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'Saber disso não é um problema', diz empresária autista sobre diagnóstico — Canal Autismo / Revista Autismo

‘Saber disso não é um problema’, diz empresária autista sobre diagnóstico

Tempo de Leitura: < 1 minutoVeridiana Merillo, de 32 anos, é empresária e foi diagnosticada com autismo na vida adulta em 2021. Desde 2017, ela atua no Centro de Equoterapia de Jaguariúna, que também atende crianças autistas.

A história de vida da empresária foi contada no UOL Universa. “Entendi que não havia nada de errado comigo e que eu poderia ter uma vida funcional, feliz e plena. Saber disso não é um problema, e sim uma característica que transforma a vida”, disse ela na entrevista.

A camuflagem social no autismo

Tempo de Leitura: 3 minutosNa infância, era recorrente receber críticas por ser inconveniente. Embora os adultos as chamassem de orientações. Eles me viam como uma criança que não se importava em magoar os outros. Mas não por eu fazer mal a alguém, de propósito. Na verdade, como autista, eu não tinha uma percepção adequada das regras sociais.

Eu dizia frases do tipo: “Porque você não vai pra sua casa?”, se a visita demorava para ir embora. Ou “Olá, pessoas que eu não conheço”, quando me pediam para cumprimentar um desconhecido. Certo é que, analisando hoje, parecia mesmo ter um tom irônico ou proposital no que eu falava. Contudo, a realidade é que eu era profundamente literal. Além de que eu não tinha noção da ‘esquisitice social’ de meus comentários.

A minha interação com outras pessoas, quase sempre adultas, me fez perceber o quanto eu era desagradável em meus comentários e observações. Nascia, nessa época, a necessidade intensa de agradar o outro. E essa exigência me acompanhou e se intensificou ao longo de minhas experiências. Comecei, então, a chamada camuflagem social no autismo.

O que é a camuflagem social?

Assim, o processo de camuflagem social é comum em pessoas que estão no TEA. Mas com um grau mais sutil. Desse modo, a camuflagem é um conjunto de estratégias elaboradas para disfarçar características do autismo. Ou seja, são táticas que envolvem desde gestos e entonações da voz até a modulação de assuntos para uma conversa. Em geral, isso acontece, com a utilização de mecanismos de cópia. Por exemplo, ao copiar comportamentos de pessoas neurotípicas.

A camuflagem social, ou masking, é um mecanismo importante para a adaptação de autistas ao convívio social. Principalmente, quando se trata de um ambiente pouco acessível a diferenças. Contudo, esse esforço para agir conforme o esperado socialmente, pode contribuir para o surgimento ou piora de condições coexistentes. Como quadros de ansiedade ou depressão que podem se intensificar pelo esforço. O que gera um gasto acentuado de energia.

Autismo em mulheres e a camuflagem social

A professora do Departamento de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ana Amélia Cardoso, explica que a camuflagem do autismo é mais comum nas mulheres. Ou seja, as meninas são criadas para atender às expectativas sociais. Embora homens autistas também possam usar a camuflagem de forma eficiente também. Mas as mulheres tendem a ter maior habilidade na percepção e no uso dessas estratégias.

A neuropsiquiatra Raquel Del Monde ressalta que mulheres costumam ser mais ágeis e eficazes na apreensão de habilidades sociais por meio da cópia. Isso por questões neurológicas ou por maior cobrança de socialização. Grupos de meninas, por exemplo, tendem a favorecer brincadeiras de modelagem. Ou seja, situações em que amigas oferecem dicas e corrigem comportamentos considerados inadequados.

Mulheres autistas, assim, costumam ser mais extrovertidas. Além de atentas às reações de outras pessoas e mais preocupadas com as regras sociais. Assim, essa aparente facilidade na interação social acaba por dificultar o diagnóstico delas. Certamente também, porque o autismo no feminino apresenta características mais sutis. Embora não menos impactantes à vida da pessoa.

A camuflagem na minha trajetória

Eu sempre gostei de analisar as nuances e camadas que envolvem cada atitude das pessoas. Os comportamentos delas, ao meu redor, eram alvo de meu interesse. Assim como a reflexão sobre o que estava por trás de cada atitude. A verdade é que eu queria compreender o que não estava óbvio. Aliás, queria entender o que sequer, era comentado.

Então, eu anotava motivações. Ou questões mal resolvidas. E até os traços mais complexos da personalidade do outro. Eram aspectos que, muitas vezes, nem mesmo a pessoa percebia. Ou assumia.

Dessa maneira, criava “personagens” diferentes. Um para cada interação social. Antes, eu observava as características do grupo que queria me relacionar. Assim, eu detectava o que era esperado de mim. Além disso, traçava o perfil de de cada um deles.

O mais interessante é que eu chegava a reproduzir ideias das outras pessoas. Mesmo que discordasse delas. Meu objetivo era ganhar a simpatia de todos. Eu agia de forma inconsciente. É que tinha grande receio da rejeição.

Essa atitude foi marcante na minha pré-adolescência. Nessa época, colegas e familiares diziam que eu parecia ter mais de uma personalidade. Afinal, eu me adaptava às características do grupo social com que interagia. E essas turmas agiam, cada qual à sua maneira.

A busca por equilíbrio

Escrevi o romance “Danielle, Asperger” em 2016. Nele, eu falo sobre essa camuflagem social. O livro é sobre uma adolescente autista. Ela sonha em se encontrar com a sua atriz favorita. A narrativa ficcional foi a oportunidade para minha reflexão, autocrítica e autoaceitação do autismo.

Até que ponto é interessante abraçarmos nossas características mais profundas? Como saber quando a adaptação é fundamental ao aprimoramento social? Como ter qualidade de vida? Esses são alguns dos questionamentos levantados na obra.

A busca pelo equilíbrio é constante. O verdadeiro caminho do meio não está no ponto médio entre eles. E sim, em conhecer e aplicar, com sabedoria, o melhor de cada extremo.

TEA feminino

Tempo de Leitura: 2 minutos

Por Eliane Pedroso

Membra do Conselho de Ética da Onda-Autismo, Pós-graduada pelo Instituto Albert Einstein em Fronteiras da Neurociência e Juíza do Trabalho.

O aumento expressivo do número de diagnósticos de TEA tem como uma de suas causas correspondência direta com o autismo feminino.

Considerado como um transtorno que acometia, predominantemente, meninos e que já recebia pouca dedicação da comunidade científica em geral em comparação a outros transtornos, o TEA só recentemente tem sido estudado em meninas, de modo que a solidificação do conhecimento científico em autismo feminino está ainda em seu princípio.

Foi assim que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA concluiu, não sem provocar bastante incômodo em profissionais menos atualizados na área da saúde, que, em 2020, a prevalência de crianças com TEA, que era de 1 para 166 no ano de 2004, atingiu 1 para 54. Em relação ao gênero, a prevalência também aumentou para 1 menina a cada 4 meninos, já havendo estudos que reduzem essa proporção para 1 menina a cada 3 meninos.

O incômodo que os dados sobre TEA tem causado gira também em torno das dúvidas sobre a fidelidade dos diagnósticos, o que tem travado um verdadeiro embate entre profissionais que, por um lado, têm-se atualizado no tema e ampliado um horizonte que sempre foi polêmico em medicina, e outros que supõem estar havendo um “boom” indiscriminado de diagnósticos.

Em meio a tanta discussão, têm crescido as próprias mulheres. Antes habituadas a terem pouca voz, nós mulheres passávamos a vida sem diagnóstico, tantas vezes só suspeitando do próprio autismo após o nascimento ou a adolescência dos filhos.

Vítimas de menor estudo científico, de uma sociedade em que impera o patriarcado e do olhar pouco atento às suas demandas e aos seus problemas, as próprias mulheres tiveram de abrir espaço para que finalmente percebessem que mulheres também podem estar na tríade do TEA e, simultaneamente, partilhassem da dificuldade de comunicação e interação social associada a comportamentos repetitivos e restritos.

São essas as características do autismo que foram adotadas pelo DSM-V e que devem ser avaliadas, gostem delas ou não. Elas podem estar presentes em homens ou mulheres, e tanto em pessoas nas quais predominem comportamentos externalizantes como internalizantes. Felizmente, mulheres autistas com comportamentos predominantemente internalizantes começam a ser cada vem mais diagnosticadas graças ao avanço da ciência. Porém, ainda, infelizmente, mulheres autistas com predomínio de comportamentos externalizantes recebem pouco diagnóstico específico e acabam sendo inseridas em diagnósticos mais palatáveis para a feminilidade: timidez, transtornos de personalidade, depressão e ansiedade.

Por isso, insistimos tanto na importância do diagnóstico. Não se trata de capricho ou embuste, mas do direito à saúde, minimizando riscos e prejuízos que o autismo possa gerar e maximizando as potencialidades e a qualidade de vida. Não se trata de querer fazer parte, mas de ser parte e, nesse contexto, ser aceita e aceitar-se com dignidade.