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Pré-venda do livro Autismo no Feminino é anunciada

Tempo de Leitura: < 1 minutoO livro Autismo no Feminino – A voz da mulher autista, organizado pelas jornalistas Sophia Mendonça e Selma Sueli Silva, está em pré-venda nas plataformas digitais. Com previsão de lançamento para março deste ano, a obra reúne artigos de mulheres ativistas e teóricas da comunidade do autismo no Brasil.

“Por muito tempo, a mulher foi ignorada nos estudos sobre o autismo. Agora, muitas estão saindo da invisibilidade para levar o assunto às redes sociais e à academia, promover palestras, pesquisar, criar empresas para difundir informações confiáveis. O ativismo dessas mulheres é consequência da constatação da falta de conhecimento e até da distorção sobre as características do autismo no feminino. Todas elas passaram por experiências cruéis rumo ao diagnóstico”, disseram as organizadoras.

Entre as autoras participantes da obra, estão a doutora em psicologia, pesquisadora e ativista Táhcita Mizael, a neuropsiquiatra Raquel Del Monde, a ativista Amanda Paschoal e a professora Geuvana P. Nogueira.

Vídeo exclusivo: Onda lança projeto para mulheres adultas com diagnóstico tardio de autismo

Tempo de Leitura: 2 minutosA associação Onda-Autismo (Organização Neurodiversa pelos Direitos dos Autistas) está lançando o projeto “TEApresentar Mulheres Autistas, Nós Existimos!”, voltado a apoiar autistas adultas com diagnóstico tardio, além de conscientizar adultos sobre a importância de buscar um diagnóstico. O projeto deverá se iniciar no próximo mês (fev.2022).

Num papo exclusivo — que você pode conferir em vídeo no nosso canal no Youtube —, conversei com as quatro mães autistas idealizadoras e coordenadoras desse novo projeto: Claudia Moraes, Francilene Vaz, Graziele Carvalho e Jeane Cerqueira. Você pode conferir toda a nossa conversa, que não foi só sobre o projeto, mas sobre o diagnóstico tardio de autismo de cada uma delas e sua jornada até o “laudo” (todas elas receberam seu diagnóstico no ano passado).

O objetivo do projeto é dar acolhimento, estimular o empreendedorismo e melhorar a autoestima das mulheres autistas adultas. “Este é um projeto para mulheres e mães, que têm muito menos acesso a diagnóstico. Queremos divulgar informações sobre o autismo feminino e como chegar e também como ficar bem após receber um laudo diagnóstico”, explicou Claudia Moraes, que está na vice-presidência da Onda-Autismo.

TEApresentar Mulheres Autistas, Nós Existimos!

A seguir, leia o texto de Francilene Vaz, de Macapá (AP), apresentando o novo projeto:

O Projeto surgiu a partir do “agrupamento” e união de quatro amigas. Tão distintas, determinadas e neurodiversas, quanto a história de vida de cada uma delas.
A vontade de fazer a diferença, ajudar outras mulheres que buscam o diagnóstico na fase adulta, a partir das próprias vivências, foi a maior motivação para este Projeto.
Entender a si mesmas, buscar o autoconhecimento, o amor-próprio e, ainda assim, mesmo sem querer, encontrar as respostas que faltavam para as “lacunas” da vida.
O diagnóstico na fase adulta tem duas vertentes: liberta e pune.
Liberta, no sentido literal mesmo. Afinal, só quem é livre pode escolher ser quem é. E é assim que nos sentimos. Livres para sermos quem somos.
Pune, pois a sociedade ainda não está preparada para aquilo que considera “novo”. E olha que estamos falando de autistas adultas. (Contém ironias). Os julgamentos são reais. Tanto quanto as indagações, dúvidas e questionamentos a cerca do nosso diagnóstico. Como se não tivéssemos sido criteriosamente avaliadas por profissionais competentes.
Mas, apesar de todas as adversidades, nós existimos!
Apesar de nós mesmas, existimos!
Perfeitas, dentro da diversidade do espectro, nós existimos!
Com a mente vibrante e corações repletos de sonhos, propósitos, metas e possibilidades, nós existimos!
Com amores e temores, do diagnóstico tardio, nós existimos!
(Francilene Vaz)

Vídeo

A seguir, assista ao papo todo, registrado em vídeo (e inscreva-se no nosso canal no Youtube).

A mulher, a pobreza, o autismo e o etarismo

Tempo de Leitura: 3 minutosNasci em meados da década de 60. Mulher. Família pobre. Morava na Vila dos Marmiteiros. Então, conheci a discriminação social e o machismo, à medida que crescia. Na curva dos 50, veio o meu diagnóstico: autismo. Certamente, veio ainda, mais preconceito. “Você não pode ser autista.” “Você é a pessoa mais humanista que conheço. Logo, não é autista.” “Você fala bem.” “Você está no mercado de trabalho.” “Para que o diagnóstico. Você está velha demais.” Assim, vi somar à minha lista, um preconceito até então desconhecido por mim, o etarismo. Desse modo, descobri a fórmula para destruir a alta autoestima: a mulher, a pobreza, o autismo e o etarismo. Tudo junto.

Etarismo, idadismo ou ageísmo

São sinônimos para o preconceito baseado na faixa etária da pessoa, mais comumente destinado a pessoas acima de 50/60 anos. Mas, pelo amor! Não basta ter sido perseguida a vida inteira por ser mulher? Além disso, mesmo tendo subido uns degraus na escala social, a pobreza pobre mesmo, deixa sequelas. Por exemplo, uma espécie de fissura em nossa autoconfiança. “Esse salário está bom demais, considerando de onde eu vim.” Agora, depois de tudo isso, à essa altura, não posso ser autista porque sou velha?

A mulher, a pobreza, o autismo e o etarismo

Assim, gostaria de saber quando a maior parte das pessoas vai entender que:

  1. Não podemos julgar o outro. Nunca vamos conhecer todos os dados e variáveis. Isso porque temos acesso, somente, a recortes da realidade.
  2. Não podemos medir o outro com a nossa régua. Afinal, quem diz que nossa medida é única e verdadeira?
  3. Não podemos rotular pessoas, idades, situações. Aliás, há velhos de 20 anos e jovens de 90. Quem escolhe a própria performance somos nós.
  4. Decidimos sobre nossa vida. Nunca devemos decidir pelo outro. Há que se orientar, negociar, mas, decidir pelo outro, nunca!
  5. O diálogo respeitoso e franco é a base da convivência em sociedade.

Ser mulher, a pobreza, o autismo e a idade dizem de uma fração do ser humano. Enxergar e deduzir sobre o todo, com base na parte, é injusto e arriscado.

Quem é a mulher que vive a pobreza, o autismo e o etarismo?

Depois do diagnóstico, passei minha vida pelo pente fino. Era preciso continuar computando minhas vitórias, mas sem o sofrimento agregado, de antes. Chega! O autoconhecimento liberta. Nunca me considerei bonita, quando mais jovem. Mas eu era. Porém, a inadequação me fazia me sentir desajeitada, feia, aquém da realidade.

Hoje, quase dez quilos a mais, rugas no rosto, joelhos menos arredondados, (não sabia que até os joelhos envelhecem), lei da gravidade desejando provar sua veracidade, as pessoas vêm me dizer que eu sou velha? Sou, não. Garanto. Desse modo, não tenho a pretensão de ter o mesmo corpo de antes (gosto muito do atual), ou de disputar o viço juvenil com minha filha de 24 anos. Jamais.

Espelho, espelho meu

Entretanto, uma coisa é certa: não sou mais um ser amedrontado, tentando entender as regras e as pessoas ao meu redor. Hoje, me sinto plena, completa. Não que isso signifique que eu não envelhecido. Sou plena, exatamente, pela bagagem que trago comigo e que, a cada passo, se faz mais rica. Sou mesmo é uma jovem senhora experiente, com suas muitas vivências. Se meu corpo doi, sei o que devo fazer. Que atitude tomar. Sei, ainda, que é preciso certa seletividade pois, o que não me agrega, me faz perder um tempo precioso.

Insisto. Sou plena, completa. Não porque sou dotada de sabedoria que só os anos trazem. Não, vá de retro! Sou plena e completa porque minhas escolhas são conscientes, meus amores são seletos e valiosos, meus desafios, quando enfrentados, me tornam melhor. Hoje, ao contrário de ontem, vivo de maneira consciente. É muito ruim fazer a próxima jogada da vida, com base no que o outro espera de você. Quero mais isso, não. “Espelho, espelho meu, existe alguém que ama o vai e vem da vida, mais do que eu?”

“Atrás de uma montanha vem outra montanha”

Isso quer dizer que a vida, para quem não se furta a viver, é um eterno andar para frente, subir, gozar de uma bela vista e enxergar outra montanha. Então, descer e começar tudo de novo. Meu Mestre de vida, Daisaku Ikeda, me ensina:

O propósito da vida não é ter uma lista de montanhas que escalou. É se tornar um excelente alpinista, pois assim será capaz de escalar todas as montanhas, mesmo as que não escolher.

A mulher autista é o outro do outro

Tempo de Leitura: 3 minutosPrimeiramente, quero explicar minha reflexão sobre a mulher autista é o outro do outro. Desse modo, lembro de minha bisavó que apresentava fortes traços autistas. Ela faleceu em 2008. Foi nesse mesmo ano que eu obtive o meu diagnóstico. Ou seja, Vovó Glória manifestava certa fobia social. Assim, ela ficava escondida sempre que o marido festeiro recebia visitas. Mulheres daquela época não tinham chance de contrariar o marido.

Além disso, a Vovó Glória não comemorava quando alguma parente ficava grávida. Dessa maneira, quando nascia uma menina, demonstrava certo pesar. Afinal, considerava que meninas sofriam muito mais do que meninos. Entretanto, ela possibilitou as mesmas oportunidades de estudos para todos os seus nove filhos. Aliás, independentemente de serem homens e mulheres. Mesmo que fosse apesar do receio maior com o futuro das meninas. Ou até por causa dele. Ainda que o contexto social da época anunciasse que não valia a pena oferecer o mesmo investimento a filhas.

Certamente, o feminino é traço marcante em nossa família. Em outras palavras, o fato fica evidente nas gerações que vieram depois de minha bisavó. Mas não que os meus parentes homens fossem mais “apagados”. Eles, também, têm personalidade forte e trajetórias das quais se orgulham. As características das mulheres, contudo, provocam um impacto mais expressivo. Assim, não se estranha que os nomes de grupos familiares sejam combinados com Vovó Glória e Vó Sinhana, a mãe dela.

A mulher autista

São muitas as mulheres com o diagnóstico ou suspeita de TEA em nossa família. O que é curioso se considerarmos os estudos que apontam uma maior prevalência de homens com a condição. A análise significativa mais recente aponta uma proporção de 3 homens para cada mulher. No passado, essa diferença já foi de até 10 para 1.

A maioria das mulheres com quadros mais sutis de autismo só recebe essa identificação médica quando alguma situação desastrosa ocorre em seu dia a dia. A informação é do livro “Asperger no Feminino”.  De fato, muitas de nós só são diagnosticadas na fase adulta. Certamente, porque o autismo no feminino manifesta nuances e sutilezas. Então, isso traz uma diferença considerável entre a vivência e a percepção de homens e mulheres autistas. Ainda que, os critérios diagnósticos sendo os mesmos para ambos os sexos.

De acordo com o psicólogo e pesquisador Tony Attwood,  mulheres e meninas tendem a disfarçar as características da síndrome com uma eficácia impressionante. Outros fatores devem ser levados em consideração para o subdiagnóstico do autismo no feminino. A investigação deve ir além da manifestação mais imprecisa das dificuldades de Comunicação Social. Por exemplo: o pouco estudo histórico científico sobre o funcionamento feminino. Ou, ainda, a hesitação profissional de se conferir laudos a quem não apresenta atrasos tão evidentes no desenvolvimento.

O outro do outro

A historiadora Joan Scott analisa que a opressão feminina não está ligada a características biológicas. Os estudos dela vão contra a perspectiva do senso comum de que a mulher seria menosprezada por ser mais frágil do que o homem. Em uma perspectiva similar, a filósofa Simone de Beauvoir pondera que as mulheres são “o outro”. Ou seja, um “segundo sexo” que só existe na comparação com aquele que é considerado o principal.

A escritora Letícia Nascimento reflete que não há uma categoria abstrata de mulher vítima dessa subordinação. Em vez disso, existem mulheres diversas. Essa pluralidade se evidencia em etnia, orientação sexual, deficiências. Além, é claro, de vários outros aspectos que constituem a vida de alguém. Para a escritora, o ódio ao feminino é destinado às características do ser mulher.

Mulher autista, o outro do outro

Portanto, a mulher autista sofre várias marginalizações. Como a negação da possibilidade do diagnóstico, direito mais básico da pessoa autista. Ou seja, muitas de nós não tem a chance de ter acesso à real identidade. Existem profissionais que utilizam como argumento, que muitas mulheres com TEA apresentam vida funcional. Eles geralmente se referem ao fato de que, devido à capacidade de adaptação, elas conseguiram até casar e trabalhar. Portanto, o médico conclui do alto de seu conhecimento sobre a vida daquela mulher. Se viveram uma vida aparentemente “comum”, o laudo é dispensável.

O que esses “especialistas” não percebem, ou mesmo ignoram, é que os desafios do casamento ou mercado de trabalho são distintos para o sexo feminino. Ter constituído família ou estar empregada não significa que a mulher receba o mesmo tratamento social que o parceiro ou colegas do gênero masculino.

Falta, muitas vezes, a compreensão de como as características do autismo atravessam o ser mulher no Brasil. Aliás, em outros lugares do mundo, também. Por exemplo, como as mulheres autistas se protegem da violência psicológica ou do assédio sexual? É necessário considerar as dificuldades delas de desenvolver maior autonomia. E, também, de ler as entrelinhas das relações sociais. Não à toa, 90% das mulheres com deficiência já foram vítimas de abuso.

Um apelo sobre o autismo no feminino

Aos poucos, estamos avançando na percepção de que o autismo se manifesta de forma diferente no feminino. Assim, o próximo passo deve ser a compreensão de como as dinâmicas sociais com o gênero afetam as experiências das mulheres autistas.

Para além da perspectiva biomédica sobre o TEA, precisamos avançar mais. Dessa forma, é preciso nos abrir para um olhar social sobre o que é ser uma mulher autista. Assim, vamos resgatar seres humanos de valor que se tornaram invisíveis para a sociedade.

Mulheres autistas relatam impacto do diagnóstico na vida adulta

Tempo de Leitura: < 1 minutoO jornal britânico The Guardian promoveu uma pergunta respondida por mulheres autistas de todo o país sobre o impacto do diagnóstico. Em entrevistas, elas afirmaram dores, alegrias e alívios por saberem que são autistas.

“Estou extremamente aliviada por finalmente ter uma resposta. Eu não tinha ideia de que a vida poderia ser tão boa. O diagnóstico é renascimento”, disse Sarah Martin, de 52 anos.

Já Kirsty Stonell Walker, de 48 anos, relatou alívio. “Porque o jeito que sou não é minha culpa – mas uma sensação de depressão por nunca ser uma pessoa melhor do que sou agora”, afirmou.

No feminino

Tempo de Leitura: 2 minutos“Autismo no Feminino – A Voz da Mulher Autista” apresenta treze capítulos escritos por mulheres autistas, diversificados e reflexivos, mesclando artigos científicos e relatos de experiências. Todas as autoras tiveram como mote o “grito”: “O que você pensa que a sociedade precisa saber sobre o autismo no feminino?”. 

Por muito tempo, a mulher foi ignorada nos estudos sobre o autismo e, mais recentemente, muitas delas estão saindo da invisibilidade ao procurar profissionais competentes que entendam sobre o amplo espectro do autismo. Mais que isso, levam o assunto às redes sociais, à academia, dão palestras, pesquisam, criam empresas para difundir informações confiáveis. 

O ativismo dessas mulheres nasceu da constatação da falta de conhecimento e até da distorção sobre as características do autismo no feminino. Todas passaram por experiências de não validação de suas falas, apontamentos e ponderações pela classe médica. 

Entretanto, elas arregaçaram as mangas e partiram para disseminar informações necessárias à transformação positiva de toda a sociedade. O livro pretende falar a profissionais da saúde, (como médicos e psicólogos), educadores,, além das pessoas envolvidas direta e indiretamente com a neurodiversidade humana.

Quem são essas mulheres e qual é o seu grito?

O livro conta com o prefácio “Diagnóstico é Identidade”, da neuropsiquiatra Raquel Del Monde, e termina com “Diagnóstico é Esperança”, de Ana Amélia Cardoso, docente e pesquisadora no Departamento de Terapia Ocupacional e do Curso de Pós-Graduação em Estudos da Ocupação da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (EEFFTO – UFMG). 

Ao longo de toda a obra, as autoras vão tecendo as noções de “identidade” e “esperança” que pulsam na construção da história de cada uma delas.

Tudo começou com mãe e filha autistas

Mãe e filha estão à frente do site O Mundo Autista. Selma Sueli (mãe) e Sophia Mendonça (filha)  são jornalistas e compartilham as suas vivências. O site, que tem uma abordagem plural, trata a inclusão de uma maneira geral e dá voz às minorias, através de trocas com pessoas com deficiência, diversidade de gênero, raça, religião e outros temas. Saber conviver pressupõe aprender a debater sobre as situações conflitantes, pois é a partir do conflito que amadurecemos, crescemos e, por fim, nos desenvolvemos. 

O “Mundo Autista” é o canal de autistas mais antigo em atividade no YouTube brasileiro, com vídeos disponíveis desde 2015. Selma Sueli Silva é jornalista, radialista, youtuber, escritora, cineasta, relações públicas e pós-graduada em Comunicação e Gestão Empresarial. Foi diagnosticada com TEA (Transtorno do Espectro Autista) em 2016. É autora de três livros e diretora do documentário “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho”.

Sophia Silva de Mendonça é jornalista, escritora, apresentadora, cineasta e mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG). Foi diagnosticada autista aos 11 anos, em 2008. Mantém o site “O Mundo Autista” no Portal UAI. É autora de sete livros e diretora do documentário “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho”. Em 2016, recebeu o Grande Colar do Mérito Legislativo de Belo Horizonte, a maior honraria do legislativo municipal, tornando-se a pessoa mais jovem a receber essa homenagem. O site “O Mundo Autista” agora é parceiro premium do UAI, o maior portal de notícias mineiro.

Chantal Wiertz, semifinalista do Miss Universo, desconstrói pré-conceitos sobre o autismo no feminino

Tempo de Leitura: 2 minutosA última edição do concurso Miss Universo, celebrada no domingo passado (16) teve entre as suas semifinalistas Chantal Wiertz, de 22 anos de idade, representante de Curaçao, que é autista e ativista pela causa do autismo. Mais uma vez, nos deparamos com a constatação de que existem autistas nas mais diversas esferas sociais. Mesmo com toda a discussão que ronda sobre um possível reforço da objetificação feminina em disputas de beleza, não há como negar os afetos mobilizados por termos uma representante da comunidade autista numa indústria que tem seu papel na legitimação de modelos a serem seguidos pelo feminino.

Com Chantal, diagnosticada com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) há um ano, eu vejo novamente a possibilidade de desmistificar um dos diversos pré-conceitos que contribuem para o atraso diagnóstico de mulheres autista: a ideia de que autistas não ligam para a aparência externa.  Uma vez, lembro-me de uma amiga também enquadrada ao TEA, uma ruiva de beleza muito expressiva, pontuar que o simples fato de ela se maquiar já era motivo para alguns colocarem a suspeita de autismo de lado. É certo que ser autista não remove a feminilidade (ou masculinidade) de ninguém, mesmo nos aspectos mais superficiais dessa construção do que é ter aparência de uma mulher, como traços físicos e até comportamentais. Assim, como a cobrança cultural com o feminino é diferenciada, é preciso uma atenção especial às sutilezas da manifestação do autismo no feminino.

Como mulher autista, eu me lembro que o primeiro exemplo midiático que tive de alguém com TEA foi a modelo Heather Kuzmich, participante da nona temporada do reality show estadunidense America’s Next Top Model. Quando o programa foi exibido, em 2007, eu ainda não havia sido diagnosticada, embora percebesse algumas características muito similares a ela, principalmente no que se refere a desafios de interação (“Você é a piada”, diziam algumas colegas quando ela não entendia algo) e baixa habilidade motora (apesar de ser a melhor da temporada com modelo fotográfica, Heather tinha sérios problemas quando precisava desfilar). Anos depois, ela foi uma peça fundamental para que eu compreendesse o laudo que me foi dado. Que Chantal, em sua ação de figura pública, também possa ajudar a amenizar o sofrimento de mais meninas e mulheres autistas.

Mãe Autista – três gerações de muito amor e determinação

Tempo de Leitura: 3 minutosNunca vou me cansar de homenagear minha mãe que, aos 25 anos, separou-se de meu pai, com 3 filhas de 5, 3 e 2 anos. Dali para a frente, seria uma trajetória impossível para aquela mulher vinda da “Vila dos Marmiteiros”, que ainda não havia terminado o Ensino Médio, em pleno ano de 1967. Mas ela não sabia que era impossível e, em 2006, se aposentou como Procuradora da Prefeitura de Belo Horizonte, com suas ‘meninas’ formadas em Engenharia Civil, Comunicação Social e Direito.

A verdade era que minha mãe não sabia de muita coisa e se atirou à descoberta de algumas e outras, simplesmente, se tornariam conhecidas, somente, muitos anos depois.  Minha família tinha muitas pessoas consideradas ‘esquisitas’ e a primeira pessoa ‘esquisita’ da família a receber o diagnóstico de autismo grau 1, foi minha filha, Sophia Mendonça. Há 4 anos foi minha vez e minha mãe, claramente com muitos traços dentro do espectro, resolveu que agora, o diagnóstico para ela, não faria a menor diferença.

Olhando para trás eu percebo como minha mãe foi singular e precisa para que eu sobrevivesse à falta de um diagnóstico. Talvez por ter passado por tanta coisa semelhante a mim, ela era ‘cirúrgica’ em suas explicações sobre o mundo e a vida. Mais tarde, eu me casei e, como havia feito com o casamento, determinei uma data apropriada para ter o primeiro filho. Fiquei desorganizada quando o momento chegou, mas não veio acompanhado de uma segurança para ser mãe.

Talvez, se não fosse o meu cérebro neurodivergente, eu não seria mãe. É que eu não me via como tal, não havia uma lógica a seguir para o preparo à maternidade e isso tudo me gerou muita insegurança. Deixei a data passar e não tive o filho programado para o ano de 1993. Mas algo continuava martelando em minha cabeça: minha geração acreditou que a regra era casar e ter filhos. Assim, sete anos após meu casamento, Sophia chegou.

Ainda bem, hoje sou melhor ser humano que era antes da maternidade. O que não significa que a maternidade seja um presente necessário à plenitude da mulher, algo que nos alçará à condição de ‘santas’, praticamente. Não, de jeito algum. A maternidade foi o maior desafio de minha vida que redundou num imenso aprendizado.

Eu nasci como mãe em 06 de fevereiro de 1997, o que me requereu muito estudo, observação, tentativas, erros e acertos. Graças a esse hiperfoco no desenvolvimento da criança, percebi sutilezas que passaram despercebidas ao pediatra. Aos 11 anos, veio o diagnóstico de Sophia de autista grau 1.

Com a vinda desse novo norte, o diagnóstico, eu passei transferi meu hiperfoco para o ‘autismo’. Meu universo se ampliou e eu descobri a neurodiversidade. Descobri que o mundo não se estreita a partir daí, ele se alarga. Filho é coisa séria e sua educação deve ser cercada do propósito de que ele seja um valor para a sociedade. Hoje admiro Sophia para além de ela ser minha filha.

Se houve sofrimentos? Claro, e muito. Ainda há. Acredito que se soubesse do meu autismo antes, quando Sophia era adolescente, eu não teria conseguido. Entrei em crise, muitas vezes, com ela. Desejei que eu e ela não existíssemos, procurei, obstinadamente, a lógica para essa diferença de codificação..

E descobri, pois “o inverno nunca falha em se tornar primavera”, e é o rigor do inverno que garante a plenitude da primavera. A filosofia budista de Nichiren explica o princípio da “cerejeira, ameixeira, pessegueiro e damasqueiro”. Essas árvores suportam o rigoroso frio do inverno e, quando a primavera se aproxima, cada qual a seu próprio tempo se enche de flores de beleza singular.

Hoje, eu sei que a diversidade dos seres humanos expressa a missão ímpar e as qualidades peculiares de cada um. A Dra. Elise Boulding (1920–2010), pioneira em pesquisas sobre a paz, defendia que um dos requisitos mais importantes para edificar a paz é ter o espírito de apreciar e celebrar a diferença e a diversidade, além de reconhecer que cada pessoa é única e preciosa. Um viva a todas as mães que, a seu jeito, procuram acertar na missão de educar e entregar valores humanos para a sociedade.

Confira esse bate-papo entre mãe e filha: