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Meme Sincero: ‘Pessoas autistas gostam de socializar?’

Tempo de Leitura: 2 minutosPessoas autistas gostam de socializar? Aposto que na cabeça de muitas pessoas agora, a resposta que surgiu foi que não, afinal, os Autistas são aquelas pessoas que ficam isoladas no seu cantinho.

Diante dessa perspectiva, temos uma verdade, mas também há um equívoco.

Começemos pela verdade. Realmente, muitas vezes as pessoas autistas acabam por se isolar, ficando afastadas das demais. Entretanto, por mais que seja algo recorrente, ainda assim não se pode generalizar, pois fugindo um pouco dos esteriótipos, existem pessoas no espectro que conseguem estar enturmadas em grupo e até gostam da agitação e barulhos.

Mas e onde está o equívoco, então?

Está justamente no fato de determinar que as pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) não gostam de socializar. Aqui é preciso entender que uma das características do TEA é a dificuldade de socialização e a partir disso, compreender que ter uma dificuldade é bem diferente de não gostar. Ou seja, essa falta ou diminuição de socialização se dá pelas características inerentes ao transtorno que dificultam a inserção no meio de socialização.

A partir disso, haverão indivíduos, dependendo de suas vivências, fases do desenvolvimento, manobras que foram desenvolvidas a partir de auxílios terapêuticos ou não, que irão gostar mais ou menos de um contexto de socialização.

Então é necessário quebrar esse estereótipo  de que pessoas autistas não gostam de socializar ou preferem estar sozinhas. Alguns gostam e não conseguem, outros não gostam e ficam bem com isso, ainda existe quem não goste no seu momento atual de vida por já ter tentado muitas vezes e ter se frustrado com os repetidos insucessos, o que também é importante lembrar: nem sempre ocorre só pelas características autísticas como também pela falta de compreensão alheia; e ainda há quem goste e consiga socializar mesmo sendo uma pessoa no espectro do autismo.

Uma conclusão que podemos tirar dessa reflexão é que antes de ser autista, todos somos pessoas, com características, preferências e gostos individuais e que por mais que o TEA traga aspectos em comum entre os cidadãos nessa condição, ainda assim cada um experimenta o seu existir dentro das suas percepções diante do meio, como qualquer outro ser humano.

Meme sincero: dificuldade em demonstrar sentimentos e expressões

Tempo de Leitura: < 1 minutoComumente a pessoa autista tem dificuldades em demonstrar sentimentos e expressões. Isso é um fato marcante no autismo e por ser verdade é que se tem o mito de que autistas não tem empatia, pois às vezes, apesar de estarmos muito tristes ou felizes, a nossa feição não acompanha tal sentimento como o padrão neurotípico espera.

Outras vezes, não demonstramos tais sentimentos pela própria dificuldade de externar o que estamos sentindo mesmo, o que passa a imagem de insensibilidade. Eu por exemplo, por mais triste que esteja, é muito difícil que eu chore, o que faz parecer que uma situação que causaria tristeza em qualquer pessoa não me afeta.

Porém, existe esse outro lado que quem convive mais de perto com pessoas autistas já deve ter notado. Tem vezes que, ao contrário dessa falta de reatividade que expliquei anteriormente, nós autistas somos muito transparentes e não temos o traquejo social de esconder sentimentos em situações onde os neurotípicos têm facilidade em manter a discrição para dar suporte a certas ocasiões de socialização onde tal postura seria bem-vinda.

Resumindo, somos péssimos em executar essas “mentirinhas sociais” que são inerentes do convívio. Algumas vezes por não ver motivo em dizer ou demonstrar algo que não é verdade, outras por não perceber que aquilo faz parte do contexto de socialização implícito onde parece ser comum dizer algo que é o contrário dos fatos simplesmente porque na maioria das vezes as pessoas neurotípicas fazem perguntas esperando uma afirmação e não uma resposta.

Meme Sincero - A Cura - Revista Autismo

Meme Sincero: A Cura

Tempo de Leitura: 2 minutos

Meu nome é Fábio, autista de 40 anos, muitos já me conhecem como Aspie Sincero do Instagram. Nesses tempos estranhos de pandemia muitas coisas passam pela cabeça, muitas reflexões acerca do que realmente importa na vida. E se tem algo que importa na vida são os filhos.

Por isso esse texto hoje não vai falar muito sobre mim, até porque minha rotina não mudou muito, pois como trabalho na linha de frente de combate à Covid-19, não tive pausa na labuta ou mudança para home office, por exemplo — também, como não tenho um círculo de socialização avantajado, meu dia a dia seguiu praticamente o mesmo.

O assunto então, vai tratar de meu filho mais novo, que tem 14 anos, também autista e que foi curado nesse período.

Breno, como ele se chama, é um garoto muito esperto, faz suas terapias semanalmente em busca de uma tão esperada autonomia. Frequentava o ensino regular, que foi pausado, como também para todas as crianças ou adolescentes nessa época, e segue agora em casa, isolado como tantos estudantes de todas as idades.

Esse isolamento tem sido encarado de forma muito tranquila por ele. Procuramos manter uma rotina onde ele acorda, alimenta-se quase sempre do mesmo cardápio, assiste suas aulas online e depois segue para seus jogos no computador, que faz parte dos seus interesses específicos.

Mas e a cura? Vocês devem estar se perguntando, fale sobre a cura!

Pois digo a todos que ele conseguiu a cura. Converso muito com ele e sempre pergunto como ele está se sentindo. Já tivemos muitas barreiras para que ele conseguisse se expressar, mas hoje em dia essa parte é tranquila, ele consegue me relatar muito bem seus sentimentos.

E foi numa dessas conversas que ele me contou como tudo estava mais leve pra ele. O déficit de socialização e comunicação social tinham quase desaparecido. A ansiedade e a dor por ver todos socializando, e ele não conseguir se enturmar, já não ocorriam. O bullying tinha sumido do seu cotidiano. As surpresas de mudanças repentinas já não o incomodavam.

Então quer dizer que o autismo dele foi curado? Não meu povo, o autismo segue ali, intacto junto à sua existência. A cura a qual me refiro foi dos martírios de uma existência cheia de intolerância, preconceitos e a falta de adaptações razoáveis, as quais tornariam a vida da pessoa autista mais simples e prazerosa.

Agora está ele aqui, isolado como todos de sua idade, sem socializar, sem demandas de comunicação onde preceitos sociais subentendidos lhe causariam conflitos. Não tem mais ele que se enturmar ou se reunir porque ninguém mais o faz e não há bullying no confinamento do seu lar.

Com isso, alguém pode até pensar que estou feliz com esse enredo, mas não é exatamente assim que me sinto. Claro que tenho alegria de ver meu filho bem em um momento tão difícil que o mundo está passando, porém, é uma tristeza que me atinge em notar que grande parte das angústias do TEA resolveram-se com o afastamento dele da sociedade e não com a construção de uma sociedade mais inclusiva.

Ícone: peça de quebra-cabeça - Revista Autismo