempenho acadêmico e considerada funcional pela escola foi encaminhada por exaustão emocional persistente, relatando necessidade constante de monitorar suas interações, ensaiar respostas e ajustar seu comportamento para se adequar ao contexto social. Isso evidenciava um padrão consistente de camuflagem social, sustentado por alta capacidade cognitiva, mas com custo significativo para sua saúde mental, demonstrando que, nesses casos, não é a superdotação que mascara o autismo, mas o esforço adaptativo que torna o sofrimento invisível aos olhos do ambiente.

Esses exemplos ajudam a compreender que o principal desafio não está na ausência de sinais, mas na forma como esses sinais são interpretados. Tanto a superdotação quanto o autismo podem envolver intensidade, foco prolongado, preferência por atividades solitárias e sensibilidade elevada. Ou seja, exige que a avaliação vá além da observação comportamental e se concentre no funcionamento subjacente, investigando aspectos como a qualidade da reciprocidade social, a flexibilidade cognitiva, a presença de sofrimento nas interações e o sentido atribuído pelo próprio sujeito às suas experiências.

Outro elemento recorrente é a falsa percepção de autonomia, uma vez que crianças com alto potencial cognitivo frequentemente conseguem compensar dificuldades por longos períodos, antecipando demandas e organizando estratégias que mascaram fragilidades, o que leva adultos a interpretarem esse funcionamento como ausência de necessidade de suporte, quando, na realidade, muitas dessas crianças vivenciam níveis elevados de ansiedade, exaustão social e sensação de inadequação, que só se tornam evidentes em contextos mais exigentes ou quando o desgaste já se encontra instalado.

Nesse cenário, o risco de diagnósticos equivocados torna-se significativo, pois comportamentos associados ao autismo podem ser interpretados como desatenção, oposição ou desmotivação, enquanto características da superdotação podem ser desconsideradas ou atribuídas a outras condições. Um diagnóstico incorreto pode produzir uma fragmentação do sujeito em categorias que não contemplam sua complexidade, o que reforça a necessidade de uma avaliação psicológica e neuropsicológica que considere a interação entre pontos fortes e fragilidades, o histórico de desenvolvimento e o contexto ambiental.

A intervenção, por sua vez, precisa acompanhar esse nível de complexidade, sendo insuficiente abordar apenas o potencial cognitivo ou apenas as dificuldades, já que crianças e adolescentes com dupla excepcionalidade se beneficiam de estratégias integradas que promovam desenvolvimento intelectual, regulação emocional e adaptação social, respeitando a singularidade de cada perfil.

No contexto educacional, o desafio se intensifica, pois a organização escolar ainda opera, em grande parte, a partir de categorias rígidas que não comportam perfis mistos, o que contribui para a invisibilidade dessas crianças, que muitas vezes são vistas como suficientemente capazes para não receber suporte, mas não suficientemente adaptadas para serem compreendidas em sua totalidade.

Reconhecer a relação entre superdotação e autismo não se limita a uma definição diagnóstica, mas implica sustentar a complexidade do funcionamento humano sem reduzi-lo a explicações simplificadas, compreendendo que, embora a superdotação possa, em alguns casos, mascarar o autismo, o mais frequente é que essa complexidade seja interpretada de forma parcial, levando a leituras que não contemplam a coexistência desses dois modos de funcionamento.

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Psicólogo, neuropsicólogo, pedagogo, mestre em psicologia com ênfase em avaliação psicológica e em “altas capacidades y desarrollo del talento”, especialista em análise do comportamento aplicada, em altas habilidades/superdotação e em TEA, psicólogo escolar e educacional, além de doutorando em ciências, tecnologia e inclusão.

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