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Museu na Espanha contrata autistas para atender mais de 3 mil visitantes por dia

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UM TIME DE 30 AUTISTAS

Por Francisco Paiva Junior,
com colaboração de Marcelo Vitoriano

Imagine uma empresa em que todos os seus funcionários fossem neurodivergentes, a maioria autistas. Treinados para acolher e dar informações a quem chegasse à empresa e com total empatia para com os visitantes neurodivergentes, afinal, os autistas saberiam melhor que ninguém o que é ter hipersensibilidade auditiva, por exemplo, ou outras questões que tornam o dia a dia dessas pessoas um desafio. Agora, pare de imaginar e saiba que essa iniciativa já existe! Sim, um museu na Espanha fez isso: a Casa Batlló, em Barcelona.

Casa Batlló é um museu, projeto de Antoni Gaudí (1852-1926), famoso arquiteto espanhol e figura que marcou o Modernismo catalão, mas nunca se encaixou no perfil de nenhum movimento artístico. Sua genialidade é o selo de seus edifícios e seu estilo é ímpar na história da arquitetura, com a maioria de suas obras na cidade de Barcelona — como sua obra-prima, o inacabado templo da Sagrada Família. O edifício do museu projetado por Gaudi figura na lista do patrimônio mundial da Unesco, e fica na Ilha da Discórdia (um bairro modernista da cidade), aberto para visitação e já muito envolvido com projetos sociais.

Conversamos com o espanhol Francesc Sistach, CEO da Specialisterne Espanha, que foi a empresa responsável pelo programa de recrutamento e treinamento do time de autistas do museu. A missão da Specialisterne, que é uma empresa dinamarquesa de impacto social fundada por um pai de autista, é preparar e incluir pessoas com autismo no mercado de trabalho. A filial brasileira da empresa abriu as portas no final de 2015. Hoje a empresa já tem presença em 23 países — o último deles foi a França —, tendo, no mundo todo, incluído mais de 10 mil pessoas autistas no mercado de trabalho (150 no Brasil). A meta da Specialisterne é chegar a 1 milhão!

Sistach, muito entusiasmado com a iniciativa, contou que após meses fechados por conta da pandemia de Covid-19, havia planos de o museu reabrir para visitação. “Eles já tinham uma pessoa com autismo na área administrativa, portanto já estavam muito contentes em ter um autista na equipe. Então, falamos: ‘Agora é a oportunidade de ampliar o escopo do projeto e fazer um grande trabalho de neurodiversidade!’. No princípio pairou uma dúvida se autistas seriam as melhores pessoas para interagir com visitantes do museu. Mas, para essas funções, encontramos pessoas dentro do espectro que tinham mais habilidades sociais, pois, num museu, não se exige tanta interação social, é algo mais limitado, controlado, esporádico”, explicou ele.

Com uma metodologia específica para este projeto, hoje há mais de 30 pessoas com autismo trabalhando lá e mais outras pessoas, com outras características, como TDAH e dislexia. Um dos pontos turísticos mais buscados da Espanha, recebendo em média (antes da pandemia) mais de um milhão de visitantes por ano, teve uma abertura parcial em abril, após o início do controle da pandemia e vacinação naquele país,  e veio aumentando os dias e horários de abertura gradualmente. Atualmente já abre diariamente, com três grupos alternando os turnos de trabalho.

“Está funcionando muito bem, e o discurso de cada funcionário está sempre muito bem preparado e a habilidade de trabalhar muito bem, fazendo a mesma coisa por muitas horas, dando sempre a mesma resposta, sempre muito correta e precisa. E penso que teremos uma baixa rotatividade de funcionários, evitando algo que é muito comum nesta área, pois muitos autistas não se incomodam em fazer a mesma coisa exatamente todos os dias, como é preciso num museu desses”, argumentou Francesc Sistach, que também foi responsável por implantar as filiais da Specialisterne no Brasil, Itália e outros países da América Latina. “Os autistas têm a capacidade de ficar num trabalho rotineiro por muito mais tempo”, completou ele.

Para o mês de setembro está programada uma campanha de comunicação para mostrar à sociedade a iniciativa da Casa Batlló, “Isso será muito positivo para eliminar alguns obstáculos de preconceito contra autistas. Aqui temos um museu com 30 autistas coordenando a visitação de mais de 3 mil pessoas por dia. Creio que isso vai ajudar a romper diversas barreiras mentais em todo o planeta, a respeito do amplo espectro do autismo, que é muito diverso, e que podemos pensar em muitas outras oportunidades para autistas”, contou Sistach com um sorriso de orelha a orelha.

CONTEÚDO EXTRA

Portugal: Autismo, inclusão e legislação 2008/2018

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Como eram e como passaram a ser as leis portuguesas que abrangem o autismo

Eduardo Ribeiro, de Portugal

No ano de 2008, foram dados os primeiros passos legislativos para a inclusão de crianças com perturbações do espetro autista na escola, com a publicação do Decreto Lei 3/2008 de 7 de janeiro, o qual “define os apoios especializados a prestar na educação pré-escolar e nos ensinos básico e secundário dos sectores público, particular e cooperativo”.

Os princípios orientadores deste diploma, definiam que a escola não podia “rejeitar a matrícula ou a inscrição de qualquer criança ou jovem com base na incapacidade ou nas necessidades educativas especiais que manifestem”, gozando estes de prioridade na matrícula, tendo o direito a frequentar o jardim-de-infância ou a escola nos mesmos termos das restantes crianças. Procurava-se reconhecer a singularidade das crianças e dos jovens com necessidades educativas especiais de carácter permanente, oferecendo respostas educativas adequadas.

A participação dos pais foi relevada e, no que concerne a alunos com autismo,  as escolas ou agrupamentos de escolas, para melhor adequar o processo de ensino e aprendizagem, podiam desenvolver respostas específicas diferenciadas para alunos com perturbações do espectro do autismo através da criação de Unidades de Ensino Estruturado. Cada aluno também teria de ter definido um programa educativo individual e plano individual de transição para a vida pós-escolar (obrigatória).

A adequação do processo de ensino e de aprendizagem integra medidas educativas tais como o apoio pedagógico personalizado, adequações curriculares individuais ou currículo específico individual, e adequações no processo de matrícula, no processo de avaliação e ainda o uso de tecnologias de apoio.

Previa também a intervenção precoce na infância, objeto posterior de diploma legal específico (DL 281/2009 de 6 de outubro) e o desenvolvimento de parcerias com instituições particulares de solidariedade social e centros de recursos especializados.

Em 2009, a Lei n.º 85/2009, de 27 de Agosto veio estabelecer o regime da escolaridade obrigatória para as crianças e jovens que se encontram em idade escolar (entre os 6 e os 18 anos de idade) e consagrar a universalidade da educação pré-escolar para as crianças a partir dos 5 anos de idade, que desde 2015 passou para os 4 anos”.

Gráfico de 2010 a 2018: alunos com NEE que frequentam UEE versus os em escolas regulares.

Em 2018, 10 anos passados de vigência do Decreto Lei 3/2008, este foi revogado pelo Decreto Lei 54/2018. Este diploma estabelece o “direito de cada aluno a uma educação inclusiva que responda às suas potencialidades, expectativas e necessidades no âmbito de um projeto educativo comum e plural que proporcione a todos a participação e o sentido de pertença em efetivas condições de equidade, contribuindo assim, decisivamente, para maiores níveis de coesão social”.

As principais alterações passam pelo abandono dos sistemas de categorização de alunos, incluindo a “categoria” necessidades educativas especiais, abandono do modelo de legislação especial para alunos especiais e pelo estabelecimento de um continuum de respostas para todos os alunos. Passou também a colocar o enfoque nas respostas educativas e não em categorias de alunos e perspetiva a mobilização, de forma complementar, sempre que necessário e adequado, de recursos da saúde, do emprego, da formação profissional e da segurança social.

Este diploma causou algum “barulho” pela novidade e nesta altura, janeiro de 2019, ainda existem escolas a adaptarem-se à nova realidade.

Desde o ano de 2008 muito se fez na área da educação, mas muito ainda há a fazer, principalmente dotar as escolas de meios técnicos e humanos capazes, proporcionando aos profissionais formação prática com recurso às associações especializadas, de modo a haver melhores resultados com as crianças e jovens com autismo.

CONTEÚDO EXTRA