14 de maio de 2026

Tempo de Leitura: 3 minutos

Recentemente, tive a alegria de participar de uma conversa profunda e necessária para o mês de conscientização sobre o autismo. Afinal, fui convidada pelo Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT-MG) para uma entrevista conduzida pela juíza Jéssica Martins. Tivemos, portanto, a oportunidade de falar sobre a minha trajetória, a importância da literatura own voices (vozes próprias) e os Desafios das mulheres autistas: desafios específicos que nós, mulheres no espectro autista, enfrentamos todos os dias.

A descoberta e o diagnóstico tardio da minha mãe: Desafios das mulheres autistas, o impacto do masking e a verdadeira inclusão no trabalho

Fui diagnosticada com autismo aos 11 anos, lá em 2008. Naquela época, o cenário era muito diferente e cercado de desinformação. Lembro, inclusive, que predominava uma visão médica e patologizante do autismo. Assim, o foco dos profissionais parecia ser nos normalizar e forçar um comportamento neurotípico a todo custo, muitas vezes passando por cima do nosso bem-estar.

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Livro: Autismo — Não espere, aja logo!

Essa miopia médica histórica também afetou a minha família de forma direta. Foi só anos mais tarde, em 2016, que a minha mãe também recebeu o laudo dela para a Síndrome de Asperger, ajudando a gente a entender muito da nossa dinâmica e das nossas semelhanças.

O fenômeno do “Masking” e a realidade das mulheres autistas: Desafios das mulheres autistas

Um dos tópicos mais pesados e importantes que abordei na entrevista foi o masking — a nossa camuflagem social. O masking é uma estratégia que usamos para sobreviver: ensaiamos roteiros e copiamos comportamentos para disfarçar nossos traços autistas em um mundo que não foi desenhado para nós.

Para as mulheres, esse processo é ainda mais exaustivo. Sofremos pressões sociais e culturais que exigem uma adequação constante, o que resulta em altas taxas de depressão, ansiedade e crises. Historicamente, como quase todas as pesquisas sobre autismo se baseavam no comportamento masculino, nós, mulheres autistas, fomos negligenciadas pelo sistema de saúde. Precisamos de um nível muito maior de sofrimento interno invisível para sermos finalmente reconhecidas.

Comunicação e o poder da minha própria voz: O papel transformador da literatura e da internet

Como escritora de não-ficção e ficção (como no meu livro Danielle, Asperger), eu defendo fortemente que a literatura chega onde a ciência muitas vezes não alcança. Ela tem o poder de gerar uma empatia visceral e humanizada, nos tirando das caixinhas dos velhos estereótipos midiáticos.

Além disso, a comunicação digital tem um papel central nas minhas pesquisas e na minha vida. Eu costumo dizer que a internet fez pelas pessoas autistas o que a língua de sinais fez pela comunidade surda. Ela nos permitiu uma comunicação mais acessível e rastreável, e que, acima de tudo, respeita o nosso tempo interno de processamento.

Dupla empatia e inclusão de verdade: Desafios das mulheres autistas

Quando o assunto é derrubar muros na convivência social e no ambiente de trabalho, gosto de citar o conceito da “dupla empatia” do sociólogo Damian Milton. Ele quebra aquele mito terrível de que autistas não têm empatia. O que acontece, na verdade, é um ruído de comunicação, porque neurotípicos e neurodivergentes operam em frequências diferentes.

Para que a convivência funcione, precisamos do que chamo de “acessibilidade atitudinal”: abandonar os julgamentos precipitados e parar de enxergar nossas necessidades como se fossem “frescura”.

O veredito: O amor como categoria política

No bate-bola que encerrou a entrevista, tentei resumir minhas visões de forma bem direta. Se me pedem para definir a neurodiversidade, eu prefiro usar a palavra biodiversidade. Se me perguntam qual a maior potencialidade que um profissional autista leva ao mercado de trabalho, a resposta é inovação. E o maior mito que precisamos destruir é a ideia de que nós não gostamos de nos relacionar.

Para mim, a verdadeira inclusão é um processo humano e contínuo. Como resumi no final da nossa conversa: “A lei abre a porta, o afeto convida a entrar, mas é o amor que permite permanecer.”

Vídeo – “Desafios das mulheres autistas”

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Jornalista, escritora, apresentadora, pesquisadora, 24 anos, diagnosticada autista aos 11, autora de oito livros, mantém o site O Mundo Autista no portal UAI e o canal do YouTube Mundo Autista.

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