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Redação da Revista Autismo

Na intervenção fonoaudiológica é preciso avaliar e tratar o quanto antes

16 de setembro de 2010

Tempo de Leitura: 2 minutos

por Renata de Lima Velloso

Nos casos de autismo ou transtornos do espectro do autismo (TEA), é de extrema importância a adequada avaliação e intervenção de linguagem, uma vez que é um aspecto notadamente comprometido. As alterações de linguagem influenciam no prognóstico destes quadros, podendo variar de acordo com a severidade do quadro. A  adequada avaliação de linguagem auxiliará no  diagnóstico e pro-verá um adequado planejamento de intervenção.

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Academia do Autismo

A habilidade de linguagem se desenvolve em diferentes níveis de forma ordenada e contínua: o nível fonológico (fonemas, sons da fala formando palavras), sintático (formação de sentenças), lexical (vocabulário), semântico (significado) e pragmático (uso funcional da comunicação). Na intervenção, serão trabalhadas as habilidades necessárias, ou seja, os aspectos onde foram apresentadas dificuldades durante a avaliação.

Um aspecto muito importante na intervenção dos quadros de TEA é a comunicação funcional. Os indivíduos com TEA em sua maioria apresentam dificuldade em utilizar a linguagem com funções comunicativas em um contexto de interação, em iniciar a comunicação e mantê-la de forma funcional, ou seja, apresentam alteração no nível pragmático.

Podem apresentar dificuldades de nível fonológico e sintático, como atraso ou ausência de fala, alterações de articulação, de prosódia (fala monótona), inversão pronominal (uso de “ele”, em vez de “eu”) e ecolalia (repetição da fala dos outros). Nos casos de ausência de fala, deve-se pensar junto à família a necessidade do uso de um sistema de comunicação suplementar e alternativa.

Outras dificuldades são comumente observadas no nível semântico, como a rigidez de significados (um único significado para um significante, acarretando dificuldades para a compreensão de ambiguidades e metáforas – muito comuns em piadas).

Outro aspecto alvo na intervenção é a teoria da mente, pois os indivíduos com TEA apresentam normalmente dificuldade na compreensão do estado mental dos outros e do seu próprio, não conseguem se colocar a partir do ponto de vista do outro, dificultando muito o diálogo e a interação social.

A habilidade de atenção compartilhada é um dos componentes que auxiliam na construção da Teoria da Mente e essencial também na intervenção. O foco da intervenção desta habilidade está em fazer com que o indivíduo com TEA consiga dividir adequadamente sua atenção entre os objetos e eventos a seu redor, usando contato ocular, gestos e/ou vocalizações.

Os jogos sociais têm um papel significante no desenvolvimento da habilidade de compartilhar interesses e no desenvolvimento da linguagem. É também muito importante que o processo de simbolização (capacidade simbólica, brincadeiras de faz-de-conta, imaginação) seja também trabalhado em intervenção. Esses aspectos podem ser trabalhados em terapia fonoaudiológica, visando a adaptação do indivíduo com TEA a contextos educacionais e sociais. A intervenção com orientações junto à escola e a casa dos indivíduos complementa o trabalho realizado em consultório.

As avaliações específicas das diferentes especialidades envolvidas completam-se como atividade de equipe, é muito importante a avaliação e discussão multidisciplinar. É essencial também o conhecimento por profissionais que atuam na área da saúde e infância, a respeito do desenvolvimento esperado na normalidade, para identificação precoce de possíveis desvios e condutas adequadas. O diagnóstico precoce possibilita intervenções terapêuticas e educacionais mais produtivas.


Renata de Lima Velloso é fonoaudióloga do Centro Universitário São Camilo, em São Paulo (SP), além de ser mestre e doutoranda em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e trabalhar com autismo desde 2002, e-mail: [email protected]


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