28 de dezembro de 2025

Tempo de Leitura: 3 minutos

O autismo sempre despertou perguntas sobre suas origens. De vacinas a medicamentos, muitos mitos foram criados ao longo do tempo. Mas o que a ciência realmente sabe sobre as causas do transtorno do espectro do autismo (TEA)? Neste artigo, revisamos as principais evidências e desmistificamos concepções equivocadas.

O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta cerca de 1 em cada 31 crianças de 8 anos, segundo estimativas mais recentes do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças do, governo dos EUA); no Brasil, temos diagnóstico de 1 em cada 38 crianças de 5 a 9 anos, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgado em 2025. Apesar de décadas de pesquisa, suas causas ainda são cercadas de dúvidas e, muitas vezes, de desinformação.

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Da ideia já superada de que vacinas causariam autismo até as recentes discussões sobre o paracetamol na gestação, a sociedade busca respostas simples para um fenômeno que é, na verdade, complexo e multifatorial.

Mitos que persistem

Vacinas: já amplamente refutado. Grandes estudos com milhões de crianças demonstraram nenhuma associação entre vacinas (como a tríplice viral) e autismo.

Estilo parental (“mães-geladeira”): uma ideia ultrapassada da psiquiatria do século 20, sem qualquer embasamento científico, mas que causou estigma e culpa a muitas famílias.

Medicamentos isolados na gestação: como no caso recente do paracetamol, associações observacionais são frequentemente divulgadas, mas os estudos mais robustos não sustentam causalidade.

O que a ciência já sabe

Hoje, há consenso de que o autismo é resultado de uma combinação de fatores genéticos e ambientais, que interagem de forma complexa.

Estudos com gêmeos mostram que a herança genética responde por 60–80% do risco. Um grande estudo de 2019, feito com mais de 2 milhões de indivíduos, em 5 países diferentes, apontou para um risco genético 97% a 99% (sendo 81% hereditário) e 1% a 3% de risco ambiental (relacionado ao ambiente intrauterino).

Há centenas de genes associados ao espectro, mas nenhum isoladamente é determinante. Variantes genéticas raras, mutações “de novo” (nome dado a mutações genéticas não herdadas) e herança poligênica contribuem de diferentes maneiras.

A prática clínica confirma

Na prática clínica cotidiana, é muito comum que o diagnóstico de um paciente leve à descoberta de outros casos na família. Muitas vezes, ao avaliar uma criança, identificam-se também sinais claros em seus pais, irmãos ou até avós, que antes haviam passado despercebidos.

Esse padrão de agregação familiar reforça o que já demonstram os grandes estudos populacionais: ter um parente de primeiro grau com TEA aumenta várias vezes a chance de outro diagnóstico.

Ou seja, além das pesquisas científicas, a própria experiência clínica mostra que o autismo possui uma forte base genética, que atravessa gerações.

Ambiente

Durante a gestação: idade avançada dos pais (principalmente paterna), prematuridade, baixo peso ao nascer, uso de ácido valpróico durante a gestação, infecções maternas e complicações obstétricas estão associados a maior risco.

Exposições ambientais: ainda em estudo, incluem poluentes, alguns medicamentos específicos e condições inflamatórias, mas sempre como fatores moduladores, não como causa única.

Desenvolvimento cerebral

Evidências de alterações precoces na conectividade neural e no equilíbrio entre excitação e inibição no cérebro ajudam a explicar os sintomas do espectro.

Isso fortalece a ideia de que o TEA é uma variação do desenvolvimento neurológico, e não uma doença adquirida posteriormente.

O que não causa autismo

É igualmente importante afirmar o que a ciência já descartou:

  • vacinas não causam autismo;
  • paracetamol, quando analisado com rigor científico, não demonstrou relação causal;
  • educação ou estilo parental não são causas.

Reforçar essas conclusões é fundamental para reduzir estigmas e apoiar famílias.

Por que não existe uma única causa?

A ciência cada vez mais demonstra que o TEA não parece ser resultado de um único gatilho. Em vez disso, deve ser entendido como um padrão de interação entre fatores genéticos e ambientais, que podem ou não se expressar dependendo do contexto.

Assim como na hipertensão ou no diabetes, falamos de risco aumentado, e não de causa direta.

Complexidade

O autismo é uma condição complexa, multifatorial e profundamente humana.

Hoje sabemos que sua origem está na interação entre genética e ambiente, mas não em causas isoladas ou simplistas.

Na clínica, isso se traduz em algo prático: ao diagnosticar uma pessoa, muitas vezes diagnosticamos também seus familiares, o que corrobora a noção de que o TEA se transmite de forma marcante nas famílias.

Abandonar os mitos e abraçar o conhecimento científico é fundamental não apenas para compreender o espectro, mas também para reduzir culpas, combater preconceitos e oferecer às famílias um caminho de informação, apoio e acolhimento.

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Médico psiquiatra, com especialização em psiquiatra forense e psicoterapia.

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