30 de abril de 2026

Tempo de Leitura: 3 minutos

Ontem, fiz a primeira palestra dentre as que fui convidada para abril de 2026, como youtuber do canal Mundo Autista. Após um período de afastamento consciente da comunidade e da criação de conteúdo sobre autismo, sinto que é bom estar de volta. Esse distanciamento, contudo, foi necessário. Nos últimos anos, observamos com mais ênfase como interesses econômicos e políticos invadiram a pauta autista. O que, infelizmente, não é novidade. No entanto, o que mais me assustou foi o surgimento de uma agressividade disfarçada. As pessoas encontraram maneiras mais sofisticadas de reclamar, invalidar e desqualificar as perspectivas alheias.

Ainda assim, estar presente em eventos e promover o diálogo é fundamental. Há muito o que ser dito, e ainda mais a ser descoberto.

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A riqueza interior e a dignidade humana

Neste evento de ontem, organizado pela antropóloga Daniela Feriani, tive o privilégio de ouvir a história do João, contada por sua mãe, Helen. Ele é um autista nível 3 de suporte. E relatos como o dele nos lembram de que existe uma riqueza interior imensa que, muitas vezes, não conseguimos expressar do jeito convencional. Mas a ausência de uma expressão normativa não significa que essa riqueza não exista. Cada vida é única e carrega consigo uma dignidade singular que deve ser respeitada.

Todo ser humano tem o seu potencial e pode explorá-lo ao máximo, desde que receba o suporte adequado de quem está ao redor e de toda a sociedade.

Além do “Asperger”: A verdade sobre os níveis de suporte

Estou na comunidade do autismo, na prática, desde que nasci, mas oficialmente desde 2008, quando recebi o diagnóstico aos 11 anos. Hoje, aos 29, vejo o quanto nossa compreensão evoluiu. Naquela época, o termo utilizado para casos como o meu era “Síndrome de Asperger”. Com o tempo, as minhas condições coexistentes e as minhas vivências provaram que o Asperger não é, de forma alguma, um sinônimo exato para o que chamamos hoje de Autismo de Nível 1 de suporte.

Sempre acreditei que eu fosse Nível 1. De fato, minha comunicação e meu Quociente de Inteligência (QI) verbal são muito altos. Faço parte daquela pequena porcentagem da população com facilidade extrema para a linguagem. Porém, há uma assimetria gritante: nas atividades de vida diária e na resolução de problemas práticos, minha pontuação cai drasticamente.

A realidade prática disso é que meu dia a dia é extenuante. Eu demando um suporte muito forte. Portanto, manifesto um autismo de Nível 2 de suporte no dia a dia, embora minha habilidade social camufle isso, me aproximando do Nível 1. E é urgente que a gente comece a ler as entrelinhas nos diagnósticos.

A sobrevivência na academia e o colapso do meu mundo autista

Sempre tive fascínio por estudar as nuances do autismo, principalmente em mulheres. Antes mesmo de virar algo comum, eu já trazia recortes de classe, etnia e gênero para as minhas pesquisas E focava, especialmente, no autismo no feminino. Isso rendeu muitos frutos, incluindo a publicação de 10 livros, mas o caminho cobrou seu preço.

Fiz meu mestrado na UFMG. Nessa instituição, enfrentei um ambiente pouquíssimo acessível, onde cheguei receber ofensas. Depois, mudei-me para Pelotas, no Rio Grande do Sul, para cursar o doutorado em Literatura, orientada pelo fantástico Gustavo Ruckert, que também é autista. Apesar do bom ambiente acadêmico lá, a dificuldade com as demandas diárias me fez adoecer gravemente.

Cheguei, portanto, ao meu limite. Às vezes, ficava o dia inteiro paralisada na cama, em estado de shutdown, com incontinência urinária, sem conseguir levantar. Como eu disfarçava bem no convívio social (masking), ninguém percebeu a gravidade. Apenas quando fui para Belo Horizonte minha mãe notou minhas roupas encharcadas. E olha que ela é a mãe mais atenta que eu conheço. O saldo desse colapso foi um diagnóstico de insuficiência cardíaca e a descoberta de que eu estava tomando medicamentos para TDAH acima da dose suportada pelo meu corpo. Tudo isso porque precisava dar conta do doutorado e do mercado de trabalho, onde era muito cobrada. Foi a minha mãe quem me salvou.

O novo mundo autista e a resposta ao trauma

A minha relação com a minha mãe é o meu maior alicerce. Ela, que foi diagnosticada autista há 10 anos, na curva dos 50, é minha grande parceira. Nós vivemos uma verdadeira dinâmica de mestre e discípulo que não é linear. Assim, ora eu aprendo com ela, ora ela aprende comigo.

Hoje, o canal Mundo Autista conta com mais de 80 mil seguidores e está passando por uma espécie de rebranding. Estamos abrindo espaço para falar da minha verdadeira paixão: a crítica de cinema e a crítica cultural. Claro que o autismo continuará inserido nesse contexto, pois essa “visão de mundo autista” é inseparável de quem eu sou.

Depois de tudo o que passei, carrego uma lição fundamental: a melhor resposta para o trauma é focar na esperança e cultivar outras paixões na vida. E é exatamente isso que estamos construindo agora.

(Originalmente publicado em O Mundo Autista, no portal UAI)

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Jornalista, escritora, apresentadora, pesquisadora, 24 anos, diagnosticada autista aos 11, autora de oito livros, mantém o site O Mundo Autista no portal UAI e o canal do YouTube Mundo Autista.

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