1 de março de 2026

Tempo de Leitura: 5 minutos

A convergência entre a pandemia e as atualizações na NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) — que passou a exigir o gerenciamento de riscos psicossociais no trabalho — gerou uma mudança profunda na comunidade autista. Se, por um lado, as empresas agora olham com mais atenção para a saúde mental, por outro lado, a pandemia intensificou uma resistência em parte do setor psiquiátrico no diagnóstico de adultos.

O receio gira em torno do aumento expressivo de laudos emitidos nos últimos anos. A resistência é tamanha que nossa reportagem encontrou dois casos de psiquiatras autistas que enfrentaram ceticismo dos próprios colegas antes de obterem seus diagnósticos. Por questões profissionais, ambos optaram pelo anonimato.

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A complexidade do diagnóstico tardio

Mas, afinal, por que diagnosticar o TEA em adultos ainda é um tabu? A Dra. Giovana Mol, psiquiatra e mestre em neurociências à frente da Clínica Allere Vita, explica que o cenário pós-pandemia é ambivalente: “A pandemia permitiu que muitos autistas se acomodassem ao isolamento, mas a retomada do contato social trouxe um aumento significativo do sofrimento.”, observa.

Ela pontua que a atualização do DSM-5 em 2013 foi o divisor de águas, detalhando melhor o “mascaramento” (masking) e as nuances do transtorno, o que aumentou a precisão clínica. Atualmente, psiquiatras, psicólogos e neurologistas formam o tripé diagnóstico. Mas, a Dra. Giovana faz um alerta: a familiaridade com o Nível 1 de Suporte é essencial, já que os sintomas podem ser sutis e altamente camuflados.

Não é epidemia, é ciência

A Dra. Annelise Júlio-Costa, psicóloga e presidente da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia (SBN), reitera que o aumento nos números não trata de um surto de autismo, mas de uma melhoria na aferição técnica.

  • Refinamento: Antes, o autismo era frequentemente confundido com deficiência intelectual.
  • Descritores: Hoje, existem critérios muito mais claros para o perfil de suporte nível 1.
  • Impacto pandêmico: O isolamento e a quebra de rotina escancararam características que sempre estiveram lá. “O autismo não é apenas um perfil de personalidade”, enfatiza Annelise.

O custo da invisibilidade

Um dos maiores obstáculos ainda é o acesso. A avaliação neuropsicológica é um processo detalhado, demorado e de alta complexidade. Por ser considerada um “exame complementar”, raramente possui cobertura integral pelos planos de saúde e é escassa no SUS, o que torna o diagnóstico, muitas vezes, um privilégio elitizado. Contudo, a avaliação, embora não seja obrigatória, é essencial em casos sutis.

A psiquiatra Giovana Mol cita como reação comum ao diagnóstico, a tristeza pelas situações sofridas devido ao transtorno e não cuidadas adequadamente, à época, bem como o alívio pela percepção de que a pessoa não deve se sentir culpada por tudo isso, como ela acreditava ser. Na área da psicologia, a neuropsicóloga Annelise destaca que as implicações do diagnóstico na vida adulta variam conforme o perfil dentro do TEA. Nos casos de autistas dos níveis 2 e 3, o diagnóstico correto, diferenciando o autismo da deficiência intelectual (que são déficits distintos), permite orientar melhor o suporte e planejar a autonomia possível para aquela pessoa. Para autistas com nível de suporte 1, “o diagnóstico traz justiça ao validar esse sofrimento invisível e oferece autoconhecimento, direcionamento de Intervenção para adaptar a terapia à estrutura autista”.

Vozes do espectro: o despertar em diferentes fases

Para muitos, a suspeita não vem de um consultório, mas da identificação com o outro.

O Professor: Gustavo Henrique Rückert (37), docente na UFPel, casado e sem filhos, descobriu-se autista aos 32 anos. Assistiu a uma palestra de um colega de trabalho, autista, e se identificou instantaneamente. Passou, então, a estudar tudo sobre o assunto.  A maior dificuldade, contudo, foi encontrar um médico qualificado e com conhecimento sobre autismo. A maior parte dos psiquiatras, segundo o professor, dizia simplesmente não ter interesse pelo assunto e que preferia focar em outras condições coexistentes com o TEA. Ao finalmente encontrar uma psiquiatra especialista, o diagnóstico foi rapidamente fechado.  O professor doutor explica: “Com o diagnóstico, passei a entender o porquê de muitas reações e comportamentos a ambientes e situações que me eram hostis e eu nem percebia.” Poeta com livros publicados e professor universitário, Gustavo, mesmo assim, confessa que o principal medo é o de não ter autonomia (seja emocional, psicológica ou financeira). Talvez por isso, tenha optado por tornar público o diagnóstico: “Atuo na docência, portanto achei que seria importante que a sociedade pudesse rever alguns estereótipos e perceber que autistas também podem ser professores ou qualquer outra coisa, inclusive utilizando a comunicação como instrumento de trabalho.

A Mentora: Kátia Lima (39), empresária e terapeuta de PNL, teve seu estalo ao ouvir sobre a “bateria social” dos autistas em palestra da jornalista Sophia Mendonça. Curiosamente, ao buscar ajuda, descobriu que sua psiquiatra (que havia sido sua aluna) já suspeitava: “Parece que todo mundo sabia, menos eu”, conta com bom humor. Ela se julga uma pessoa de sorte com a área que escolheu para trabalhar: “A Programação Neurolinguística tem várias ferramentas de comunicação, de relacionamento. Dar aula foi uma coisa que me ajudou muito a lidar com pessoas. A PNL tem passo 1, passo 2, passo 3 de coisas concretas para você fazer e que realmente ajudam”. 

A Gestora: Em 2020, a gerente de projetos, Darleise Cássia de Oliveira começou a suspeitar de sua condição, após conversar com uma amiga autista. Passou a estudar o assunto e a entender o autismo nível 1 de suporte e a seguir várias mulheres autistas pelo Instagram. O mascaramento e a supressão do sentir, querer e pensar dificultaram a conclusão do diagnóstico, mas a psiquiatra era muito experiente e conseguiu fechá-lo, depois de separar as condições coexistentes, como ansiedade, altas habilidades e hipervigilância, estresse pós-traumático, entre outras. 

A Personal Trainer: Ana Carolina Oliveira (36) recebeu a confirmação no final de 2025. As suspeitas começaram com a pedagoga e ex-esposa. Mas a personal não levava muito a sério. Até que, no final de 2025, conheceu, pelo Instagram, a Fundação Dom Bosco em Belo Horizonte. Depois de algumas avaliações realizadas por neuropsicólogas, a confirmação veio de forma objetiva e conclusiva. Ana Carolina lamenta que até o mês de janeiro ainda não tenha encontrado um psiquiatra especialista em TEA, principalmente para tratamento da ansiedade desenvolvida em função do esforço da camuflagem social. Ela foi diagnosticada também com altas habilidades e superdotação — coexistentes com o autismo. Ana Carolina conta que ainda não se acostumou com o fato de ser uma PCD – Pessoa com Deficiência. Principalmente, para fazer valer os direitos que possui, garantidos por lei. Por isso, resolveu usar o cordão de reconhecimento do autismo: “Eu acho que a ficha está caindo lentamente. Tem pouco tempo que eu descobri, mas ainda tenho muita dúvida. Não sei como será daqui para frente, mas acredito que cada vez mais vou trabalhar para normalizar esse diagnóstico na minha vida como mais uma das minhas características”.

O papel da validação

Para quem recebe o diagnóstico tardio, o sentimento costuma ser uma mistura de luto pelo tempo sem suporte e alívio pela absolvição da culpa. Como definem as especialistas Giovana e Annelise, o diagnóstico para o Nível 1 traz, acima de tudo, justiça. Validar esse sofrimento invisível permite que a pessoa pare de tentar se encaixar em moldes neurotípicos e comece a viver com a estrutura que realmente possui. E as especialistas reforçam: “o apoio familiar é fundamental”.

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Jornalista e relações públicas, diagnosticada com autismo, autora dos livros "Minha Vida de Trás pra Frente", "Dez Anos Depois", "Camaleônicos" e "Autismo no Feminino", mantém o site "O Mundo Autista" no Portal UAI e o canal do YouTube "Mundo Autista".

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