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Nas últimas duas décadas, o mundo acompanhou uma escalada vertiginosa nas estatísticas sobre o transtorno do espectro autista (TEA). Dados recentes do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) apontam que, hoje, 1 em cada 36 crianças está no espectro. Esse salto estatístico levanta um debate crucial na neuropsiquiatria contemporânea. Isso porque, ao mesmo tempo em que a ampliação dos critérios corrige falhas históricas que deixaram gerações inteiras sem respostas, o fenômeno esbarra em novos desafios. Exemplos são a banalização dos traços nas redes sociais, o autodiagnóstico precipitado e a urgência por acomodações em um mercado de trabalho ainda hostil.
Não há “epidemia”, mas é preciso atenção
Do ponto de vista epidemiológico, o crescimento nas taxas de diagnóstico não sinaliza uma epidemia. O neuropediatra Dr. Paulo Liberalesso explica que o principal motor dessa mudança foi a publicação do DSM-5, em 2013, que unificou condições anteriormente separadas, como a síndrome de Asperger, sob o guarda-chuva do transtorno do espectro autista. “O conceito de ‘espectro’ permitiu à comunidade científica reconhecer indivíduos com apresentações menos sintomáticas, que anteriormente muitas vezes não recebiam diagnóstico.”, observa o médico. Além da ampliação dos critérios e da maior conscientização social, os avanços da medicina moderna desempenham um papel vital. Liberalesso esclarece que a maior sobrevida de crianças extremamente prematuras ou com condições biológicas complexas no período perinatal, fatores associados a um risco aumentado para o TEA, também reflete diretamente nos números atuais.
Contudo, há o risco de patologizar o sofrimento comum e a diversidade natural do comportamento humano. Introversão extrema, excentricidade ou dificuldades sociais pontuais são características da personalidade humana e não devem ser confundidas com um transtorno do neurodesenvolvimento. Para que haja o diagnóstico, é indispensável a presença de um prejuízo funcional clinicamente significativo. “Diversos autores alertam para o fenômeno da “patologização” da vida cotidiana, no qual características da personalidade, diferenças individuais ou dificuldades esperadas ao longo da vida passam a ser interpretadas como doenças. O desafio é evitar dois erros igualmente prejudiciais: subdiagnosticar pessoas que realmente precisam de tratamento e superdiagnosticar indivíduos cuja principal característica é simplesmente fazer parte da diversidade natural da espécie humana”, reflete o neuropediatra. Para Paulo Liberalesso, plataformas como TikTok e Instagram privilegiam conteúdos curtos, simplificados e altamente engajadores. Nesse contexto, características comuns da personalidade ou experiências universais acabam sendo apresentadas como sinais de transtornos neuropsiquiátricos. Muitas pessoas passam a interpretar sua identidade a partir desses conteúdos, antes mesmo de serem submetidas a uma avaliação clínica adequada. Afinal, muitas comunidades virtuais oferecem acolhimento, compreensão e senso de pertencimento para indivíduos que passaram a vida se sentindo diferentes ou incompreendidos.
Autismo em grupos vulnerabilizados
A hesitação em buscar o diagnóstico na vida adulta é reflexo direto de uma lente histórica enviesada. Segundo a neuropsicóloga Dra. Annelise Júlio-Costa, durante décadas, os critérios clínicos e os instrumentos de avaliação foram moldados a partir do perfil de meninos brancos, com manifestações mais visíveis e estereotipadas. A imagem que construímos do autismo nasceu a partir de um grupo muito específico. “Os critérios atuais são mais amplos, mas ainda dependemos muito de exemplos, instrumentos e referências construídos a partir desse perfil. Então, mulheres, pessoas negras e pessoas de contextos sociais diferentes podem até preencher os critérios, mas não necessariamente “parecem autistas” aos olhos de quem avalia. O problema, muitas vezes, não está somente no manual, mas na lente histórica com a qual o profissional lê aquele manual”, observa a especialista.
Annelise considera que “Quando falamos em hiperfoco, muita gente ainda imagina interesses bastante estereotipados, como trens, mapas, números ou tecnologia. Mas o hiperfoco não é definido apenas pelo assunto. O mais importante é observar a intensidade, a rigidez, o tempo investido e o impacto daquele interesse na vida da pessoa. Uma mulher pode ter um interesse intenso por psicologia, literatura, celebridades, organização da casa ou cuidados com os filhos e isso ser socialmente valorizado, portanto menos percebido como atípico. Comportamentos repetitivos também podem aparecer de maneira discreta: mexer nos dedos, repetir músicas mentalmente, rever a mesma série, organizar excessivamente a rotina ou controlar cada detalhe do ambiente. Além disso, raça, gênero e contexto social mudam a forma como o comportamento é interpretado. Às vezes, a mesma característica que seria vista como sinal clínico em uma pessoa é entendida como agressividade, falta de educação, timidez ou desinteresse em outra. E os testes, quando são utilizados de maneira muito literal, podem não captar essas nuances”..
A falta de formação em neurodiversidade faz com que alguns profissionais procurem apenas sinais muito visíveis. Quando não os encontram, descartam o diagnóstico cedo demais, sem investigar a história de desenvolvimento, a camuflagem e o custo emocional da adaptação. “A questão não é simplesmente saber se a pessoa faz contato visual, mas entender como ela faz, quanto esforço isso exige e se esse comportamento foi aprendido como uma regra social. Muitas pessoas autistas desenvolvem estratégias extremamente sofisticadas para parecerem socialmente confortáveis, mas chegam em casa completamente exaustas”, avaliou Annelise, que é doutora em neurociências pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Essa invisibilidade resulta em uma série de diagnósticos equivocados ao longo da vida: ansiedade generalizada, depressão, transtorno bipolar ou transtorno de personalidade borderline (TPB). O sofrimento subjacente é real, mas a causa raiz, um cérebro neurodivergente em constante esforço de adaptação, é ignorada. A neuropsicóloga alerta: “Mas eu acho importante ter cuidado ao chamar todos esses diagnósticos de ‘errados’, porque algumas dessas condições podem, de fato, coexistir com o autismo.”
Sobre o chamado “efeito TikTok”, as redes sociais podem levar alguém a levantar uma hipótese, mas não criam uma história de desenvolvimento. Uma avaliação séria não desconsidera o que a pessoa viu na internet, mas também não aceita uma identificação superficial. Ela investiga o conjunto, as contradições e, principalmente, o impacto real dessas características ao longo da vida. “Não existe um teste isolado que dê o diagnóstico de autismo. É necessário combinar entrevista clínica, história do desenvolvimento, informações da família quando possível, observação comportamental, instrumentos específicos e avaliação da funcionalidade. Também é fundamental entender se os sinais estavam presentes desde a infância, ainda que de forma sutil. Na ansiedade social, por exemplo, a pessoa geralmente compreende os códigos sociais, mas sente medo de ser julgada. No autismo, pode existir também ansiedade, mas há diferenças mais profundas na forma de perceber, interpretar e responder às situações sociais e sensoriais”, explicou Annelise Júlio-Costa.
O custo profissional e a luta por acomodações
Para os autistas que conseguem atravessar as barreiras acadêmicas, o mercado de trabalho apresenta desafios muitas vezes silenciados. O ambiente corporativo e jurídico, por exemplo, é permeado por regras sociais implícitas e pela necessidade de networking e leitura de ambiente. O advogado e bancário autista James Cross relata o nível de desgaste envolvido nessa performance. Embora o campo do Direito possua regras claras e previsibilidade processual (um alívio para o cérebro autista), a necessidade de mascarar estereotipias, sustentar o contato visual e forçar uma eloquência neurotípica para transmitir credibilidade é uma passagem direta para o burnout. O profissional destaca como suas dores emocionais se somatizam: pensamentos e gatilhos sensoriais se transformam em dores físicas que percorrem o corpo como “eletrochoques”. Mesmo com um currículo de excelência (múltiplas graduações e mestrados), as barreiras estruturais persistem. As cotas muitas vezes são ilusórias, limitando-se a tempo extra em provas escritas, ignorando completamente adaptações necessárias para fases como provas orais ou exames psicotécnicos padronizados.
Antes de buscar um laudo formal, a pedagoga Jessica Macedo notou que as plataformas digitais começaram a entregar conteúdos específicos sobre a intersecção entre o Autismo e o TDAH. fenômeno conhecido na comunidade como AuDHD. No entanto, foi na convivência diária e profunda com sua ex-esposa que as peças começaram a se encaixar. Jessica percebia que seus traços clássicos de TDAH, como a hiperatividade, desorganização e interrupções frequentes, entravam em choque com as necessidades autistas da companheira, gerando atritos na rotina. Ao mesmo tempo, Jessica compartilhava sintomas como a exaustão social severa e a dificuldade de ler nuances e entrelinhas do comportamento humano. Quando a ex buscou avaliação e recebeu a confirmação de TEA, o diagnóstico funcionou como um espelho. Ainda assim, a racionalização dos traços é uma barreira comum. Jessica relata que, diante da complexidade do cérebro humano, costumava mascarar as próprias suspeitas, e atribuía as características a “cansaço”, “estresse” ou “manias”. No fim, as características de Jéssica foram melhor explicadas pelo diagnóstico de TDAH, sem o TEA. Estar em constante diálogo com especialistas a ajudou a manter o pé no chão no caminho para o diagnóstico, que foi recebido com alívio e aceitação.
A balança do diagnóstico e o equilíbrio necessário
A primeira vez que refleti sobre a balança entre o sub e o sobrediagnóstico no autismo, de modo a questionar se estamos tendo mais diagnósticos do que deveríamos ou se lidamos com populações historicamente invisibilizadas, foi quando a minha mãe recebeu o laudo aos 53 anos. Para muitos leigos na comunidade autista, incluindo familiares e pais de autistas, causou estranheza que uma mulher com uma carreira tão bem-sucedida no rádio e na comunicação tivesse um diagnóstico que interferisse diretamente na linguagem e na interação social. Sem contar os ataques que recebemos na época, que foram profundamente dolorosos e deixaram sequelas na nossa saúde mental.
Por outro lado, há o caso das pessoas que hoje respeitam o diagnóstico da minha mãe, muitas vezes pelo peso e respeito que os profissionais envolvidos no laudo e no tratamento dela, que foi iniciado em 2016, possuem na comunidade do autismo. Naquela época, era raro ver figuras públicas falando sobre o próprio diagnóstico na vida adulta, e o estigma era muito maior do que hoje. Atualmente, o autismo já não é tão mal visto no sentido de que as pessoas no espectro, pelo menos no nível 1 de suporte, não são mais encaradas como sinônimo de incapacidade total.
No entanto, o aumento expressivo de diagnósticos de lá para cá nos leva, novamente, a colocar a questão na balança: estariam todos esses laudos corretos? Haveria diagnósticos sendo dados de forma equivocada, talvez por insegurança médica em atestar que uma pessoa apresenta um desenvolvimento razoável, mas sem prejuízos graves e profundos no cotidiano? Sempre compreendi o autismo de nível 1 de suporte, apesar de ser uma deficiência, como uma condição que traz muito sofrimento e consequências graves nas interações com o mundo. Em meu livro Metamorfoses, menciono que atividades cotidianas, como fazer compras, podem ser um desafio extremo e de difícil percepção para terceiros. Já no livro Outro Olhar, chamo de “armadilhas do cérebro” o ciclo de rigidez de pensamento que nos faz criar interpretações por vezes equivocadas, que se transformam em regras e viram uma verdadeira bola de neve. Isso traz sofrimento desnecessário à pessoa e faz com que ela conduza suas ações de maneira equivocada.
Se, por um lado, o diagnóstico se tornou mais acessível, o que corrige invisibilização históricas de grupos como mulheres e pessoas negras, por outro lado, corremos o risco de vê-lo ser banalizado. Pessoas que possuem apenas traços do chamado fenótipo ampliado do autismo (FAA) podem ser confundidas com indivíduos que de fato estão no espectro. O FAA ocorre quando uma pessoa apresenta algumas características do espectro, como certa rigidez cognitiva ou dificuldades de interação, mas não em quantidade ou intensidade suficientes para configurar um diagnóstico clínico formal. Essa condição está intimamente ligada à genética familiar. Na prática, o histórico familiar de pessoas autistas costuma ser repleto desses comportamentos, que antes eram lidos apenas como “esquisitices” ou fortes traços de personalidade.
É nesse ponto que me recordo do rigoroso processo diagnóstico da minha mãe. Ao notar características que poderiam ser transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtornos de ansiedade, entre outros, uma série de diagnósticos foi cuidadosamente investigada e descartada antes que o autismo fosse colocado como a hipótese central. Havia um entendimento claro de que ela acumulava perdas concretas e muito reais em empregos e relacionamentos ao longo de toda a sua trajetória. O diagnóstico de autismo, afinal, não existe sem a constatação de um prejuízo real. O desafio da psiquiatria e da sociedade é proteger a credibilidade de políticas públicas cruciais, como o acesso a cotas e ao Benefício de Prestação Continuada (BPC) sem invalidar a dor das pessoas que passaram a vida sofrendo com o subdiagnóstico. O caminho para uma sociedade genuinamente inclusiva passa pela garantia de avaliações profundas, capacitação profissional rigorosa e, acima de tudo, o acolhimento verdadeiro da diversidade humana.
Sophia Mendonça





