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Chantal Wiertz, semifinalista do Miss Universo, desconstrói pré-conceitos sobre o autismo no feminino

Tempo de Leitura: 2 minutosA última edição do concurso Miss Universo, celebrada no domingo passado (16) teve entre as suas semifinalistas Chantal Wiertz, de 22 anos de idade, representante de Curaçao, que é autista e ativista pela causa do autismo. Mais uma vez, nos deparamos com a constatação de que existem autistas nas mais diversas esferas sociais. Mesmo com toda a discussão que ronda sobre um possível reforço da objetificação feminina em disputas de beleza, não há como negar os afetos mobilizados por termos uma representante da comunidade autista numa indústria que tem seu papel na legitimação de modelos a serem seguidos pelo feminino.

Com Chantal, diagnosticada com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) há um ano, eu vejo novamente a possibilidade de desmistificar um dos diversos pré-conceitos que contribuem para o atraso diagnóstico de mulheres autista: a ideia de que autistas não ligam para a aparência externa.  Uma vez, lembro-me de uma amiga também enquadrada ao TEA, uma ruiva de beleza muito expressiva, pontuar que o simples fato de ela se maquiar já era motivo para alguns colocarem a suspeita de autismo de lado. É certo que ser autista não remove a feminilidade (ou masculinidade) de ninguém, mesmo nos aspectos mais superficiais dessa construção do que é ter aparência de uma mulher, como traços físicos e até comportamentais. Assim, como a cobrança cultural com o feminino é diferenciada, é preciso uma atenção especial às sutilezas da manifestação do autismo no feminino.

Como mulher autista, eu me lembro que o primeiro exemplo midiático que tive de alguém com TEA foi a modelo Heather Kuzmich, participante da nona temporada do reality show estadunidense America’s Next Top Model. Quando o programa foi exibido, em 2007, eu ainda não havia sido diagnosticada, embora percebesse algumas características muito similares a ela, principalmente no que se refere a desafios de interação (“Você é a piada”, diziam algumas colegas quando ela não entendia algo) e baixa habilidade motora (apesar de ser a melhor da temporada com modelo fotográfica, Heather tinha sérios problemas quando precisava desfilar). Anos depois, ela foi uma peça fundamental para que eu compreendesse o laudo que me foi dado. Que Chantal, em sua ação de figura pública, também possa ajudar a amenizar o sofrimento de mais meninas e mulheres autistas.

Mãe Autista – três gerações de muito amor e determinação

Tempo de Leitura: 3 minutosNunca vou me cansar de homenagear minha mãe que, aos 25 anos, separou-se de meu pai, com 3 filhas de 5, 3 e 2 anos. Dali para a frente, seria uma trajetória impossível para aquela mulher vinda da “Vila dos Marmiteiros”, que ainda não havia terminado o Ensino Médio, em pleno ano de 1967. Mas ela não sabia que era impossível e, em 2006, se aposentou como Procuradora da Prefeitura de Belo Horizonte, com suas ‘meninas’ formadas em Engenharia Civil, Comunicação Social e Direito.

A verdade era que minha mãe não sabia de muita coisa e se atirou à descoberta de algumas e outras, simplesmente, se tornariam conhecidas, somente, muitos anos depois.  Minha família tinha muitas pessoas consideradas ‘esquisitas’ e a primeira pessoa ‘esquisita’ da família a receber o diagnóstico de autismo grau 1, foi minha filha, Sophia Mendonça. Há 4 anos foi minha vez e minha mãe, claramente com muitos traços dentro do espectro, resolveu que agora, o diagnóstico para ela, não faria a menor diferença.

Olhando para trás eu percebo como minha mãe foi singular e precisa para que eu sobrevivesse à falta de um diagnóstico. Talvez por ter passado por tanta coisa semelhante a mim, ela era ‘cirúrgica’ em suas explicações sobre o mundo e a vida. Mais tarde, eu me casei e, como havia feito com o casamento, determinei uma data apropriada para ter o primeiro filho. Fiquei desorganizada quando o momento chegou, mas não veio acompanhado de uma segurança para ser mãe.

Talvez, se não fosse o meu cérebro neurodivergente, eu não seria mãe. É que eu não me via como tal, não havia uma lógica a seguir para o preparo à maternidade e isso tudo me gerou muita insegurança. Deixei a data passar e não tive o filho programado para o ano de 1993. Mas algo continuava martelando em minha cabeça: minha geração acreditou que a regra era casar e ter filhos. Assim, sete anos após meu casamento, Sophia chegou.

Ainda bem, hoje sou melhor ser humano que era antes da maternidade. O que não significa que a maternidade seja um presente necessário à plenitude da mulher, algo que nos alçará à condição de ‘santas’, praticamente. Não, de jeito algum. A maternidade foi o maior desafio de minha vida que redundou num imenso aprendizado.

Eu nasci como mãe em 06 de fevereiro de 1997, o que me requereu muito estudo, observação, tentativas, erros e acertos. Graças a esse hiperfoco no desenvolvimento da criança, percebi sutilezas que passaram despercebidas ao pediatra. Aos 11 anos, veio o diagnóstico de Sophia de autista grau 1.

Com a vinda desse novo norte, o diagnóstico, eu passei transferi meu hiperfoco para o ‘autismo’. Meu universo se ampliou e eu descobri a neurodiversidade. Descobri que o mundo não se estreita a partir daí, ele se alarga. Filho é coisa séria e sua educação deve ser cercada do propósito de que ele seja um valor para a sociedade. Hoje admiro Sophia para além de ela ser minha filha.

Se houve sofrimentos? Claro, e muito. Ainda há. Acredito que se soubesse do meu autismo antes, quando Sophia era adolescente, eu não teria conseguido. Entrei em crise, muitas vezes, com ela. Desejei que eu e ela não existíssemos, procurei, obstinadamente, a lógica para essa diferença de codificação..

E descobri, pois “o inverno nunca falha em se tornar primavera”, e é o rigor do inverno que garante a plenitude da primavera. A filosofia budista de Nichiren explica o princípio da “cerejeira, ameixeira, pessegueiro e damasqueiro”. Essas árvores suportam o rigoroso frio do inverno e, quando a primavera se aproxima, cada qual a seu próprio tempo se enche de flores de beleza singular.

Hoje, eu sei que a diversidade dos seres humanos expressa a missão ímpar e as qualidades peculiares de cada um. A Dra. Elise Boulding (1920–2010), pioneira em pesquisas sobre a paz, defendia que um dos requisitos mais importantes para edificar a paz é ter o espírito de apreciar e celebrar a diferença e a diversidade, além de reconhecer que cada pessoa é única e preciosa. Um viva a todas as mães que, a seu jeito, procuram acertar na missão de educar e entregar valores humanos para a sociedade.

Confira esse bate-papo entre mãe e filha: