10 de março de 2026

Tempo de Leitura: 3 minutos

A recente entrevista da renomada psicóloga Uta Frith ao site TES – uma revista semanal anteriormente vinculada ao jornal The Times – desencadeou forte reação entre comunidades autistas ao redor do mundo desde sua publicação, em 4 de março passado.

Na conversa, Frith afirma não acreditar mais que o autismo seja um espectro, alegando que o conceito teria se expandido a ponto de “colapsar”. A cientista alemã se refere especialmente ao aumento de diagnósticos em adultos com pouca necessidade de suporte, conhecidos como autistas de nível 1.

Publicidade
Matraquinha

Professora emérita em Desenvolvimento Cognitivo no Instituto de Neurociência Cognitiva da Universidade de Londres (UCL) e pioneira em pesquisas que moldaram o entendimento contemporâneo do autismo, Frith surpreendeu pessoas autistas que, por décadas, se sentiram reconhecidos pelo seu trabalho. Entre elas está o ativista britânico, Brian Bird, participante do documentário ´Living with Autism´(BBC Horizon, 2014), idealizado por Frith, para abordar o diagnóstico tardio em autistas adultos.

“O documentário foi muito bem-feito e amplificou diversas vozes autistas. Uta o criou para mostrar à sociedade como o espectro é diverso”, afirma Brian. “Ler essa entrevista hoje me entristece. Ela parece contradizer seu próprio trabalho e pesquisas anteriores.”

Critérios alargados

Durante a entrevista, a cientista demonstra preocupação com o aumento de diagnósticos de pessoas adultas de nível 1 de suporte. Segundo Frith, apesar da definição básica de autismo permanecer a mesma através dos anos – uma condição do neurodesenvolvimento ao longo da vida que apresenta dificuldades na comunicação social e comportamento restrito – a interpretação dessa definição traz uma abordagem distinta daquela que a sociedade tornou como “inclusiva”.

“Nós (a sociedade) alargamos o critério para incluir os casos menos típicos, assim, houve espaço para a ideia de o autismo não ser uma simples categoria, mas um espectro. Porém, isso é muito difícil, pois o que seria notável dentro de um espectro imenso onde todos pertencemos? Todos nós somos neurodiversos, temos cérebros diferentes. Mas isso torna um diagnóstico médico completamente sem sentido”, afirma Frith.

Contradizendo anteriores afirmações, acumuladas em décadas de estudos sobre autismo quando desenvolveu a Teoria da Coerência Central Fraca e cooperou com o cientista Simon Baron-Cohen em artigos sobre a Teoria da Mente, Frith afirma não mais haver um elemento comum capaz de unir todas as manifestações do autismo dentro de um único espectro. Vai além: sugere que pessoas sem deficiência intelectual não deveriam ser consideradas autistas, mas “hipersensíveis”, e minimiza o conceito de masking, alegando que se trata de um comportamento universal, não específico de autistas.

Entre as declarações mais polêmicas, Frith defende que apenas pessoas autistas com deficiência intelectual – classificadas como nível 3 de suporte – deveriam receber o diagnóstico.

Reação da comunidade autista

As declarações foram recebidas como um retrocesso por ativistas e pessoas diagnosticadas tardiamente. Para muitos, as falas de Frith deslegitimam experiências reais e ameaçam conquistas recentes em direitos, reconhecimento e acesso a suporte.

Autistas de nível 1 têm se manifestado em blogs e redes sociais, expressando indignação. Alguns apontam que a entrevista coincide com o lançamento do novo livro da psicóloga, levantando suspeitas de que a controvérsia possa ter sido intencional para promover a obra.

Neurodiversidade em risco?

Para defensores da neurodiversidade, a mudança de posicionamento de uma das furas mais influentes do campo representa um risco significativo. Caso sua visão ganhe força acadêmica, milhares de pessoas que encontraram no diagnóstico uma explicação para desafios vividos ao longo da vida podem voltar à invisibilidade.

A neurodiversidade, destacam ativistas. não é apenas um conceito inclusivo, mas uma ferramenta de identificação e validação para mentes divergentes que buscam compreensão e suporte – não exclusão.

O que acontece com quem fica sem nome?

A polêmica reacende uma questão central: como classificar adultos sem deficiência intelectual cujas dificuldades sociais, sensoriais e comportamentais são reais, embora menos visíveis?

Eliminar o termo “autismo” para esse grupo não elimina seus desafios. Pelo contrário, pode comprometer o acesso a direitos, adaptações e tratamentos que hoje dependem do diagnóstico formal.

Além do impacto emocional, há implicações legais importantes. Para muitos autistas de nível 1, o reconhecimento clínico tem sido a base para reivindicar suporte e garantir qualidade de vida.

(Originalmente publicado no portal Autimates)

COMPARTILHAR:

Jornalista, mãe de um autista adulto, radicada na Holanda desde 1985, escritora — autora do livro Caminhos do Espectro (lançado no Brasil em dezembro de 2021) —, especialista em autismo & desenvolvimento e autismo & comunicação, além de ativista internacional pela causa do autismo.

STJ avalia cobertura de musicoterapia para autistas por planos de saúde

Publicidade
Assine a Revista Autismo
Assine aqui a nossa Newsletter grátis
Clique aqui se você tem DISLEXIA (saiba mais aqui)