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Nos últimos dez anos, o número de alunos com transtorno do espectro autista matriculados nas escolas brasileiras cresceu de forma exponencial. Em 2015, eram pouco mais de 40 mil estudantes. Em 2024, esse número ultrapassou 880 mil, segundo dados do Censo Escolar divulgados pelo Ministério da Educação. Apenas entre 2023 e 2024, o crescimento foi de 44,4%, chegando a cerca de 920 mil alunos na educação básica.
Os números ajudam a entender por que a inclusão deixou de ser uma pauta pontual para se tornar parte central da rotina escolar. Hoje, mais de 90% dos alunos com autismo estão matriculados em classes comuns, em escolas regulares. Isso significa que a inclusão não acontece mais em espaços paralelos ou excepcionais: ela acontece todos os dias, dentro da sala de aula, no planejamento pedagógico, na relação com as famílias e na organização da escola como um todo
Esse avanço representa uma conquista importante do ponto de vista do acesso à educação. Ao mesmo tempo, ele escancara um desafio que muitas escolas e famílias têm vivido na prática: a matrícula acontece, mas o preparo nem sempre acompanha na mesma velocidade. E é justamente nesse intervalo entre o que a lei garante e o que a escola consegue oferecer que surgem tensões, frustrações e conflitos.
A chegada cada vez maior de alunos com autismo às escolas não traz apenas novos desafios pedagógicos. Ela transforma a dinâmica da instituição como um todo. Professores precisam lidar com demandas para as quais nem sempre foram formados. Gestores se veem diante de expectativas elevadas, muitas vezes sem o suporte técnico necessário. Famílias, por sua vez, chegam à escola carregando esperança, receio e, não raro, experiências anteriores de exclusão.
Nesse cenário, é comum que surja um desencontro de expectativas. Para muitas famílias, a inclusão representa a promessa de que o filho será acolhido, respeitado e terá garantidas as condições para aprender e se desenvolver. Para a escola, a inclusão passa a ser mais uma responsabilidade somada a tantas outras, em um cotidiano já marcado por turmas cheias, múltiplas demandas e limitações estruturais. Quando essas expectativas não são alinhadas desde o início, o que deveria ser um processo de construção conjunta acaba se tornando fonte de tensão.
É nesse ponto que surgem conflitos que vão muito além da sala de aula. Reclamações, desgastes na relação entre escola e família e, em alguns casos, a judicialização da inclusão. Embora muitas vezes o debate se concentre na lei, a experiência prática mostra que esses conflitos raramente nascem da falta de normas. Eles surgem, quase sempre, da ausência de organização, diálogo e clareza sobre como a inclusão será vivida no dia a dia escolar.
A boa vontade, por si só, não sustenta um processo de inclusão. Professores comprometidos, famílias participativas e gestores sensíveis são fundamentais, mas insuficientes quando não há uma estrutura que dê suporte a essas relações. Inclusão exige planejamento, definição de responsabilidades, fluxos claros de comunicação e estratégias que façam sentido para a realidade concreta da escola. Sem isso, o improviso se instala — e o improviso tende a gerar insegurança, frustração e sobrecarga para todos os envolvidos.
Na prática, escolas que conseguem avançar na inclusão são aquelas que entendem que ela não se resolve em ações isoladas ou respostas emergenciais. Elas investem em organização da rotina, em protocolos que orientam decisões do cotidiano, em espaços de escuta para professores e famílias e em ajustes contínuos, conforme a realidade da turma e do aluno. Não se trata de fórmulas prontas, mas de processos vivos, construídos coletivamente.
Entre a lei e a realidade escolar, existe um caminho possível — e necessário — que passa pela prática. A legislação estabelece direitos e diretrizes importantes, mas é no cotidiano da escola que a inclusão ganha forma. Quando esse cotidiano é pensado com intencionalidade, clareza e diálogo, a inclusão deixa de ser um campo permanente de conflito e passa a ser um processo possível, ainda que desafiador.
Falar em inclusão na prática é reconhecer que ela não é simples, nem linear. É admitir limites, ajustar rotas e construir soluções a partir da realidade concreta de cada escola. Mais do que cumprir normas, incluir é criar condições para que alunos, professores, famílias e gestores possam caminhar juntos, com menos improviso e mais segurança. É nesse espaço — entre a lei e a vida real da escola — que a inclusão deixa de ser apenas um ideal e começa, de fato, a acontecer.
Gustavo Barbosa Camargo é advogado especialista em Direito Educacional. Mestrando em Direitos Fundamentais do Centro Universitátio Autonômo do Brasil – UniBrasil. Pós-Graduado em Advocacia Digital e Proteção de Dados pelo UNICURITIBA. Pós-Graduado em DPO e Gestão Empresarial pela Universidade Positivo. Pós-Graduado em Inclusão e Direitos da Pessoa com Deficiência pelo CBI of Miami. Especialista em Contratos Empresariais.
Jaqueline Pavloski Barbosa Tosin é advogada. Pós-Graduada em Perícia Criminal.
Sabrina Muggiati





