29 de dezembro de 2025

Tempo de Leitura: 3 minutos

Alexitimia é um desses termos estranhos do qual nunca ouvimos falar e de repente ocupa diversos textos e vídeos com os quais nos deparamos. Costuma aparecer como uma das características mais comuns em pessoas autistas, e significa a dificuldade de identificar e nomear o que se está sentindo.

Isso se refere tanto ao que sentimos como necessidades fisiológicas básicas, como fome e sono, quanto a emoções complexas como angústia, raiva, frustração.

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Para compreender a alexitimia, é necessário entender como as emoções se desenvolvem. Vou me basear na psicologia histórico-cultural de Vigotski, embora o que vá apresentar também seja coerente com as descobertas mais recentes das neurociências.

O primeiro ponto é que as emoções e os sentimentos não são inatos e estáticos, não estão ligados a um aspecto biológico específico, a uma única parte pré-determinada do cérebro. Elas são construídas ao longo de toda a vida, transformando-se conforme nossas experiências. Mesmo aquelas que surgem assim que nascemos, podem se transformar ao longo dos anos: o medo de altura é um dos únicos medos que parecem ser inatos na espécie humana, mas em um avião você pode encontrar tanto pessoas que ficam tranquilas e relaxadas ao olharem pela janela, quanto pessoas que sentem ataques de pânico e só conseguem viajar sob efeito de medicamentos.

Então, o que é necessário para aprendermos a identificar nossas emoções? Pensem nas crianças pequenas: em um primeiro momento, toda sensação é aterrorizante, uma confusão de sensações com as quais ela não sabe lidar. É na convivência com as pessoas ao seu redor que ela passa a fazer ligações entre essas sensações; é porque a alimentam quando chora que ela passa a entender o que é fome. A palavra tem um papel fundamental: falamos do que sentimos, e a criança aprende a nomear suas emoções porque primeiro nomearam essas emoções para ela. Dizemos “você está assim porque está com fome, venha comer que você vai se sentir melhor”. Quando nomeamos o que sentimos, nos fortalecemos, porque passamos a ter a possibilidade de construir ferramentas para lidar com esses sentimentos: aprendemos que quando nos sentimos de tal maneira, a forma mais efetiva de lidar com a situação é comer. Ou dormir. Ou escrever em um diário. Ou sair para caminhar.

E por que esse processo parece ocorrer com dificuldade em pessoas autistas? Bom, há diversos fatores que colaboram para que isso aconteça. Em primeiro lugar, a pessoa autista tem uma forma diferente de prestar atenção no mundo: ela costuma ter uma atenção profunda em um único foco específico, o que a leva a passar longos períodos sem dar atenção aos diversos estímulos de seu próprio corpo, apenas percebendo que precisa ir ao banheiro ou se alimentar quando já se encontra em uma situação crítica. É necessário que a pessoa autista entenda isso e encontre uma forma de prestar atenção no próprio corpo em momentos de transição.

O segundo maior fator é que pouco se conversa com pessoas autistas sobre o que ela está sentindo, e muitas vezes sentimos o mundo de formas muito mais intensas do que as pessoas ao nosso redor. É necessário que as pessoas ao redor tenham a paciência de ouvir, de refletir, de investigar o que a pessoa autista sente. Quando sinto fome por um período superior a uma hora, a fome desaparece da minha barriga e se instala na minha cabeça, o que me deixa profundamente irritada e incapaz de me concentrar. Sou profundamente sensível a sons, inclusive à fala humana, e ouvir a mastigação alheia pode me causar uma irritação tão profunda ao ponto de querer bater a cabeça na parede. Se nunca falamos, se nunca conversamos, se nunca contamos nossas histórias, essas sensações permanecem como um todo confuso, com o qual não conseguimos criar compreensões e ferramentas. A boa notícia é que isso significa que podemos desenvolver uma melhor compreensão sobre nossos sentimentos. A ruim é que hoje ainda é difícil encontrarmos o apoio de que necessitamos para que isso aconteça.

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é autista, ativista e mestre em Educação.

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