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Os desafios do autista adulto

Tempo de Leitura: 3 minutos

Especialistas dão dicas de como ajudá-los no dia-a-dia e no mercado de trabalho

Quase todo mundo conhece uma criança que foi diagnosticada com autismo. Mas, muitas vezes, os adultos ficam “invisíveis” por não terem sido avaliados corretamente. “É muito comum autistas terem passado boa parte da vida como esquizofrênicos, por exemplo”, diz o geriatra Marcelo Altona, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e coordenador do Programa de Envelhecimento do Instituto Serendipidade, que atua com inclusão de pessoas com deficiência intelectual na sociedade. Quando conseguem chegam ao mercado de trabalho, as pessoas autistas encontram várias dificuldades que poderiam ser evitadas se as empresas fizessem pequenas modificações.

Segundo a neuropsicóloga Joana Portolese, da Faculdade de Medicina da USP, estudos apontam que apenas entre 10 e  20% dos autistas considerados leves chegam ao mercado de trabalho ou à universidade. E, quando conseguem, encontram ambientes inadequados. “Eles podem apresentar sensibilidade à luz ou ao barulho. É preciso fornecer meios para que se sintam mais confortáveis”, diz ela citando o uso de fone de ouvidos ou até mesmo a realocação do autista no espaço físico para deixá-lo em um local com menor movimentação de pessoas. Joana destaca que, em diversos aspectos, pessoas com autismo podem ser mais eficientes em certas funções do que pessoas fora do espectro.

“Com a propensão ao hiperfoco (estado de concentração intensa), eles respondem muito bem quando têm um planejamento. São excelentes executores quando recebem um roteiro” , diz Joana, frisando ainda que metas a curto prazo também são bem-vindas.

Estimular a autonomia do adulto autista também é fundamental, diz a neuropsicóloga. “Quanto mais os adultos conseguem sair sozinhos, dirigir, ir à farmácia ou ao mercado sem acompanhamento, mais fácil se resolvem nas relações pessoais, que são um ponto de dificuldade, já que os autistas não são bons na leitura social”.

Professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Rosane Lowenthal diz também ser importante que as empresas  enxerguem a diversidade entre os autistas adultos. Nem todos vão ter hiperfoco, por exemplo. “Alguns gostam muito de detalhes. É importante que o empregador saiba disso, que dê tarefas de classificação, de elaboração de planilhas.  Ela lembra que também é necessário dar o tempo necessário para eles se organizarem. “Às vezes, a pessoa autista precisa falar sozinha, precisa ir a algum lugar sem pessoas ao redor”. Ela diz ainda ser preciso intervir na habilidade social, mas frisa que não há um manual. “Tem que ter apoio, oferecer uma intervenção individualizada, não pode falar ‘você age assim ou assado’, cada caso é diferente”.

CEO da Specialisterne, empresa social que intermedia a contratação de pessoas com TEA, Marcelo Vitoriano diz que empregar alguém com o transtorno tem vantagens em várias frentes. “ A primeira dela é que a empresa verdadeiramente valoriza a diversidade e inclusão e abre oportunidades para pessoas com diferentes características. Boa parte das pessoas autistas possuem alta concentração nas atividades, raciocínio lógico apurado, são detalhistas e metódicos e podem trazer soluções inovadoras”.

Marcelo diz que a principal iniciativa para uma inclusão com qualidade é a adaptação dos processos de recrutamento e seleção. Não é possível ter uma seleção onde a pessoa seja “reprovada por dinâmicas de grupos ou porque não conseguiu olhar para os olhos do entrevistador”, diz, recomendando ainda que seja dada muita informação para as empresas sobre a realidade das pessoas com autismo e  suas características, pois isso facilita o acolhimento adequado.

Diagnosticado com TEA quando criança, Marcos Petry, que hoje tem um canal no YouTube intitulado Diário de um Autista e capacita professores para atender crianças com o diagnóstico, acrescenta ainda uma outra lição: “É importante se aproximar do indivíduo autista, e não do autismo no indivíduo”, diz.

(Instituto Serendipidade)

Domando meu cérebro autista

Tempo de Leitura: 3 minutosDesde criança, a injustiça acabava comigo. Lembro de um médico que me disse, quando eu estava com 22 anos, que eu era extremamente compassiva e que era muito rígida quando o assunto era a justiça. Nunca me esqueci do sorriso que se seguiu à fala dele para mim: “Você quer ter a justiça divina, infalível. Vai sofrer muito pois já entra perdendo nessa concorrência.” Pensei nisso por anos, pois não entendi o sentido disso. Eu queria era saber lidar com esse sentimento.

Isso porque, sempre me irritava diante de uma grosseria de um garçom, uma resposta ríspida de alguém, à falta de atenção ao outro. Hoje penso que era porque me sentia muito mal sempre, pois parecia que o mundo estava contra mim. Transformei essa energia da raiva em briga, discursos e questionamentos a tudo e todos. Quando essa irritação parecia me sufocar, não adiantava nada. Qualquer pergunta ou tentativa de me entender só piorava minha ira, pois tentava me explicar e as palavras me fugiam ou então, eu não conseguia me fazer entender o que me levava a mais e mais raiva.

Assim, durante boa parte de minha vida, eu fui brigona, barraqueira até.  Desestruturava e não media as consequências de nada.  Ia fundo, de cabeça. Já enfrentei homem armado. Já persegui ladrão favela a dentro, atrás de minha bolsa furtada. Não hesitei em dizer à minha sogra que ela devia ter fechado as pernas, quando ela reclamou da falta de pílula no seu tempo. Não me orgulho disso, ao contrário.

Briguei no posto de gasolina, com motorista de táxi, no hospital, na rua, em família, no trabalho – sai de ambulância, tamanha foi a crise.  Enfrentei meu pai policial, vizinho barulhento, professor que se considerava o dono da razão, namorado safado, padre sem noção, pastor reacionário, espírito incorporado, chefe assediador. Parecia que diante da injustiça só a energia causada pela ira me confortava e me levava às vias de fato.  Quando finalmente, me acalmava sofria de ressaca moral. Com o tempo, uma exaustão tão grande me tomou mais e mais.  Meus músculos criaram memória de retesamento, eu nunca relaxava, a adrenalina era constante.  Vivia em alerta, o que me causou uma estafa gigante no corpo e na alma.  Estava cansada de viver.  Amava ir para o bloco cirúrgico para apagar o mundo.

Na curva de meus quarenta anos, percebi que não podia mais viver assim. Aprofundei meus estudos e prática budistas, passei a estudar a cultura de paz para a construção de um mundo justo, digno e inclusivo.

Li Esquivel, Daisaku Ikeda, a história de Tina Turner, de Courtney Love. Introjetei o entendimento da Paz, Cultura e Educação como necessidades humanas.  Estudei e estudo Comunicação não Violenta, Educação Humanística,  Programação Neurolinguística.

Hoje sei que todos nós podemos errar e só não admito erros por negligência, crueldade ou má fé.  Mas percebi que não há acerto sem o erro, que hoje prefiro chamar de processo, para chegarmos à nossa meta.  Aboli o vitimismo e a autopiedade que sempre me fizeram retroceder ou me paralisavam.

Construo dia a dia a minha Revolução Humana e procuro avançar pelo menos um milímetro, todos os dias.  A evolução é inerente ao ser humano. A Revolução não, tem a ver com nossa transformação, nosso crescimento. Por isso, aprendi que não avançar é o mesmo que retroceder, mas que é melhor que todos avancemos um passo, que eu avance sozinha muitos passos.

Procuro observar e não julgar, diariamente, pois sei que não há como conhecer todas as perspectivas e vieses para bater o martelo de juiz. Aliás. Reconheço minha humanidade e procuro enxergar a humanidade do outro, ciente de que todos nós possuímos potencial latente, único e intransferível.

Escolhi enxergar o mundo pela via do afeto pois para cada cara quebrada que tenho, conquisto cinco vezes mais, em descobertas sobre a riqueza humana. Normalmente tenho medo de me expressar pois sinto que sou traída pelas palavras que nem sempre espelham meu coração/mente.

Decidi optar pelo caminho do meio, como estratégia de vida, depois que descobri que esse caminho não é o ponto mediano entre dois extremos. O caminho do meio só pode ser traçado e conquistado quando conhecemos o melhor dos dois extremos. Acredite, sempre existe algo maior por trás de atitudes extremistas.

Hoje, ainda tenho minhas crises mas, via de regra, saio delas com algum aprendizado que faço questão de exercitar para meu crescimento pessoal e do ambiente que me cerca.

Hiperfoco e Ansiedade

Tempo de Leitura: 2 minutosEm meu livro de estreia, “Outro Olhar”, lançado em 2015, registrei, no que se refere ao Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), que “a ansiedade, comum na síndrome, deve ser canalizada para algo prazeroso e produtivo” (Mendonça, 2015, p. 22). Eu estava com 18 anos à época e procurava meios de me manter ativa, pois o tédio sempre foi gatilho para minhas crises. Era algo que chegava de mansinho, fomentado por eu não conseguir gerenciar bem as tarefas do meu dia, muitas vezes por dificuldade em tomar decisões sobre o que fazer ou como organizar minha rotina, o que, aos olhos de pessoas neurotípicas, podem parecer tarefas corriqueiras e mesmo intuitivas.

O hiperfoco em artes e comunicação me preparou para entender outras pessoas e a galgar espaços profissionais e sociais com maior plenitude. Esse interesse intenso, destinado a assuntos específicos por um cérebro hiperexcitado, sempre foi meu aliado para lidar com sintomas de depressão e ansiedade que enfrentei por toda a vida. Minha paixão por determinados produtos midiáticos, como os livros de Sophie Kinsella e o cinema de Sofia Coppola, além do estudo do budismo e de outros temas, me trazem paz e equilíbrio em momentos difíceis. 

À medida que comecei a produzir meus próprios conteúdos, desenvolvi uma espécie de compulsão por essa atividade. Minha mãe brinca que, em alguns momentos, eu preciso de um grande evento para me sentir bem. Em breve, nós duas comunicaremos algumas notícias maravilhosas com relação aos novos rumos do nosso projeto “O Mundo Autista”. 

Essas novidades me deixam muito feliz, mas também me causam maior ansiedade. Não por qualquer receio de que algo venha a dar errado, mas porque de repente eu me vejo não conseguindo não pensar em outra coisa por algumas horas do meu dia. O hiperfoco constitui uma parte importante do meu estar no mundo, mas, ao mesmo tempo em que ele pode ser utilizado para aliviar a ansiedade, também pode potencializar essa característica que, em excesso, é desagradável. É como quando somos crianças e descobrimos que vamos fazer um passeio legal, mas o que é a priori algo alegre por vezes nos faz perder o sono até o dia do evento chegar. 

O dia a dia do cérebro neurodivergente

Tempo de Leitura: 3 minutos

Eu fui para casa de minha mãe, numa cidadezinha próxima a Beagá, aqui em Minas Gerais, no dia 23 de dezembro de 2020 e só retornei à minha casa, no início desse mês. Situações novas que nos impõe a pandemia.

Minha mãe, Irene, amou a ideia. Eu também. Foram muitas nossas trocas, inclusive fiz um vídeo para o canal Mundo Autista sobre meu aprendizado ao lado dela. Ouro puro essa troca de gerações. Perde quem ainda não se atentou para a coeducação entre gerações.

O doutor, mestre e psicólogo José Carlos Ferrigno estudou e analisou as trocas de afeto e de conhecimentos específicos que uma geração repassa à outra. Essa aproximação das gerações (conforme conclui o psicólogo) pode incrementar a inclusão social de velhos e jovens, enriquecendo-os mutuamente, desenvolvendo a tolerância e a solidariedade e amenizando, portanto, os efeitos nocivos do preconceito etário.

Foi exatamente o que vivi com minha mãe, durante quase 5 meses de convívio diário, uma vivência rica em aprendizado. Em contrapartida, minha mãe intensificou a curiosidade pelo uso da tecnologia, lançou-se ao ambiente do estudo virtual e, agora, é nossa parceira no Mundo Autista. Mas algo em mim e na Sophia incomodava imensamente a amada Irene: ela reclama de nosso ritmo frenético e de nosso cérebro que parece não descansar nunca.

Expliquei a ela que para mim e Sophia estarmos com ela, fora de nossa casa, precisaríamos criar um ambiente com o qual nos identificássemos para que nos sentíssemos confortáveis. Não foi difícil com um quarto só para a Sophia e outro para mim. O escritório com tripés, notebooks, microfones e outras ‘cositas mas’ foi montado na sala. Nada que incomodasse, devido à estrutura da casa do pequeno sítio, onde a cozinha é o local da conversa e da troca de afetos e carinhos traduzidos pela culinária mineira.

Antes, porém, fizemos uma reorganização para que tivéssemos menos apelo visual, o que nos dispersa e estressa. A disposição de tudo na cozinha também teve de atender à minha lógica meticulosa para que eu pudesse cumprir minhas tarefas de eventual dona de casa e cozinheira, sem muito estresse.

Lá fora, o jardim e o pomar eram bem cuidados e agradáveis à visão e convidativo a reflexões e clicks fotográficos. O galinheiro, antes construído com certo descaso (a meu ver), foi refeito, muito bem organizado – um verdadeiro lar para o galo e as galinhas garnizé.

Os horários do café da manhã e das refeições foram refeitos já que minha mãe, apesar de sua alma livre e rebelde) cedeu à organização metódica da filha. Por vezes, eu estava no meio de uma tarefa, coando café, por exemplo, e ela sugeria que colocasse o coador assim, o pó de outro jeito e, quando eu olhava aflita para ela, ela já se explicava: ‘eu me esqueço, já estou te confundindo.” Eu sorria, meio encabulada e reforçava que quando me lanço à uma tarefa, meu cérebro é todo direcionado ao passo a passo desenhado em minha mente. “Pode passar as instruções, mãezinha, mas explique de maneira assertiva, com poucas palavras, antes de eu começar a fazer ‘do meu jeito’”, eu emendava constrangida.

Mas certo é que, por vezes, ela me interrompia mesmo, eu me desorganizava, a gente ria e começava tudo de novo. Percebi que a vida é assim, que posso ser flexível e que o jeito do outro, as tentativas, tudo isso faz parte de um aprendizado maior também. A única coisa que não expliquei para minha mãe foi que, para me relacionar com mais gente além da Sophia, eu passo o dia inteiro negociando com meu cérebro, criando estratégias e mais estratégias, na tentativa de entender esse mundo tão complicado à minha volta.

Meme Sincero: ‘Ah, mas você fala: como que pode ser autista?’

Tempo de Leitura: < 1 minutoDéficit de comunicação nem sempre quer dizer que a pessoa não fale.

Quando se trata das características do autismo, em especial as que são critérios de diagnóstico, a dificuldade de comunicação está sempre presente — e aqui estão inseridas a comunicação verbal e não verbal.

Além disso, este aspecto está intimamente ligado aos outros pontos que servem de critério para diagnosticar o TEA, que são os interesses específicos e comportamentos repetitivos; além da dificuldade de interação social.

Pois pensem comigo: uma pessoa que, como é comum no autista, só fala de seus interesses específicos e tem dificuldade de se inserir em outros temas, logo terá dificuldade de comunicar, pois pode fugir facilmente do contexto num meio de socialização, como no exemplo da imagem onde o assunto de hiperfoco do menino, no caso hipopótamo, claramente não serviria para um flerte.

Logo, o interesse específico que ocasionou a dificuldade de comunicação social, culminou numa imensa dificuldade de interação social.

E assim é o TEA explicado em um meme.

Desenvolvimento do app Tismoo.me está a todo vapor

Startup Tismoo.me é destaque no portal Tecmundo

Tempo de Leitura: < 1 minutoO Tecmundo, um dos maiores portais de tecnologia do país, destacou a startup Tismoo.me nesta quinta (20), com o título: “Startup anuncia a 1ª rede social do mundo dedicada ao autismo” — falando sobre a inovação deste projeto dentro do ecossistema que envolve o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).

Na reportagem, o autor Reinaldo Zaruvni, destaca “a ambiciosa meta de tornar os desafios de se conseguir diagnósticos, cuidados e tratamentos um processo cada vez mais rápido, eficiente e, principalmente, menos dolorido”, por meio da organização e estruturação de dados, usando a tecnologia para trazer benefícios à pessoa com autismo e outras síndromes relacionadas e seus familiares.

Acessibilidade para autistas

Outro ponto em destaque foi sobre a acessibilidade e inovação: “Dentre as características da Tismoo.me estão recursos de acessibilidade pensados para as pessoas com autismo, que permitem, por exemplo, desligar a exibição de emojis e ligar a visualização da descrição ao lado de cada ilustração, evitando que o público ao qual são direcionados se sinta hiperestimulado visualmente ou não entenda os significados”.

A reportagem completa está no site do Tecmundo (https://www.tecmundo.com.br/redes-sociais/217668-startup-anuncia-1-rede-social-mundo-dedicada-autismo.htm).

Convite para a Tismoo.me

Quem ainda não está na Tismoo.me, pode criar sua conta acessando, diretamente do seu celular, o convite exclusivo do Canal Autismo, neste link: https://app.tismoo.me/1PFN15JnU2VPLWac8.

Tismoo.me é rede social voltada ao autismo

Texto original do Portal da Tismoo.

Autista pode dirigir carro?

Tempo de Leitura: 4 minutosA primeira vez que me deparei com esse questionamento foi quando escrevi o livro Camaleônicos – a vida de adultos autistas. O livro é uma espécie de reportagem com 10 autistas que falam sobre sua vida pessoal e profissional, conforme estes trechos:

Capítulo: O autismo leve não é leve em sofrimento: “Em sua vivência profissional, Maria sempre foi muito honesta e quando, em um de seus trabalhos, seria preciso mentir para demitir alguns funcionários, ela não conseguiu, pois que eles tinham famílias para sustentar. Preferiu pedir demissão. Maria não faz nenhum acompanhamento terapêutico, embora apresente grande dificuldade mesmo para dirigir, fazer manobras e até já ‘arrancou alguns retrovisores de carros por aí…’.” (pág.36) assim como Clarice que se obrigou a dar conta do que os outros davam. (…) Foi assim que ela tirou carteira de motorista, na sétima tentativa, mesmo que isso a tivesse levado a uma exaustão que só ela e o namorado, à época, tivessem tido a dimensão. Essa carteira de motorista, ao invés da conquista de liberdade e autonomia, tornou-se um pesadelo que a infernizou por vários anos. Ela detestava ir a lugares que não conhecia, não conseguia dirigir bem à noite (todos apostavam na miopia como causa) e já saía estressada pensando na volta.

Era cobrada pelos amigos e família que diziam a ela que o medo era bobo e irreal já que ela dirigia muito bem. Clarice, com voz sumida, afirmou que claro que dirigia bem, pois isso era um ato mecânico, era treino. Mas ninguém acreditava na falta de noção de tempo e espaço para uma ultrapassagem por exemplo. ‘Coisa de toda mulher’, foi o que ela ouviu a vida toda. (…) Ela tinha prejuízo em algumas percepções, mas não deixou de dirigir por isso. Como já era de costume, redobrava sua atenção e seu esforço.” Trechos retirados pela editora.

Capítulo Enquanto houver desconhecimento, haverá sofrimento: “Gostaria de dançar, por exemplo, mas isso exige um esforço muito grande. Estou esperando uma ocasião em que eu consiga concentrar energia para aprender, com instrução e tudo, pois só assim acho que consigo enfrentar as coisas. Tive muita dificuldade para aprender a dirigir. Ainda assim, Henrique consegue aprender e enfrentar as circunstâncias, uma coisa de cada vez. ‘E a vida adulta tem me trazido muitas coisas novas, sempre, ao mesmo tempo.’ (Pág 92)

Capítulo A Inclusão é o espaço das diferenças: “Os testes neuropsicológicos explicaram muita coisa como (…) a dificuldade em fazer coisas aparentemente simples como dirigir, cozinhar ou fazer compras; a dificuldade com a atenção seletiva que quase me deixa extremamente estressada e confusa frente a lugares com muitos estímulos e barulhos.” (Pág 169)

Observadas todas essas experiências, inclusive a minha (Clarice é meu pseudônimo neste livro), eu não tenho dúvidas de que o autista (se quiser) deve se submeter aos exames para tirar a habilitação como motorista – de forma inclusiva e, se aprovado, pode e deve dirigir. Na realidade, os autistas têm completa noção de suas limitações, o que os torna mais atentos e prudentes.

Tanto que no dia 30 de abril, eu dirigia para o sítio de minha mãe e paramos num supermercado às margens da MG10 – Estrada Real. Fizemos compras e, ao sair, conferi e, ao longe, vinha um caminhão. Me dei conta de que não havia recolocado o cinto de segurança. Ao colocá-lo, voltei a olhar e o caminhão já estava mais próximo, mas não o suficiente para me impedir de entrar na BR. Foi o que eu fiz. Já havia percorrido alguns quilômetros quando percebi que o motorista do caminhão estava correndo para me alcançar. Acelerei e não pensei mais no caso.

Acontece que, quando a pista perdeu o acostamento numa área ladeada por encostas e sem duplificação para a pista da outra mão, eu observei o caminhão crescendo no meu retrovisor interno. Não acreditei. Comecei a orar o meu mantra bem alto e joguei o meu carro, o máximo que consegui, rente à encosta. Segurei firme o volante e torci para que o espaço deixado entre meu carro e a fileira de carros na contramão desse para o motorista irresponsável. Irresponsável não, criminoso, passar sem problemas.

Voltei à minha mão de direção e todos à volta estavam aterrorizados. Disse à minha mãe que a manobra do infeliz havia sido proposital e ela sugeriu que ele devia estar com algum problema que justificasse a atitude insana. Embora minha mãe e minha filha estivessem apavoradas, eu fechei a questão: “foi de propósito. Esse cara não podia dirigir.” Mais à frente, numa área de ultrapassagem permitida, tive de ultrapassar o mesmo caminhão para não ficar presa atrás dele.  Segui mais eis que 20 minutos depois, ele surge, crescendo, novamente, em meu retrovisor. Só que desta vez, eu estava perto da entrada do condomínio e já havia comércio à beira de estrada. Saí da pista e resolvi dar uma boa margem de frente ao pseudo profissional do volante.

Não acreditei quando vi a manobra para conversão à esquerda: ele estava indo para o mesmo condomínio que eu. Fui atrás. Ele parou na portaria reservada aos caminhoneiros que fazem entregas e eu, parei na portaria dos condôminos. Saí do carro e minha mãe pediu que eu não fosse. Mas eu PRECISAVA saber por que aquele homem fizera aquilo, por que ele colocou a vida da minha família em risco, jogando aquele caminhão enorme no meu ‘March’. Ingenuidade autística, pois ele ironizou: Quem? Eu? A senhora está enganada. Foi a gota d’água: estava clara a má fé. Falei com ele que se não fosse a perícia da motorista amadora, o profissional tinha causado um grave acidente. Tive um colapso.

O síndico, que estava na portaria, interveio ponderando que trânsito é assim mesmo. E eu, muito nervosa: “Claro que não é. Trânsito é lugar de regras, de direção respeitosa e saudável.” Fui para casa e pedi à uma fonte da Polícia Civil que checasse a placa do motorista pois ele fazia carreto para o condomínio. Resultado: Um processo pela Lei Maria da Pena e dois por danos materiais em rodovias, fugindo e deixando o prejuízo para a vítima.

Querem mesmo me convencer de que autista é que pode representar risco ao trânsito? Não, sempre haverá seres humanos do bem e do mal. Autistas ou não autistas.

Família que criou app para autistas, recebe capacitação do programa HealthTech Barretos

Tempo de Leitura: < 1 minutoUma iniciativa do Sebrae-SP e Hospital de Amor, por meio do Hub Harena Inovação, o programa HealthTech Barretos selecionou o Matraquinha, aplicativo de comunicação alternativa para participar do processo de aceleração, todo o programa será online e terá duração de 12 semanas. Ao todo, participam 14 startups do setor de saúde.

As startups inscritas passaram por uma análise inicial da equipe do Sebrae para avaliar a aderência aos critérios do programa: grau de inovação, modelo de negócio e potencial de escala. As startups qualificadas foram convidadas para apresentar o pitch (apresentação rápida de uma ideia ou oportunidade de negócio) para uma banca formada por dois profissionais do Sebrae, um médico do Hospital de Amor e um representante da comunidade de startups de Barretos, o Bruto Valley.

“A aprovação neste programa é mais um indicador que estamos no caminho certo e será de extrema importância para a evolução do Matraquinha”, ressalta Wagner Yamuto, co-fundador da empresa.

Aplicativo

Matraquinha é um app de comunicação alternativa para ajudar crianças e adolescentes com autismo a transmitirem seus desejos, emoções e necessidades através de dispositivos móveis (smartphones e tablets).

A comunicação da criança é feita através de figuras e que, ao serem clicadas, fazem com que uma voz reproduza o que a criança deseja transmitir.

Mais informação sobre o programa estão no site contato.sebraesp.com.br/healthtech/. E, sobre o Matraquinhahttps://www.matraquinha.com.br.

Família que criou app para autistas, recebe capacitação do programa Healthtech Barretos - Canal Autismo / Revista Autismo

Telas do aplicativo Matraquinha.

 

‘SARALmoço’ promete mostrar o quanto o TEA tempera a arte

Tempo de Leitura: < 1 minuto

O congresso da Associação Caminho Azul acontece no próximo mês (junho) e uma das maiores atrações do Espaço Cultural do evento será a mostra cultural “SARALmoço — O tempero do TEA na arte, o encontro entre o cênico e o autismo”, com a curadoria do EyeContact, coordenado por Grazi Gadia. O tema será “Do lockdown ao Open-up — Do isolamento social a uma conexão maior pela arte”.

Com idade mínima de cinco anos de idade, autistas poderão participar em quatro categorias: literatura, música, artes plásticas e performance artística. As inscrições podem ser feitas até dia 25.mai.2021.

Para saber mais informações a respeito, escaneie o QR-code ao final do vídeo (ou clique aqui). O regulamento do SARALmoço está neste link.

Vídeo

Academia do Autismo distribuirá 30 mil gibis de dicas do André

Tempo de Leitura: < 1 minutoA Academia do Autismo recebeu nesta segunda-feira (17), mais de 30 mil exemplares da revistinha do André, com Dicas de Atividades do Centro Neuro Days, voltado à crianças, em especial as autistas, que podem ser realizadas até mesmo em casa. Este é um fruto da grande parceria entre a Academia do Autismo, a Revista Autismo/Canal Autismo e o Instituto Mauricio de Sousa.

Academia do Autismo distribuirá 30 mil gibis de dicas do André - Canal Autismo / Revista Autismo

Caixa com remessas do novo gibi do André com dicas de atividades para crianças, especialmente autistas.

A equipe da Academia do Autismo já está preparando toda a distribuição, que será realizada de forma ampla, especificamente à instituições que trabalham com pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).

Você possui ou trabalha em uma instituição que se enquadra nesse critério? Envie um e-mail para: [email protected] e solicite o formulário para receber a revistinha impressa em primeira mão.

Ah, e se você deseja baixar a versão digital, tenha acesso ao gibi em PDF no link: academiadoautismo.com.br/materiais/revista-andre/.

Vídeo de unboxing

Confira no vídeo abaixo, o unboxing preparado pela Academia do Autismo, na entrega dos 30 mil exemplares da revistinha do André e o depoimento do diretor Fábio Coelho:

‘E quando alguém na família não aceita o diagnóstico do autismo?’

Tempo de Leitura: < 1 minutoNesta segunda feira (17), o neuropediatra Paulo Liberalesso publicou um vídeo sobre a dificuldade dos familiares na aceitação do diagnóstico de autismo.

“Tudo começa em um diagnóstico correto e precoce”, diz Liberalesso. É preciso compreender o momento de fragilidade dos familiares que não acreditam no diagnóstico e muitas das vezes levantar dados e fatos que contribuam para a aceitação que pode ser subjetiva em alguns casos, mas que vão “convencer” os familiares.

Paulo Liberasso é médico neuropediatra, mestre em neurociência, doutor em distúrbios da comunicação e diretor técnico do Cerena.

Vídeo

Dirigido por Sophia Mendonça e Selma Sueli Silva, documentário ‘AutWork’ é selecionado para festival no Reino Unido

Tempo de Leitura: 2 minutosO curta-metragem documental “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho“, uma produção do “Mundo Autista” dirigida por Sophia Mendonça & Selma Sueli Silva, mãe e filha diagnosticadas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), foi classificado para a seleção oficial do festival “List-Off Global Network: First-Time Filmmaker Sessions“.  O documentário, que concorre na categoria Melhor Curta-Metragem, marca a estreia na direção cinematográfica da dupla de jornalistas e escritoras e investiga a inclusão de autistas no mercado de trabalho.

Dirigido por Sophia Mendonça & Selma Sueli Silva, documentário "AutWork" é selecionado para festival no Reino Unido — Canal Autismo / Revista AutismoO evento é sediado em Pinewood Road, na Inglaterra e ocorre entre 24 e 31 de maio deste ano. Os cinco melhores filmes de cada categoria serão selecionados pelo público após exibição e votação online. Os finalistas serão avaliados pelo júri interno do festival, que definirá os vencedores, e exibidos no Pinewood Road e no Los Angeles Lift-Off Film Festival em Raleigh Studios, Hollywood. Para Selma Sueli Silva, a repercussão internacional é uma oportunidade de “ampliar a visibilidade do Espectro e da pessoa autista, facilitando a oportunidade de mais acolhimento e menos preconceito”.

A dupla de cineastas atualmente se vê envolvida em novos projetos no cinema e o próximo documentário tem previsão de lançamento no final deste ano. “Como contadoras de histórias, estamos sempre em busca da oportunidade de ampliar o repertório sobre temas que foram pouco ou nada discutidos, ou não tiveram a chance de serem discutidos sob determinada ótica”, analisa Sophia Mendonça.

Trailer

Confira o trailer de “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho”:

 

Documentário