25 de fevereiro de 2026

Tempo de Leitura: 3 minutos

Por Elyse Matos & Tatiana Takeda

Em setembro de 2025, a cidade de Dublin (Irlanda) foi palco do 14th Autism-Europe International Congress, um dos mais relevantes encontros internacionais dedicados ao autismo.

O evento reuniu pesquisadores, profissionais, pessoas autistas, familiares e formuladores de políticas públicas de inclusão de dezenas de países, sob o tema “Quality of Life – Research, Policy and Practice” (Qualidade de Vida – Pesquisa, Política e Prática).

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Acompanhadas da também brasileira Márcia Loss (fonoaudióloga), tivemos uma experiência profundamente enriquecedora nas áreas científica, humana e política, além da oportunidade de conferir como os europeus têm refletido e agido com relação às demandas que envolvem as pessoas autistas.

1. Autonomia como eixo da qualidade de vida

O Congresso reforçou uma compreensão contemporânea e madura de autonomia. Não se trata apenas de independência funcional, mas de capacidade de escolha significativa, acesso a apoios adequados e direito à participação ativa nas decisões que impactam a própria vida.

As diversas apresentações evidenciaram que qualidade de vida não pode ser dissociada de políticas públicas inclusivas, educação acessível, trabalho digno, suporte em saúde mental e reconhecimento da identidade autista. Autonomia, nesse contexto, é direito humano e, também, construção coletiva.

2. Encantamento intelectual: Peter Vermeulen

Entre as palestras que mais nos marcaram esteve a de Peter Vermeulen, PhD, psicólogo clínico belga, reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre autismo e processamento contextual da informação. Fundador do centro Autism in Context e autor de obras amplamente traduzidas, Vermeulen é referência na compreensão do pensamento autista a partir da teoria da “cegueira ao contexto” (context blindness).

Sua abordagem nos provocou a refletir sobre como muitas dificuldades atribuídas à pessoa autista, na verdade, decorrem de falhas ambientais na oferta de contexto claro, previsibilidade e mediação adequada. Em outras palavras: promover autonomia exige ambientes que façam sentido. Não se trata de “treinar” a pessoa para o mundo, mas de tornar o mundo mais compreensível e responsivo.

3. Autoafirmação e saúde: Mary Doherty

Também nos impactou profundamente a palestra de Mary Doherty, médica irlandesa, autista, ativista e fundadora da organização Autistic Doctors International. Dra. Doherty é reconhecida internacionalmente por seu trabalho na promoção de ambientes de saúde acessíveis para pessoas autistas e por sua defesa da inclusão de profissionais autistas na medicina.

A palestra e as moderações de Dra. Doherty trouxeram uma dimensão essencial ao debate: não há qualidade de vida sem respeito à identidade. Ela destacou como sistemas de saúde frequentemente falham por não reconhecer diferenças sensoriais, comunicacionais e cognitivas. A autoafirmação, qual seja a possibilidade de se reconhecer e ser reconhecido como pessoa autista, é componente fundamental do bem-estar e da autonomia.

A trajetória desta estudiosa, aliando excelência técnica, vivência pessoal e ativismo ético, é exemplo concreto de como a autonomia floresce quando há espaço para autenticidade.

4. Autonomia, bem-estar e o Brasil

Ao dialogarmos com pesquisadores e profissionais de diferentes países, bem como com os expositores, ficou evidente que a discussão sobre autonomia ultrapassa fronteiras. Trata-se de uma agenda global, mas que exige respostas locais, sensíveis às realidades culturais e jurídicas de cada país.

Para nós, brasileiras comprometidas com práticas inclusivas e fundamentadas em evidências, o Congresso reafirmou a importância de construir, no Brasil, políticas e serviços que: reconheçam a pessoa autista como sujeito de direitos; promovam participação ativa em decisões educacionais, clínicas e sociais; valorizem a interdependência como parte saudável da experiência humana; garantam ambientes compreensíveis, previsíveis e respeitosos.

5. Um diálogo direto com a Revista Autismo

A escolha do tema Autonomia se constrói com apoio para a campanha 2026 do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, pela Revista Autismo, se alinha perfeitamente às discussões vivenciadas em Dublin. Autonomia não é isolamento, nem ausência de apoio. É ter escolhas reais, com suporte adequado, voz ativa e reconhecimento identitário.

Se quisermos falar seriamente sobre qualidade de vida, precisamos falar sobre autonomia com responsabilidade científica, compromisso ético e escuta verdadeira das pessoas autistas.

O que vivenciamos no Autism-Europe Congress 2025 não foi apenas atualização acadêmica e profissional. Tratou-se de um convite à transformação de práticas, de políticas e, sobretudo, de mentalidades.

Por fim, deixamos destacada a necessidade de ampliarmos essa conversa no Brasil, fortalecendo uma cultura de respeito, evidência científica e protagonismo autista. Por um simples motivo: autonomia não é um privilégio e, sim, um direito.

Elyse Matos é advogada, mestre em direito francês, europeu e do comércio internacional pela Sorbonne Université (Paris II), certificada em empreendedorismo e inovação pela Stanford University, mestre e doutoranda em educação na UFPR, fundadora do Instituto Ico Project, responsável por trazer ao Brasil o programa de treinamento de pais (CST) da OMS e Autism Speaks desde 2018.  Site: icoproject.com.br; Instagram: @institutoico e @icoproject.

Tatiana Takeda é advogada consultiva, professora universitária (direitos da pessoa com deficiência), membro de comissões de defesa dos direitos da pessoa com deficiência desde 2016 e autora/coautora/colaboradora de livros, cartilhas e artigos científicos sobre os direitos da pessoa com deficiência.  Instagram: @tatianatakedaoficial.

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